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Disparando cápsulas de semente do céu a duas por segundo e mirando 100 mil árvores por dia, os drones de reflorestamento que a Airbus ajudou a financiar com US$ 10 milhões acabaram em liquidação
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 27/07/2026 às 19:18
Ciência e Tecnologia
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A empresa britânica levantou mais de US$ 28 milhões, atendeu mineradoras como Rio Tinto e Glencore e chegou a gerenciar dezenas de milhares de hectares. A própria CEO, porém, avisava que jogar semente do céu, sozinho, produz pouquíssima árvore de pé.
A Dendra Systems, sediada em Oxford, no Reino Unido, combinava mapeamento aéreo de altíssima resolução, inteligência artificial treinada por ecólogos e drones de plantio para restaurar terras degradadas. Em setembro de 2020, a empresa levantou US$ 10 milhões em uma rodada colidereada pela Airbus Ventures, braço de capital de risco da fabricante europeia de aeronaves, ao lado da At One Ventures, da Future Positive Capital e da Lowercarbon Capital, fundo de Chris Sacca.
O modelo chegou a operar em escala relevante. Segundo balanço divulgado pela própria companhia, foram 38 projetos em 11 países, com mais de 50 espécies de vegetação e cerca de 8,67 milhões de sementes lançadas em centenas de hectares, concentrados sobretudo na Austrália e no Reino Unido. A história, porém, não terminou como o material de divulgação prometia: a matriz britânica entrou em administração judicial em setembro de 2025 e a subsidiária australiana recebeu ordem de liquidação em fevereiro de 2026.
O que a empresa fazia antes de disparar qualquer semente
A parte mais interessante da operação não era o disparo. Era o que vinha antes dele, e é justamente o que a diferenciava de dezenas de iniciativas parecidas.
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O processo começava com a criação de mapas de terreno extremamente detalhados obtidos por drones, aos quais a equipe adicionava informações específicas sobre vegetação e fauna. Segundo a empresa, o nível de detalhe era impossível de capturar por imagem de satélite ou por câmera comum acoplada a um drone, e incluía dados como a deterioração das folhas em arbustos e a altura de árvores individuais.
Essas imagens passavam por uma estrutura de aprendizado de máquina desenvolvida com participação de ecólogos da própria equipe. O sistema identificava e localizava espécies invasoras ponto a ponto no terreno, avaliava a condição do solo e apontava riscos como estresse da vegetação e erosão.
O contraste com a prática corrente do setor era o argumento comercial. Segundo a CEO Susan Graham, o padrão na maior parte dos locais é fazer levantamento manual de uma fração pequena da área e extrapolar o resultado para todo o planejamento e monitoramento. A proposta era substituir a extrapolação por medição.
A crítica que a própria CEO fazia ao plantio por drone
Aqui está o ponto que praticamente toda republicação dessa história ignora, e ele vem da boca da executiva que comandava a empresa.
Graham era explícita ao dizer que a companhia não era a primeira a explorar o plantio por drones, ou, nas palavras dela, a lançar sementes de árvore no chão com drones. E completava com a ressalva incômoda: em muitos casos, pouquíssimas árvores acabam crescendo e prosperando com esse método.
O raciocínio dela ia adiante. Uma árvore existe dentro de um ecossistema biodiverso, e seria preciso criar ou reparar esse ecossistema inteiro para obter de fato os resultados de sequestro de carbono esperados.
Traduzindo para o que interessa ao leitor: semente disparada não é árvore plantada, e árvore plantada não é árvore viva anos depois. Qualquer número de cápsulas por segundo descreve a cadência do equipamento, não o resultado ecológico. Foi exatamente por reconhecer isso que a empresa investiu no mapeamento e não apenas no disparo.
Como funcionavam as cápsulas e por que o formato importa
O sistema usava drones modificados para plantio aéreo, com sementes acondicionadas em cápsulas biodegradáveis e distribuídas conforme as especificações definidas pela análise de cada área.
O detalhe técnico que a empresa fazia questão de destacar é que as misturas não eram padronizadas. A composição de sementes era personalizada para o terreno específico, e não uma mistura homogênea aplicada em qualquer lugar independentemente das necessidades locais.
Havia um desafio de engenharia embutido nisso. Segundo Graham, a companhia investiu bastante em hardware para conseguir implantar a mistura exata de vegetação necessária no ponto exato onde era necessária, acompanhando a evolução do ecossistema ao longo do tempo, e a mecânica disso é complexa porque as sementes vêm em formatos, tamanhos e texturas diferentes. Uma cápsula que funciona para uma semente pequena e lisa não serve para uma grande e irregular.
Os números de produtividade e o que eles significam
As cifras de velocidade que circulam sobre o projeto vêm de fontes distintas e descrevem coisas diferentes, o que exige cuidado na leitura.
Publicações especializadas em robótica registram que a empresa era capaz de plantar até 100 mil árvores por dia com drones equipados de cápsulas biodegradáveis. Ainda na fase anterior, quando se chamava BioCarbon Engineering, a companhia divulgou em 2018 um número mais agressivo: dois operadores com dez drones plantariam 400 mil árvores por dia, e apenas 400 equipes conseguiriam plantar 10 bilhões de árvores por ano.
O material daquela época também trazia comparações de eficiência. A solução seria 150 vezes mais rápida e de 4 a 10 vezes mais barata que os métodos correntes, e a ambição declarada era chegar a 500 bilhões de árvores até 2060.
Vale registrar o contexto que a empresa usava para justificar a urgência. Segundo os dados que ela divulgava, 15 bilhões de árvores são destruídas por ano no mundo por causas naturais e humanas, e mesmo com cerca de US$ 50 bilhões anuais gastos em replantio persiste uma perda líquida de 6 bilhões de árvores ao ano. São números de campanha, apresentados por parte interessada, e devem ser lidos como tal.
Quem colocou dinheiro e quanto
O histórico de captação ajuda a entender por que o caso teve tanta repercussão. A primeira rodada relevante foi em abril de 2018, ainda como BioCarbon Engineering, com US$ 2,5 milhões aportados pela firma de investimentos SYSTEMIQ e pela fabricante francesa de drones Parrot.
A rodada que virou manchete foi a Série A, de US$ 10 milhões, anunciada em setembro de 2020. Ela foi colidereada pela Airbus Ventures, pela At One Ventures, pela Future Positive Capital e pela Lowercarbon Capital, com participação de Lionheart Ventures, SYSTEMIQ e Venture Souq.
Ainda houve uma Série B. Em maio de 2024, a companhia captou cerca de US$ 15,7 milhões em rodada liderada pela Zouk Capital, com participação da Aramco Ventures e novamente da Airbus Ventures.
O total levantado é objeto de divergência entre as bases de dados. Uma delas contabiliza US$ 28,3 milhões, enquanto outra menciona mais de US$ 42 milhões, provavelmente considerando instrumentos diferentes. Em qualquer das contas, trata se de uma empresa que atraiu capital de peso, incluindo o braço de investimento de uma das maiores fabricantes de aeronaves do mundo.
De BioCarbon Engineering a Dendra: a ambição que encolheu
A empresa foi fundada em 2014, em Oxford, com o nome de BioCarbon Engineering e uma missão bastante direta: usar drones para plantar 1 bilhão de árvores por ano e enfrentar o desmatamento em escala industrial. Entre os fundadores estava o engenheiro Lauren Fletcher, ex-NASA.
A mudança de nome acompanhou uma mudança de estratégia. Sob a liderança de Susan Graham, que havia sido diretora de tecnologia da operação anterior, a companhia migrou do foco em plantio por drone para uma plataforma mais ampla de dados e gestão ecológica, batizada de RestorationOS, combinando ecologia de campo com sensoriamento remoto.
Essa virada tem uma leitura clara e pouco confortável. A empresa que nasceu prometendo plantar bilhões de árvores passou a vender, principalmente, software de monitoramento ambiental, e os drones de plantio viraram um serviço dentro de um pacote maior. A tese original encontrou limites e foi redimensionada.
Os clientes eram mineradoras, não florestas
O modelo de negócio que sustentava a operação raramente aparece nas matérias sobre o assunto, e é ele que explica onde o dinheiro entrava.
A empresa atendia principalmente indústrias reguladas, com obrigação legal de recuperar áreas degradadas, além de desenvolvedores de infraestrutura e governos. Entre os clientes citados nas bases do setor estão as mineradoras Rio Tinto, Glencore e BHP.
Os números de área sob gestão também variam conforme a fonte. Uma base de dados aponta mais de 70 mil hectares gerenciados em maio de 2024, enquanto outra menciona 50 mil hectares e parceria com mais de 30 operadores de mineração na Austrália. Houve ainda projetos de recuperação de manguezais em Mianmar, em parceria com a Worldview International Foundation.
O fim: administração no Reino Unido, liquidação na Austrália
O desfecho é recente e não foi noticiado com o mesmo entusiasmo do lançamento. A Dendra Systems Limited, entidade britânica, entrou em administração judicial em setembro de 2025, com administradores nomeados no início de outubro daquele ano.
A operação australiana seguiu o mesmo caminho poucos meses depois. Registros públicos do órgão regulador de empresas da Austrália mostram ordem de liquidação e nomeação de liquidante para a Dendra Systems Pty Ltd, com data de nomeação em 2 de fevereiro de 2026 e publicação do aviso em 4 de fevereiro.
Não localizei comunicado público da empresa explicando as causas do colapso, nem declaração posterior de Susan Graham sobre o assunto. Uma organização que acompanhava a companhia como investidora social passou a listá la como não mais em operação. Uma empresa que levantou dezenas de milhões de dólares e atendia algumas das maiores mineradoras do mundo não sobreviveu a dez anos de operação, e esse dado é parte da história tanto quanto os números de sementes disparadas.
O que essa trajetória ensina sobre reflorestamento por drone
Mapas de altíssima resolução, inteligência artificial treinada por ecólogos, cápsulas biodegradáveis calibradas para cada terreno, capital da Airbus e mineradoras gigantes como clientes. Nada disso foi suficiente, e é justamente por isso que o caso vale ser contado inteiro, e não apenas pela parte bonita.
E você, o que acha dessa história? Plantar árvore com drone é solução real para o desmatamento ou é tecnologia bonita que resolve pouco perto do tamanho do problema? Faz sentido que empresas obrigadas por lei a recuperar áreas degradadas contratem startups para fazer isso, ou o incentivo acaba virando cumprimento de formalidade? E mais: você confia em número de árvore plantada divulgado por empresa, sabendo que semente lançada e árvore viva anos depois são coisas diferentes? Comente sua opinião, principalmente se você trabalha com meio ambiente, engenharia florestal ou recuperação de áreas degradadas e conhece a diferença na prática.
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Drones
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

