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Drone despeja 50 mil mosquitos por voo no Brasil e cobre 20 hectares em 10 minutos, tudo com machos esterilizados por radiação para que as fêmeas selvagens acasalem e não gerem nenhum filhote

Drone despeja 50 mil mosquitos por voo no Brasil e cobre 20 hectares em 10 minutos, tudo com machos esterilizados por radiação para que as fêmeas selvagens acasalem e não gerem nenhum filhote

8 min de leitura

Drone despeja 50 mil mosquitos por voo no Brasil e cobre 20 hectares em 10 minutos, tudo com machos esterilizados por radiação para que as fêmeas selvagens acasalem e não gerem nenhum filhote

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 29/07/2026 às 20:30

Ciência e Tecnologia

Drone solta 50 mil mosquitos estéreis por voo e cobre 20 hectares em 10 minutos em teste feito no interior da Bahia

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O drone sobe carregado com até 50 mil mosquitos machos esterilizados por radiação e os libera em 20 hectares em dez minutos. Eles procuram as fêmeas selvagens, acasalam e não geram descendente nenhum. É assim que a população do transmissor da dengue cai sem inseticida.

Um drone capaz de transportar até 50 mil mosquitos machos estéreis por voo e liberá los sobre 20 hectares em apenas dez minutos foi testado no Brasil e representou um avanço decisivo para a chamada Técnica do Inseto Estéril, método que usa radiação para esterilizar insetos e derrubar a população de vetores da dengue, da febre amarela e da zika. Os resultados foram divulgados pela Agência Internacional de Energia Atômica, a AIEA.

O trabalho foi publicado na revista científica Science Robotics em junho de 2020, com base em experimentos de campo realizados nos arredores de Juazeiro, na Bahia, em abril de 2018. A grande dificuldade não era esterilizar os mosquitos, e sim entregá los vivos e em condição de competir com os machos selvagens que já circulam na área.

Como um drone carrega 50 mil mosquitos sem matá los

Drones podem reduzir custos no uso de uma técnica nuclear para suprimir os mosquitos vetores do Zika e de outras doenças. (Foto: WeRobotics)

O segredo do equipamento está em um recipiente que resfria e comprime os insetos. Dentro do compartimento, os mosquitos são mantidos entre 8 e 12 graus, temperatura que reduz a atividade deles e permite empacotar até 50 mil machos em um espaço pequeno sem esmagar asas nem pernas.

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O resfriamento funciona como uma anestesia leve. Ao serem soltos em pleno voo, os insetos recuperam a temperatura e a mobilidade no ar antes de alcançar o solo. Nos testes, mais de 90% dos mosquitos lançados sobreviveram à queda, resultado que definiu a viabilidade do sistema, já que um método de liberação que mata metade da carga não serve para nada.

O que é a Técnica do Inseto Estéril

O princípio é mais simples do que o nome sugere. Insetos machos são criados em massa, expostos a radiação que os torna estéreis e depois soltos em grande quantidade na área que se quer tratar. Eles procuram as fêmeas selvagens e acasalam normalmente.

O que não acontece depois é o ponto central do método. Como esses machos não produzem descendentes, cada acasalamento vira uma oportunidade perdida de reprodução para a fêmea. Repetido em escala e por várias gerações, o processo derruba a população de mosquitos sem uso de inseticida. É controle de natalidade aplicado a insetos, e não veneno.

Sessenta anos contra pragas agrícolas antes de virar arma contra o mosquito

Aiea/Dean Calma Mosquitos macho nos laboratórios da Aiea, antes de serem esterilizados usando radiação.

A técnica não nasceu no combate à dengue. Ela é usada há mais de 60 anos contra pragas da agricultura, com resultados consolidados em casos como a mosca do mediterrâneo, que ataca frutas, e a mosca tsé tsé, transmissora da doença do sono.

A adaptação para mosquitos é recente e mais delicada. Um mosquito não tem a robustez de uma mosca de fruta, e cada etapa do processo precisou ser redesenhada. A promessa é justamente cobrir a lacuna que os métodos convencionais não alcançam, como situações em que redes tratadas com inseticida não funcionam bem ou em que existe pressão para reduzir o uso de pesticidas.

Por que o mosquito não pode ser jogado de avião

Aqui está o obstáculo que travava a expansão do método. Com pernas longas e frágeis e asas delicadas, mosquitos se machucam com facilidade nos sistemas de liberação aérea usados para outros insetos, como aviões e girocópteros, adaptados a espécies bem mais resistentes.

Por causa disso, a liberação de machos estéreis era feita por terra, com equipes percorrendo a área a pé ou de veículo. É um trabalho caro, exaustivo e lento, incompatível com programas de saúde pública que precisam cobrir bairros inteiros de forma repetida durante meses. O drone entrou exatamente nessa fenda operacional.

Dez minutos de voo contra duas horas de equipe no chão

A comparação apresentada pelo entomologista médico Jeremy Bouyer, autor principal do estudo e pesquisador do programa conjunto da FAO e da AIEA para técnicas nucleares em alimentação e agricultura, dá a dimensão do ganho.

Segundo ele, a área coberta por um voo de dez minutos exigiria duas horas de trabalho e o dobro de pessoal se fosse atendida por terra. A estimativa da equipe é de redução significativa nos custos operacionais mantendo a qualidade do inseto estéril. Em programa de saúde pública, o custo por hectare é o que decide se a liberação de mosquitos estéreis sai do laboratório ou fica na prateleira.

Onde o teste foi feito e com qual mosquito

O experimento aconteceu nos arredores de Juazeiro, no norte da Bahia, em parceria com o programa Moscamed, operação brasileira sediada na cidade e em funcionamento desde 2005. O sistema de liberação foi desenvolvido pela AIEA junto com a FAO e o grupo suíço americano sem fins lucrativos WeRobotics.

A espécie trabalhada foi o Aedes aegypti, o mesmo que transmite dengue, zika, chikungunya e febre amarela urbana. A linhagem usada veio de ovos coletados no próprio bairro onde os testes ocorreram, detalhe técnico que importa porque mosquito criado a partir de população local tende a competir melhor com os machos selvagens da mesma região.

Quantos mosquitos foram realmente soltos

Os números do experimento vão além da capacidade por voo. Ao longo de três rodadas de testes, foram liberados mais de 280 mil mosquitos machos estéreis da espécie sobre a área monitorada, o que permitiu medir sobrevivência, dispersão e capacidade de acasalamento.

O resultado mais relevante apareceu na proporção. Os machos soltos pelo drone conseguiram manter uma relação consistente entre insetos estéreis e selvagens no território, condição necessária para que a técnica funcione. Sem essa proporção mantida, a fêmea encontra macho fértil antes de encontrar o estéril, e o esforço todo se perde.

O teste respondeu a uma segunda dúvida

Havia uma desconfiança técnica anterior ao drone e que independia dele. Não bastava provar que o equipamento entregava os insetos vivos: era preciso saber se um macho esterilizado por radiação ainda consegue disputar uma fêmea em condições reais de campo.

O trabalho de campo respondeu a isso. Não bastava contar quantos mosquitos chegaram vivos ao chão: era preciso saber o que eles fizeram depois. Segundo Bouyer, quando processos como criação em massa e manuseio são bem dominados, os machos irradiados podem ser muito competitivos. A radiação tira a capacidade de gerar filhote, não a capacidade de acasalar, e essa distinção sustenta todo o método.

O peso das doenças transmitidas por mosquitos

O contexto explica a urgência em torno da tecnologia. A Organização Mundial da Saúde estima que doenças transmitidas por vetores respondem por 17% das doenças infecciosas e causam mais de um milhão de mortes por ano no mundo.

Do outro lado dessa conta está a falta de recursos. Muitos países não conseguem sustentar programas de erradicação de mosquitos em larga escala, justamente porque o modelo terrestre exige gente, tempo e dinheiro em quantidade contínua. É esse desequilíbrio entre tamanho do problema e capacidade de resposta que o drone tenta atacar, ao reduzir o custo por área tratada.

O drone menor e a regra do voo sobre a cidade

Existe um problema regulatório embutido no sucesso do teste. O protótipo funciona bem em área aberta, mas o Aedes se concentra em ambiente urbano, e voar drone pesado sobre cidade enfrenta regras rígidas em praticamente todo lugar.

A saída em desenvolvimento é uma versão reduzida do equipamento, capaz de transportar cerca de 30 mil mosquitos por voo. Modelo mais leve se encaixa nas exigências para sobrevoo de área habitada, o que permite levar a técnica para onde o mosquito realmente vive, e não apenas para os arredores da mancha urbana.

O gargalo que ainda é feito à mão

Nem toda a operação está automatizada, e a etapa mais delicada continua manual. Antes da liberação, é preciso separar machos de fêmeas na criação em massa, tarefa que exige olho humano e eleva o custo do processo inteiro.

A separação não é preciosismo. Fêmea liberada por engano é mosquito picando morador. Fêmeas de Aedes picam e transmitem doença, então soltar fêmeas junto com os machos significaria agravar o problema que se pretende resolver. É a etapa que hoje limita a escala do método, e melhorar essa triagem é uma das frentes de trabalho em aberto, ao lado da coleta de dados sobre efeito real na transmissão de doenças, feita em conjunto com a Organização Mundial da Saúde.

O detalhe humano que quase ninguém comenta

Soltar mosquitos de propósito perto de casas exige convencer os moradores. Antes do experimento, autoridades locais, agentes de controle de vetores e lideranças da comunidade receberam treinamento de comunicação para explicar o que ia acontecer e por quê.

A estratégia envolveu visita a domicílios, distribuição de material informativo e até entrevista na imprensa local com pesquisadores e representantes do programa brasileiro. O resultado foi alta aceitação do uso de drones no bairro, e essa aceitação é pré condição do método, porque ninguém instala armadilha de monitoramento no quintal de quem desconfia da operação.

A data que muda a leitura desta história

Vale um registro importante para quem lê hoje. O experimento de campo aconteceu em abril de 2018 e o estudo foi publicado em junho de 2020, ou seja, os dados descritos aqui têm vários anos de estrada. Naquele momento, já existiam 34 projetos piloto da técnica contra espécies de Aedes em andamento no mundo.

O que não está registrado é o que aconteceu com o método depois disso. Não há aqui informação sobre queda comprovada de casos de dengue por causa do método, nem sobre o número atual de programas em operação no Brasil. A técnica de liberação de mosquitos estéreis seguia em avaliação epidemiológica quando o estudo saiu, e é assim que ela deve ser lida: solução promissora e testada em campo, não política pública consolidada.

Você deixaria soltarem mosquitos no seu bairro

O caso coloca uma pergunta desconfortável de responder de primeira. De um lado, existe um método que derruba a população do transmissor da dengue sem espalhar veneno, usando o próprio comportamento reprodutivo do inseto contra ele. De outro, a ideia de um drone despejando 50 mil mosquitos sobre a vizinhança soa, para muita gente, exatamente como o oposto de combate à dengue.

Agora queremos ouvir você. Se aparecesse um programa desses na sua cidade, você aceitaria a liberação de mosquitos machos estéreis perto de casa ou preferiria manter o inseticida tradicional? E, sendo honesto, você confiaria na explicação de que aqueles mosquitos não picam e não geram filhotes? Comenta aqui embaixo.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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