Dunas do Jalapão revelam a força bruta do Cerrado brasileiro: erosão da Serra do Espírito Santo cria montanhas de areia alaranjada de até 40 metros no coração do Tocantins e expõe um dos processos naturais mais impressionantes do país
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 24/07/2026 às 14:42
Curiosidades
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Dunas do Jalapão chegam a 40 metros e surgem da erosão da Serra do Espírito Santo, em um processo raro que mistura chuva, vento e relevo sedimentar.
As Dunas do Jalapão parecem uma paisagem deslocada do mapa brasileiro. Em pleno Cerrado do Tocantins, longe do litoral e fora dos desertos clássicos do planeta, montanhas de areia fina e alaranjada se acumulam ao pé da Serra do Espírito Santo, criando uma das formações naturais mais impressionantes do país.
O que torna esse cenário tão forte não é apenas a beleza da paisagem. O ponto central está na origem geológica das dunas, formadas por um processo contínuo de desgaste, transporte e deposição de sedimentos que envolve a erosão da serra, a ação das chuvas, o fluxo de água na base do relevo e o retrabalho dos grãos pelo vento durante a estiagem.
Segundo o Ministério do Turismo, as dunas do Jalapão têm areias finas e alaranjadas que chegam a 40 metros de altura. O mesmo material também destaca que o trekking até o mirante da Serra do Espírito Santo leva ao alto dos paredões que formaram as dunas, conectando diretamente a paisagem arenosa ao relevo rochoso da região.
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Montanhas de areia surgem no coração do Cerrado
As dunas do Jalapão impressionam porque aparecem em uma área marcada por rios, veredas, chapadões, cachoeiras e formações rochosas.
Não se trata de uma paisagem litorânea, nem de um deserto clássico, mas de uma unidade natural inserida em um ambiente de Cerrado com dinâmica própria.
Essa combinação cria um contraste raro. De um lado, há vegetação típica do Cerrado e cursos d’água que cortam a região; de outro, campos de areia alaranjada que se elevam como pequenas montanhas naturais.
O resultado é uma paisagem que parece simples à primeira vista, mas carrega uma história geomorfológica complexa.
O Ministério do Turismo descreve as dunas como um dos cenários mais marcantes do Jalapão, com altura de até 40 metros.
A Serra do Espírito Santo é a peça central do processo
A origem das dunas está ligada à Serra do Espírito Santo, no município de Mateiros. Um trabalho apresentado no 12º Simpósio Nacional de Geomorfologia descreve a serra como parte de um conjunto de relevos residuais tabulares, formados pelo recuo das escarpas do relevo sedimentar.
Em termos simples, a serra funciona como uma grande fonte de sedimentos. Com o passar do tempo geológico, suas bordas sofrem desgaste pela ação combinada da água, do vento e do intemperismo. Partículas de areia se desprendem das rochas, descem pela encosta e se acumulam nas áreas mais baixas.
Esse processo ajuda a explicar por que as dunas aparecem justamente próximas à serra. Elas não surgiram por acaso em uma planície isolada; fazem parte de um sistema natural em que o relevo elevado fornece material e a superfície inferior recebe, reorganiza e concentra esses sedimentos.
Erosão cria o material que alimenta as dunas
O estudo geomorfológico sobre o Jalapão afirma que a área de dunas é composta por areias finas e avermelhadas, formadas pelo acúmulo de material particulado originado da erosão eólica e laminar da Serra do Espírito Santo.
A erosão laminar ocorre quando a água da chuva escoa sobre a superfície, removendo camadas finas de solo e sedimento.
Já a erosão eólica envolve a ação do vento, capaz de deslocar partículas soltas e redistribuir a areia em diferentes pontos da paisagem.
No Jalapão, esses processos atuam sobre rochas sedimentares e escarpas arenosas. A serra perde material aos poucos, e esse material não desaparece: ele desce, se deposita e passa a formar o campo de dunas que hoje marca a região.
Chuva, rios e vento trabalham juntos na formação
A formação das dunas do Jalapão não depende de um único agente natural. O estudo apresentado no Simpósio Nacional de Geomorfologia afirma que os sedimentos erodidos da Serra do Espírito Santo se acumulam no sopé da serra e são parcialmente carregados pelas águas das chuvas e pelo fluxo fluvial na base do geomorfossítio.
Esses sedimentos são depositados em uma superfície aplainada inferior, formando um tipo de leque aluvial. Depois, durante o período de estiagem, as areias são retrabalhadas pelo vento, dando origem a dunas ativas.
A cor alaranjada reforça a identidade da paisagem
A cor das dunas é uma das marcas mais conhecidas do Jalapão. O Ministério do Turismo descreve as areias como finas e alaranjadas, característica que dá à paisagem um impacto visual forte, principalmente quando contrastada com a vegetação do Cerrado e a silhueta da Serra do Espírito Santo.
O estudo geomorfológico também aponta que as estruturas da Serra do Espírito Santo envolvem arenitos conglomeráticos e pelitos do Grupo Urucuia, com porções superiores resistentes ao intemperismo e cimentadas por sílica e óxido de ferro.
Esse dado é importante porque o óxido de ferro é associado a tonalidades avermelhadas e alaranjadas em muitos ambientes sedimentares.
O Jalapão também tem solos ricos em quartzo
Um artigo publicado no Journal of the Geological Survey of Brazil, ligado ao Serviço Geológico do Brasil, analisou unidades geomorfológicas da região do Jalapão com dados aerogeofísicos e imagens de satélite.
O trabalho aponta que as superfícies dissecadas da região, especialmente a Superfície do Jalapão, são deficientes em determinados radioelementos provavelmente por causa da natureza rica em quartzo dos solos relacionados.
Esse detalhe ajuda a entender a presença de materiais arenosos na paisagem. O quartzo é um mineral resistente ao intemperismo químico e costuma permanecer como grão de areia depois que outros componentes das rochas se alteram ou são removidos.
Na prática, isso reforça a leitura de que o Jalapão não é apenas uma paisagem visualmente exótica. É uma área com assinatura geológica própria, onde relevo sedimentar, solos arenosos e processos erosivos formam uma combinação rara no interior do Brasil.
Dunas ativas e antigas registram fases diferentes da paisagem
O mesmo estudo geomorfológico informa que, no período de estiagem, as areias fluviais são retrabalhadas pelo vento, dando origem a dunas ativas.
Isso significa que parte da paisagem ainda passa por movimentação e reorganização natural, mesmo que lentamente e dentro da dinâmica regional.
O trabalho também menciona a presença de um pequeno campo de dunas parabólicas inativas, parcialmente cobertas pela vegetação local. Esse tipo de registro sugere fases antigas da paisagem, quando as condições de vento e disponibilidade de sedimento eram diferentes das atuais.
As dunas expõem a força silenciosa da erosão
A palavra “erosão” costuma ser associada apenas a destruição, perda de solo ou degradação. No Jalapão, porém, ela também ajuda a criar uma das paisagens mais marcantes do Cerrado brasileiro.
A serra se desgasta, os sedimentos descem, a água redistribui o material e o vento reorganiza a areia em dunas.
Isso não significa que o processo seja rápido ou simples. Pelo contrário, trata-se de uma transformação acumulada ao longo de muito tempo, em que pequenas remoções sucessivas produzem uma formação natural de grande escala.
A força da paisagem está justamente nesse contraste. As dunas parecem estáticas para quem as observa em um único momento, mas são resultado de um sistema contínuo, alimentado por desgaste, transporte e deposição de sedimentos.
Um laboratório natural no interior do Tocantins
As Dunas do Jalapão funcionam como um laboratório natural a céu aberto porque concentram processos importantes da geomorfologia: erosão de escarpas, transporte sedimentar, formação de leques aluviais, ação eólica, dinâmica fluvial e estabilização parcial por vegetação.
O estudo apresentado no Simpósio Nacional de Geomorfologia classifica a região do Jalapão como área de grande geodiversidade, com destaque para relevos residuais, cânions, cachoeiras, fervedouros e dunas.
Essa variedade mostra que o Jalapão não se resume a um único tipo de paisagem, mas a um mosaico de formas naturais com origens diferentes.
No caso das dunas, o valor científico está na interação entre processos que normalmente são analisados separadamente. Água e vento atuam juntos, a serra fornece sedimento, a planície acumula material e o Cerrado registra o resultado em uma paisagem de areia, rocha e vegetação.
Por que essa formação é tão impressionante
O impacto das Dunas do Jalapão vem da combinação entre escala, cor e origem. Elas chegam a 40 metros de altura, têm areia fina e alaranjada e se formam a partir da erosão de uma serra sedimentar no coração do Tocantins.
Esse conjunto é raro porque quebra a expectativa comum sobre o Cerrado. Em vez de apenas chapadas, veredas e vegetação seca, o Jalapão apresenta um campo de dunas alimentado por processos naturais que envolvem rocha, água, vento e tempo geológico.
Assista o vídeo
A força da história está na natureza como fenômeno: uma serra se desfaz lentamente, a areia se acumula, o vento redesenha a superfície e o Cerrado revela uma paisagem que parece improvável, mas é totalmente explicável pela geologia.
As dunas mostram um Cerrado em transformação permanente
As Dunas do Jalapão não são apenas um cartão-postal natural. Elas são o resultado visível de uma engrenagem ambiental que continua atuando sobre a paisagem.
A Serra do Espírito Santo sofre recuo, os sedimentos descem para áreas mais baixas e o vento reorganiza a areia durante o período seco.
Esse processo transforma a região em um exemplo poderoso de como o relevo brasileiro é construído, desmontado e reconstruído lentamente por forças naturais. Nada ali surgiu de forma instantânea; cada duna é parte de uma sequência de erosão, transporte e deposição.
No fim, as dunas revelam a força bruta do Cerrado brasileiro porque mostram a natureza trabalhando em escala monumental.
A areia alaranjada que hoje forma montanhas de até 40 metros é, na verdade, o rastro de uma serra sendo esculpida pelo tempo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

