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Durante uma obra em Lauro Müller, em Santa Catarina, trabalhadores abriram o solo e encontraram um túnel pré-histórico de mais de 10 mil anos, cavado não por gente, mas por animais gigantes extintos que pesavam até 6 toneladas

Durante uma obra em Lauro Müller, em Santa Catarina, trabalhadores abriram o solo e encontraram um túnel pré-histórico de mais de 10 mil anos, cavado não por gente, mas por animais gigantes extintos que pesavam até 6 toneladas

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Durante uma obra em Lauro Müller, em Santa Catarina, trabalhadores abriram o solo e encontraram um túnel pré-histórico de mais de 10 mil anos, cavado não por gente, mas por animais gigantes extintos que pesavam até 6 toneladas

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 23/07/2026 às 13:54

Atualizado em 23/07/2026 às 14:01

Curiosidades

Túnel pré-histórico achado em obra em Lauro Müller (SC) é paleotoca de mais de 10 mil anos. Udesc confirma registro inédito e local terá acesso proibido.

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O túnel pré-histórico apareceu durante o alargamento de uma estrada na localidade de Rio Amaral Gruta, em Lauro Müller. Pesquisadores da Udesc confirmaram tratar-se de uma paleotoca e registraram o primeiro caso do tipo em rochas da Formação Rio Bonito. O acesso ao local será cercado e proibido.

Uma obra de alargamento de estrada em propriedade particular revelou um túnel pré-histórico em Lauro Müller, no Sul de Santa Catarina, e o que parecia curiosidade de terreno virou registro científico inédito. A galeria subterrânea foi encontrada por Simone Cattaneo Bett na localidade de Rio Amaral Gruta e, em vez de mexer na estrutura, a proprietária acionou especialistas. A decisão preservou o achado.

Pesquisadores da Universidade do Estado de Santa Catarina identificaram e descreveram a estrutura como paleotoca, nome dado às galerias escavadas pela megafauna brasileira do Pleistoceno, grupo que desapareceu há aproximadamente 10 a 12 mil anos. O trabalho foi conduzido pelo Laboratório de Geografia Física da Udesc, em Florianópolis, ligado ao grupo de pesquisa BioGeo, do Centro de Ciências Humanas e da Educação.

A estrada que virou sítio científico

O achado aconteceu durante o alargamento de uma estrada dentro da propriedade da família, na comunidade de Rio Amaral Gruta. Ao abrir o terreno, apareceu a entrada de uma galeria subterrânea de aparência incomum, diferente de qualquer buraco esperado em uma obra desse tipo.

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A repercussão veio pelas redes sociais. O vídeo publicado por Simone ultrapassou a marca de 3 milhões de visualizações, levando o caso muito além do círculo acadêmico e transformando um túnel pré-histórico de interior catarinense em assunto nacional.

O interesse popular veio acompanhado de uma pergunta que domina os comentários até hoje: quem cavou aquilo. A resposta demorou, exigiu visita de especialistas e ainda tem partes em aberto.

Da lenda do tesouro à confirmação dos especialistas

Antes da ciência, veio o folclore. A região carrega uma lenda que associa estruturas desse tipo a riquezas enterradas por antigos moradores, e a primeira suspeita da proprietária seguiu exatamente esse caminho. Ela mesma relatou ter imaginado que a passagem levasse a algum tesouro antigo.

O passo seguinte é o que separa este caso de tantos outros que se perdem. Em vez de escavar por conta própria atrás do suposto tesouro, a família chamou especialistas antes de qualquer intervenção, e foi essa escolha que transformou uma curiosidade em descoberta registrada.

O trabalho de campo contou com pesquisadores da Udesc e apoio da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, a Epagri. Integrantes do Geoparque Mundial da Unesco Caminhos dos Cânions do Sul também estiveram no local para analisar a estrutura.

A equipe da universidade fez questão de registrar o papel dos moradores. Os proprietários Simone da Silva Cattaneo Bett e Sílvio Bett autorizaram o acesso à área, e pessoas da região ajudaram no reconhecimento do terreno e no caminho até o túnel pré-histórico. Em pesquisa de campo, esse tipo de colaboração costuma ser a diferença entre uma estrutura documentada e uma estrutura destruída antes de alguém saber o que era.

O que é uma paleotoca e por que ela não é uma caverna

A diferença é simples e muda tudo. Caverna comum se forma por processo natural, geralmente pela ação da água dissolvendo ou desgastando a rocha ao longo de milênios. Paleotoca, não. Ela é resultado direto da escavação feita por um animal, com garra, força e intenção.

Por isso o valor científico é de outra ordem. Sem nenhuma intervenção humana na formação, as paredes internas costumam conservar marcas de garras, que funcionam como assinatura do animal escavador. É registro físico de comportamento de espécies extintas, e ele aparece mesmo quando não há um único fóssil no local.

Essas galerias serviam como abrigo, proteção contra predadores e regulação de temperatura, funções parecidas com as das tocas de animais atuais, só que em escala muito maior. Tecnicamente, são classificadas como icnofósseis, categoria que reúne vestígios deixados por seres vivos, como pegadas, ovos, tocas e túneis, em vez dos restos do corpo em si.

Essa classificação explica por que um túnel pré-histórico vazio ainda vale tanto. O fóssil tradicional guarda a anatomia do bicho. O icnofóssil guarda o que ele fazia. Um osso conta como o animal era; uma toca conta onde ele dormia, do que se protegia e com que força conseguia cavar. São informações complementares, e a segunda é bem mais rara de sobreviver ao tempo.

Quem cavou o túnel pré-histórico, e o que ainda não se sabe

Os candidatos são conhecidos. As paleotocas do Sul do Brasil costumam ser atribuídas a dois grupos da megafauna: as preguiças-gigantes e os grandes tatus e tatus-gigantes que viveram no país durante o Pleistoceno. As maiores galerias, com mais de dois metros de altura e largura suficiente para um adulto caminhar curvado, são associadas às preguiças-gigantes, que podiam alcançar até 6 toneladas.

Agora vem a ressalva que a maior parte da cobertura ignora. A espécie exata que escavou este túnel pré-histórico ainda não foi identificada, e é justamente por isso que os pesquisadores planejam procurar pelos antigos preservados nas paredes, material que poderia apontar o animal com precisão. Até lá, atribuir a galeria a um gênero específico é chute, não conclusão.

Vale registrar também que a literatura científica não trata todos os gigantes do Pleistoceno como escavadores. A associação entre paleotocas e determinados grupos é objeto de debate acadêmico, e cada nova estrutura confirmada ajuda a refinar esse quadro em vez de fechá-lo.

O detalhe inédito que faz esse achado valer mais

Aqui está a informação que dá a este caso peso científico real, e que costuma sumir nas manchetes. Segundo o professor Jairo Valdati, coordenador do Laboratório de Geografia Física da Udesc, a descoberta representa o primeiro registro documentado desse tipo de icnofóssil em rochas da Formação Rio Bonito e na unidade de relevo conhecida como Depressão da Zona Carbonífera Catarinense.

Traduzindo para quem não é da área: este túnel pré-histórico não é apenas mais uma paleotoca, é o primeiro registrado naquele tipo específico de rocha e naquela região geológica. Isso amplia o mapa do que se sabe sobre onde esses animais viviam e em que materiais conseguiam escavar.

O geólogo Gustavo Simão, que também confirmou a estrutura, apontou três fatores determinantes na análise: o tipo de relevo da região, o solo arenítico e o formato característico da galeria. Na avaliação dele, o surgimento da estrutura mostra que esses animais escavavam materiais diferentes dos já conhecidos e ocupavam áreas além das catalogadas.

Lidar, pelos e modelos em 3D: o que vem pela frente

Os próximos passos já estão definidos. Entre eles está a aplicação da tecnologia Lidar, sigla em inglês para detecção e medição por luz, recentemente adquirida pelo laboratório da Udesc, para criar modelos tridimensionais das paleotocas e permitir análise detalhada das estruturas.

Também está prevista a busca por pelos antigos preservados nas paredes, o caminho mais promissor para identificar a espécie escavadora. Se algum material biológico aparecer, o túnel pré-histórico deixa de ser apenas uma galeria bem preservada e passa a ter nome e sobrenome zoológico.

O modelo tridimensional tem função que vai além do registro bonito. Ele permite medir com precisão altura, largura, inclinação e o traçado interno sem que ninguém precise entrar repetidas vezes na estrutura, o que reduz o desgaste das paredes e o risco de desabamento. Também cria um arquivo permanente: se a galeria ceder no futuro, o formato original continua disponível para estudo.

Cercamento e acesso proibido: o alerta que precisa ser dito

Em abril, o município anunciou que a paleotoca receberá cercamento e sinalização. A medida foi tomada após a repercussão nas redes sociais e tem duas finalidades declaradas: preservar a estrutura, considerada rara e de valor científico, e evitar acidentes.

O recado das autoridades locais é direto. Segundo o secretário de Turismo de Lauro Müller, Ranieri Godinho, ainda é perigoso entrar no local, inclusive pelo tamanho da galeria. Ou seja, o túnel pré-histórico não é ponto turístico e não está aberto para visitação, e entrar por conta própria coloca em risco tanto a pessoa quanto o registro científico.

Vale lembrar ainda que cavidades naturais subterrâneas e material fossilífero são bens protegidos por legislação federal no Brasil. Danificar ou remover material desse tipo não é só falta de educação com a ciência, é problema legal.

Por que o Sul do Brasil concentra tantas paleotocas

A região virou referência internacional nesse tipo de patrimônio geológico. Nos últimos quinze anos, mais de 1.500 paleotocas foram catalogadas no Sul do país, e só no entorno de Lauro Müller especialistas contabilizam em torno de 120 estruturas documentadas, com a expectativa de que muitas outras sigam escondidas.

Um estudo publicado em 2024 na Revista Brasileira de Geomorfologia propôs uma classificação sistemática dessas estruturas e mapeou uma área de 1.900 quilômetros quadrados, abrangendo sete municípios de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. É o tipo de trabalho que transforma achado isolado em conhecimento organizado.

A concentração tem explicação geológica. O Sul reúne uma combinação favorável de solos e rochas em que a escavação era possível e, ao mesmo tempo, suficientemente estáveis para que a galeria não desabasse ao longo de dez mil anos. Some-se a isso o relevo de encostas e a presença de pesquisadores dedicados ao tema há mais de uma década, e o resultado é que cada novo túnel pré-histórico encontrado por acaso tem chance real de ser reconhecido em vez de virar entulho.

Há ainda um capítulo humano nessa história. O diretor executivo do Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul, Gislael Floriano, destacou que algumas dessas galerias chegaram a ser utilizadas por povos indígenas como abrigo depois da extinção da megafauna. O geoparque já reúne cerca de 30 paleotocas registradas nos municípios de Morro Grande, Jacinto Machado e Timbé do Sul.

No fim, o que aconteceu em Lauro Müller é um lembrete de que o passado profundo do Brasil está literalmente embaixo dos pés. Uma obra de alargamento de estrada abriu uma janela para o Pleistoceno catarinense, uma proprietária resolveu chamar a ciência em vez de pegar a pá, e o resultado foi o primeiro registro do tipo em uma formação rochosa inteira. O túnel pré-histórico segue lá, agora com cercamento a caminho e uma fila de estudos pela frente.

E você, o que faria se abrisse um buraco no seu terreno e encontrasse uma galeria dessas? Chamaria um especialista na hora ou a curiosidade falaria mais alto? Conta nos comentários se você já ouviu falar de paleotoca na sua região.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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