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El Niño intensifica o contraste que gerou ventos de até 124,9 km/h no Brasil: meteorologistas explicam como uma frente de rajada derrubou árvores, suspendeu voos, causou mortes e pode tornar eventos extremos ainda mais frequentes
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 30/07/2026 às 23:57
Ciência e Tecnologia
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A passagem de uma intensa frente fria provocou rajadas superiores a 120 km/h, interrompeu operações em aeroportos, deixou vítimas e reacendeu o debate sobre como o El Niño favorece condições para eventos meteorológicos extremos, especialmente durante períodos de grande contraste de temperatura.
Na tarde de 29 de julho de 2026, moradores do Sudeste brasileiro acompanharam um dos episódios de vento mais intensos registrados neste inverno. Em poucas horas, cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro enfrentaram rajadas capazes de derrubar árvores, interromper o fornecimento de energia elétrica, alterar a rotina do transporte público e afetar aeroportos importantes do país.
Segundo informações divulgadas pela BBC News Brasil, com base em entrevistas concedidas por especialistas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o fenômeno foi provocado por uma chamada frente de rajada, resultado do encontro entre massas de ar com características completamente diferentes.
Embora o El Niño não seja apontado como responsável direto pelas rajadas, meteorologistas explicam que o fenômeno climático cria condições capazes de tornar esses episódios mais intensos e frequentes.
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Como uma frente de rajada conseguiu produzir ventos tão intensos
Antes da chegada da frente fria, boa parte do Sudeste atravessava um período marcado por calor incomum para o inverno e baixa umidade do ar. Ao mesmo tempo, um sistema de origem polar avançava pela Região Sul carregando ar frio e úmido.
Esse encontro produziu um contraste térmico extremamente elevado.
De acordo com o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, o fenômeno observado recebeu o nome de frente de rajada, normalmente associada à formação de uma linha de instabilidade.
Essas linhas de tempestades se organizam ao longo da frente fria e podem avançar rapidamente, empurrando grandes volumes de ar e produzindo ventos muito fortes em áreas extensas.
Na prática, trata-se de um mecanismo semelhante ao observado durante temporais de verão. A diferença é que, nesse caso, as nuvens permanecem alinhadas, permitindo que a força do vento seja distribuída ao longo de centenas de quilômetros.
O contraste térmico registrado chamou atenção dos meteorologistas.
Segundo o especialista Francisco de Assis Diniz, do Inmet, algumas regiões registraram uma redução de aproximadamente 14°C a 15°C em pouco mais de uma hora, diferença suficiente para acelerar o deslocamento do ar e provocar rajadas extremamente intensas.
Antes da mudança do tempo, a cidade do Rio de Janeiro alcançou 35,8°C, uma das temperaturas mais elevadas para um mês de julho desde 2007, conforme dados do Inmet.
No litoral paulista, o calor também surpreendeu.
O Guarujá registrou 34°C, enquanto Santos chegou a 35,2°C, ampliando ainda mais o contraste com a massa de ar frio que avançava sobre a região.
Qual é a relação entre o El Niño e os ventos extremos
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Embora muitas pessoas associem automaticamente episódios extremos ao El Niño, os especialistas ressaltam que essa ligação ocorre de forma indireta.
O fenômeno climático é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, alterando a circulação atmosférica em diversas partes do planeta.
No Brasil, seus efeitos costumam modificar os padrões de chuva, temperatura e comportamento das frentes frias.
Segundo Marcelo Seluchi, o El Niño não produz diretamente mais frentes de rajada.
O que acontece é que ele favorece uma maior permanência das frentes frias sobre a Região Sul, aumentando a possibilidade de surgirem situações severas, como tempestades organizadas, granizo, vendavais e linhas de instabilidade.
Em outras palavras, o fenômeno funciona como um intensificador das condições atmosféricas que já favorecem eventos extremos.
Francisco de Assis Diniz acrescenta que o El Niño acelera o aquecimento das massas de ar.
Quando esse ar muito quente encontra uma frente fria intensa, o contraste aumenta significativamente e, consequentemente, também cresce o potencial para rajadas de vento mais fortes.
Segundo o meteorologista, os temporais registrados recentemente no Sul do país e episódios severos observados no interior paulista também refletem esse ambiente atmosférico mais favorável à ocorrência de fenômenos intensos.
A expectativa é que, com o avanço da primavera e o fortalecimento do El Niño, novas situações de instabilidade possam ocorrer com maior frequência.
Ventos acima de 120 km/h provocaram mortes, prejuízos e paralisação de aeroportos
Os impactos foram registrados em diferentes estados.
Na capital fluminense, as rajadas chegaram perto de 100 km/h, enquanto o Aeroporto Internacional do Galeão registrou ventos de 105 km/h.
A intensidade obrigou o Aeroporto Santos Dumont a suspender pousos e decolagens durante o período mais crítico.
Também houve interrupções no fornecimento de energia elétrica, problemas na circulação de trens e metrôs e o fechamento temporário da Ponte Rio–Niterói por questões de segurança.
Na região central do Rio de Janeiro, duas pessoas morreram após a queda de um muro no bairro de Santa Teresa, segundo informações do Corpo de Bombeiros.
Em São Paulo, a Defesa Civil emitiu alerta severo para moradores da capital e da Região Metropolitana diante do risco de queda de árvores, destelhamentos e interrupções de energia.
Os aeroportos de Congonhas e Guarulhos também registraram atrasos e alterações operacionais em razão das condições meteorológicas.
O maior registro oficial ocorreu em Itaporanga, no interior paulista, onde uma rajada atingiu 124,9 km/h.
No litoral norte de São Paulo, o município de São Sebastião também sofreu com os ventos extremos. O episódio resultou na morte de uma pessoa e provocou diversos danos materiais.
Enquanto isso, o Rio Grande do Sul enfrentava outro cenário severo.
Na noite de 28 de julho, um tornado atingiu os municípios de Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho.
Segundo a MetSul Meteorologia, os ventos podem ter alcançado 300 km/h.
O fenômeno deixou quatro pessoas feridas, destruiu residências, interrompeu o fornecimento de energia elétrica e bloqueou rodovias com árvores e destroços.
De acordo com a Defesa Civil gaúcha, o tornado foi provocado por uma supercélula, um tipo de tempestade caracterizado pela presença de uma corrente ascendente giratória, considerada uma das formações atmosféricas mais capazes de produzir granizo de grande porte, vendavais e tornados.
Apesar de ambos ocorrerem durante a atuação da mesma frente fria, especialistas destacam que o tornado e a frente de rajada são fenômenos distintos.
Enquanto a frente de rajada atua em áreas muito amplas por causa do avanço da massa de ar, o tornado é um evento altamente localizado, formado pela intensa rotação do ar dentro de tempestades extremamente organizadas.
Com o deslocamento da frente fria para o oceano e a entrada de uma massa de ar mais seco, a tendência é de redução gradual das instabilidades no Sul e no Sudeste. Ainda assim, meteorologistas alertam que a combinação entre aquecimento intenso e avanço de novas frentes frias poderá manter o risco de episódios severos ao longo dos próximos meses.
Você já havia ouvido falar em frente de rajada? Acredita que eventos extremos como esse tendem a se tornar mais frequentes nos próximos anos?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

