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Em Veneza, blocos de concreto impressos em 3D formaram uma ponte em arco que fica de pé sem nenhuma armadura de aço e sem argamassa, sustentada só pela geometria, como as pontes romanas
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 27/07/2026 às 11:30
Construção
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Na Bienal de Arquitetura de Veneza de 2021, 53 blocos de concreto impressos em 3D formaram a Striatus, uma ponte em arco que fica de pé sem nenhuma armadura de aço e sem argamassa. Ela se sustenta apenas pela compressão e pela geometria, o mesmo princípio das antigas pontes de pedra.
Em Veneza, na Itália, blocos de concreto impressos em 3D deram origem a uma ponte em arco que se mantém de pé sem nenhuma armadura de aço e sem argamassa, apoiada apenas na própria geometria, como faziam as antigas pontes de pedra. Batizada de Striatus, a passarela foi apresentada durante a Bienal de Arquitetura de Veneza de 2021, conforme reportagem publicada pelo site de arquitetura designboom.
A obra é resultado de uma parceria entre grandes nomes da arquitetura e da engenharia. A Striatus foi desenvolvida pelo Block Research Group da universidade suíça ETH Zurich e pelo grupo de computação e design do escritório Zaha Hadid Architects, com a colaboração da empresa incremental3D e o apoio da fabricante de materiais Holcim. Formada por 53 blocos ocos de concreto encaixados sem cola, a estrutura foi celebrada como a primeira ponte impressa em concreto 3D construída inteiramente sem reforço de aço.
Uma ponte impressa em 3D que fica de pé sem aço nem argamassa
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A Striatus é uma passarela em arco de 16 por 12 metros, montada no jardim Giardini della Marinaressa e aberta ao público durante a Bienal, onde ficou em exposição até novembro de 2021. À primeira vista, parece uma escultura fluida de concreto, mas o que impressiona os engenheiros é o que ela não tem: nenhuma barra de aço e nenhuma argamassa unindo as peças.
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O segredo está na forma como os blocos se apoiam uns nos outros. A ponte se mantém de pé apenas por compressão e gravidade, com cada bloco empurrando o vizinho de modo que as forças se transmitam ao longo do arco até o chão. É esse arranjo que dispensa qualquer reforço interno, e foi justamente essa proeza que fez da Striatus um projeto pioneiro, combinando técnicas tradicionais de mestres construtores com design computacional avançado e fabricação robótica.
A lógica das pontes romanas em versão digital
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O princípio por trás da Striatus não é novo, e sim antiquíssimo. Ela funciona como as pontes e arcos de pedra construídos há séculos, incluindo os célebres arcos romanos, em que as peças ficam presas pelo próprio peso e pela pressão que exercem umas sobre as outras, sem precisar de cimento entre elas. É a chamada estrutura que trabalha só em compressão.
Os próprios criadores fazem questão de destacar essa herança histórica. Segundo Shajay Bhooshan, do Zaha Hadid Architects, o projeto revive técnicas ancestrais do passado, levando a lógica estrutural dos séculos anteriores para o futuro com o auxílio da computação digital, da engenharia e da manufatura robótica. A vantagem dessa abordagem é a durabilidade: como as forças são transferidas de forma muito natural para o concreto, apenas por compressão e com tensões baixas, a estrutura poderia permanecer de pé por séculos, do mesmo jeito que as construções históricas de alvenaria fizeram.
Como os blocos foram impressos
A parte mais tecnológica do projeto está justamente na fabricação das peças. A Striatus é composta por 53 blocos ocos, e cada um deles foi produzido a partir de cerca de 500 camadas de concreto depositadas por impressão. Ao todo, foram necessárias 84 horas para imprimir todos os blocos, com cada peça levando de uma a duas horas para ficar pronta.
O detalhe que diferencia a técnica é a orientação dessas camadas. Ao contrário da impressão 3D comum, que empilha camadas planas e horizontais, a Striatus usou um braço robótico de seis eixos para depositar camadas irregulares e não paralelas, alinhadas ao caminho das forças dentro de cada bloco. É essa impressão em faixas, ou estrias, que dá nome à ponte e que permite que o concreto trabalhe apenas sob compressão. O material usado foi uma tinta de concreto desenvolvida sob medida pela Holcim especialmente para o projeto.
Quem construiu e por que isso importa
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A Striatus nasceu da união de pesquisa acadêmica, escritório de arquitetura e indústria. O Block Research Group da ETH Zurich, liderado pelos pesquisadores Philippe Block e Tom Van Mele, cuidou da engenharia estrutural, da logística e da montagem, enquanto o grupo de computação e design do Zaha Hadid Architects respondeu pelo desenho e pela concepção da fabricação, com a incremental3D e a Holcim completando a equipe.
Mais do que uma peça de exposição, a ponte propõe uma nova forma de pensar o concreto. A ideia central é usar o material apenas onde ele é estruturalmente necessário, construindo mais com menos e sem gerar desperdício, uma lógica que se opõe ao uso pesado e muitas vezes excessivo de concreto nas obras convencionais. Para os pesquisadores, a Striatus estabelece uma nova linguagem para o concreto, ao mesmo tempo digital, ambientalmente avançada e pensada para ser reaproveitada.
Menos aço, menos cimento, menos CO2
O apelo ambiental do projeto é um dos seus pontos mais fortes. Milhões de novas construções pelo mundo são erguidas com concreto armado, um tipo de construção que gera grandes quantidades de emissões de dióxido de carbono. Nesse processo, tanto o aço usado no reforço quanto o cimento do concreto são especialmente problemáticos do ponto de vista das emissões.
A proposta da Striatus ataca os dois de uma vez. Ao eliminar completamente a armadura de aço e ao concentrar o concreto apenas onde ele é necessário, o método reduz o uso dos dois materiais mais poluentes da construção tradicional. Segundo Philippe Block, da ETH Zurich, o método preciso de impressão de concreto em 3D permite combinar os princípios da construção abobadada tradicional com a fabricação digital, usando material só onde ele é estruturalmente preciso. Os pesquisadores apontam ainda que o próximo passo é tornar imprimíveis os concretos de baixa emissão de carbono, o que ampliaria os ganhos ambientais demonstrados pela ponte.
Uma ponte que pode ser desmontada e reciclada
Além de gastar menos material, a Striatus foi pensada para não virar entulho no futuro. Como os blocos são apenas encaixados, sem argamassa nem qualquer aglutinante, a estrutura pode ser desmontada com facilidade, transportada e remontada em outros lugares quantas vezes forem necessárias, algo impensável em uma obra de concreto convencional.
O ciclo de vida da peça também foi planejado do começo ao fim. Quando a ponte chega ao fim de sua vida útil, ela pode ser totalmente separada e reciclada, o que a torna uma estrutura verdadeiramente circular por concepção. Em vez do destino comum do concreto armado, que se transforma em escombros difíceis de reaproveitar, a Striatus aponta para um modelo de construção em que os materiais podem ser recuperados e usados de novo, unindo tecnologia de ponta e responsabilidade ambiental.
Uma passarela que uniu passado e futuro
O que a Striatus mostrou em Veneza foi que é possível unir a sabedoria das antigas pontes de pedra com a tecnologia mais avançada de impressão 3D, criando uma passarela que fica de pé sem aço e sem argamassa, gasta menos material, emite menos carbono e ainda pode ser desmontada e reciclada. Uma prova de que olhar para trás, para os arcos de compressão de séculos atrás, pode ser o caminho para construir de forma mais inteligente no futuro.
E aí fica a pergunta que rende conversa de verdade. Você atravessaria com tranquilidade uma ponte de concreto que fica de pé apenas pela geometria, sem nenhuma barra de aço por dentro, confiando no mesmo princípio dos arcos antigos? Comenta aqui embaixo o que você achou dessa ideia de imprimir construções em 3D e se acredita que esse tipo de tecnologia vai mudar a forma como as cidades são construídas.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

