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Enquanto uma obra de alvenaria desperdiça cerca de 30% do material, o novo projeto de Roberto Justus promete derrubar esse número para 5% usando casas de aço tipo Lego, num plano de R$ 100 milhões para 5 mil moradias em Campo Grande

Enquanto uma obra de alvenaria desperdiça cerca de 30% do material, o novo projeto de Roberto Justus promete derrubar esse número para 5% usando casas de aço tipo Lego, num plano de R$ 100 milhões para 5 mil moradias em Campo Grande

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Enquanto uma obra de alvenaria desperdiça cerca de 30% do material, o novo projeto de Roberto Justus promete derrubar esse número para 5% usando casas de aço tipo Lego, num plano de R$ 100 milhões para 5 mil moradias em Campo Grande

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 29/07/2026 às 19:27

Atualizado em 29/07/2026 às 19:28

Construção

Justus anuncia 5 mil casas tipo Lego em Campo Grande com R$ 100 milhões e promessa de cortar o desperdício de 30% para 5%

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Parede, laje e telhado saem prontos da fábrica e chegam ao terreno para encaixe. É essa lógica de montagem que sustenta a promessa de reduzir de 30% para 5% o desperdício de material na construção de até 5 mil casas populares na capital de Mato Grosso do Sul.

O empresário Roberto Justus, sócio majoritário e presidente executivo da SteelCorp, apresentou um projeto para construir até 5 mil casas populares em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, com investimento anunciado de R$ 100 milhões e previsão de cerca de 400 empregos diretos. As moradias usariam o sistema Light Steel Frame, estrutura leve de aço galvanizado.

Segundo a empresa, em informações divulgadas pelo portal ND Mais, o método pode reduzir as perdas de material para cerca de 5%, contra aproximadamente 30% registrados em obras tradicionais de alvenaria. É esse contraste que virou o principal argumento comercial do projeto, batizado popularmente de casas tipo Lego pela forma como as peças chegam prontas para montagem.

O que é, na prática, uma casa tipo Lego

Roberto Justus está com projeto de casas populares de tecnologia modular e previsão de milhares de moradias no Mato Grosso do SulFoto: SteelCorp/Reprodução

O apelido descreve bem o funcionamento, mas esconde a tecnologia. O sistema se chama Light Steel Frame e usa perfis leves de aço galvanizado como estrutura, no lugar da alvenaria de tijolo e do concreto armado que dominam a construção residencial brasileira.

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A diferença está no local onde a casa é feita. Componentes como paredes, lajes e telhados são produzidos previamente em ambiente industrial e chegam ao terreno prontos para encaixe. A obra deixa de ser fabricação e passa a ser montagem, o que reduz o tempo de execução e diminui a exposição do material à chuva, ao roubo e ao manuseio errado no canteiro.

A conta do desperdício: 30% contra 5%

Justus anuncia 5 mil casas tipo Lego em Campo Grande com R$ 100 milhões e promessa de cortar o desperdício de 30% para 5%

O número que dá manchete ao projeto das casas populares é a redução de perdas. A empresa afirma que o sistema industrializado derruba o desperdício de material para cerca de 5%, enquanto obras convencionais de alvenaria ficariam em torno de 30%.

Justus anuncia 5 mil casas tipo Lego em Campo Grande com R$ 100 milhões e promessa de cortar o desperdício de 30% para 5%

Vale registrar de onde vem esse dado: ele é apresentado pela própria SteelCorp, empresa que vende a solução, e não por auditoria independente citada na reportagem. Comparação feita por quem fabrica o produto merece leitura com reserva, ainda que a lógica seja aceita no setor, já que peça cortada em fábrica gera sobra menor do que material cortado no chão da obra. O que não aparece publicamente é a metodologia usada para chegar aos dois percentuais.

R$ 100 milhões, e os números que não batem entre veículos

O valor do investimento é o ponto em que as publicações divergem. A reportagem que serve de base a esta matéria informa R$ 100 milhões, enquanto veículos de Mato Grosso do Sul noticiaram, na época do anúncio, um investimento de R$ 300 milhões, e outras publicações trataram o plano como bilionário.

Essa diferença não é detalhe. Um projeto de 5 mil casas com R$ 100 milhões dá cerca de R$ 20 mil por unidade, valor que dificilmente cobre uma casa completa com terreno e infraestrutura. Como nenhuma das publicações detalha o que está incluído no montante, se apenas as estruturas de aço, se a obra inteira ou se a futura fábrica, o número deve ser lido como cifra de anúncio, e não como orçamento fechado.

400 empregos e a promessa de treinar gente da cidade

A geração de emprego é o argumento político por trás das casas. A previsão divulgada é de cerca de 400 postos diretos, número que aparece em algumas publicações como estimativa da prefeitura entre 300 e 400 vagas, considerando também empregos indiretos.

O compromisso declarado pelo empresário é usar mão de obra local. Segundo ele, a empresa vai capacitar trabalhadores de Campo Grande e não pretende trazer equipes de fora, apenas os materiais. Em obra industrializada, essa promessa depende de treinamento, porque montar estrutura metálica exige qualificação diferente da de assentar tijolo, e é justamente aí que entra a escola técnica mantida pelo grupo.

As estruturas vêm de São Paulo, pelo menos no começo

Fábrica da SteelCorp em Cajamar (SP)

Existe uma contradição logística admitida no próprio projeto. Mesmo com a mão de obra local, as estruturas das casas serão produzidas inicialmente em São Paulo e transportadas até Campo Grande para montagem, o que significa mais de mil quilômetros de frete por carga.

A solução prevista para isso é uma fábrica na própria cidade, mas ela está condicionada. A unidade em Campo Grande só sai do papel se a demanda se confirmar em volume suficiente, condição repetida em todas as versões da notícia. Ou seja, o projeto começa dependente de logística interestadual e só depois pode virar operação local.

As primeiras 3,5 mil casas em uma única área

O plano tem um ponto de partida definido. Do total de até 5 mil unidades, as primeiras 3,5 mil devem ser erguidas em uma única área, em parceria com uma incorporadora que já atua na região.

A concentração faz sentido para esse tipo de tecnologia. Canteiro único reduz custo de transporte, permite repetir o mesmo projeto centenas de vezes e transforma a obra em linha de produção, que é exatamente a lógica do sistema industrializado. O nome da incorporadora parceira não aparece na reportagem consultada.

O déficit que o projeto diz querer atacar

Existe demanda declarada para justificar o volume. De acordo com vereadores de Campo Grande citados na cobertura do anúncio, a cidade tem carência de cerca de 30 mil moradias sociais, número que coloca as 5 mil casas do projeto em perspectiva: atenderiam algo próximo de um sexto da fila.

O potencial industrial anunciado é maior que o projeto atual. As mesmas fontes mencionam capacidade de produção de até 10 mil casas por ano caso a fábrica se instale no município. Capacidade de produzir não é o mesmo que contrato assinado, e a diferença entre as duas coisas costuma definir se o anúncio vira obra ou fica no discurso.

A reunião na Câmara e o que ainda depende de mudança na lei

A apresentação do projeto aconteceu na Câmara Municipal de Campo Grande, em reunião com o presidente da Casa, o vereador Epaminondas Neto, o Papy, do PSDB, o segundo vice presidente, o vereador conhecido como Dr. Lívio, e o secretário da Semades, Ademar Silva Júnior.

O encontro não terminou com contrato, e sim com uma agenda. As autoridades discutiram mudanças na legislação e incentivos para viabilizar os empreendimentos, incluindo programas como o Habita+CG e atualizações no Prodes. Ou seja, o projeto depende de alteração normativa para acontecer no formato apresentado, informação que costuma sumir das manchetes sobre grandes investimentos anunciados.

O título de Visitante Ilustre e o peso do nome

Como reconhecimento pela proposta, Justus recebeu o título de Visitante Ilustre de Campo Grande, honraria proposta por um dos vereadores presentes no encontro. É um gesto simbólico, sem efeito prático sobre o licenciamento das obras.

Vale observar o papel do nome nessa equação, que vai além das casas em si. Justus é figura pública nacional, conhecida por televisão e publicidade antes de ser reconhecida no setor de construção, e essa visibilidade acelera a agenda de qualquer projeto em uma câmara municipal. O nome abre a porta, a legislação decide o resto, e o segundo passo é bem menos fotogênico que o primeiro.

Quem é a SteelCorp e o que ela já tem hoje

A empresa por trás das casas não é uma startup recém criada. A SteelCorp, da qual Justus é sócio majoritário e presidente executivo, tem fábricas em São Paulo, em Goiás e na Flórida, nos Estados Unidos, além de manter uma escola técnica para formar profissionais do setor.

A meta financeira declarada dá a dimensão da ambição do grupo. A empresa busca alcançar faturamento de R$ 1 bilhão até o final de 2026. Um contrato de 5 mil casas em uma única capital ajuda bastante a chegar nesse número, o que ajuda a explicar o empenho comercial em torno do projeto e não retira o mérito técnico da proposta.

A reunião em que o projeto foi apresentado aconteceu em 23 de março de 2026, uma segunda feira, e não nesta semana. A reportagem que trata do assunto circulou depois, mas o fato tem alguns meses.

O detalhe importa porque a promessa tinha prazo. Quem acompanha o setor sabe que anúncio de casas populares costuma ser medido pelo cronograma, e não pela coletiva. Segundo o que foi divulgado na época, as obras deveriam começar no segundo semestre de 2026, período em que estamos agora. Não há, nas publicações consultadas, confirmação de que a construção tenha efetivamente começado, nem de que as mudanças de legislação discutidas na Câmara tenham sido aprovadas.

O que ainda não foi respondido

Faltam justamente as informações que interessam a quem espera por moradia. Não há divulgação sobre o preço final de cada casa, sobre a faixa de renda atendida, sobre qual programa habitacional vai financiar as unidades nem sobre o cronograma de entrega.

Também não estão públicos o nome da incorporadora parceira das casas, a localização exata da área das primeiras 3,5 mil unidades e o desempenho térmico e acústico das casas em clima de Mato Grosso do Sul, questão relevante em uma região de calor intenso. Estrutura de aço em cidade quente exige projeto de isolamento bem resolvido, e nenhuma das publicações trata desse ponto.

Você moraria em uma casa de aço montada como Lego

As casas “tipo Lego” são construções modulares em steel frame e diminuem os custos das obrasFoto: SteelCorp

O projeto coloca duas discussões na mesma mesa. Uma é técnica: construção industrializada realmente reduz prazo e desperdício, e isso é reconhecido em países onde o sistema já é padrão. A outra é de expectativa, porque anúncio de investimento em habitação popular é recorrente no Brasil e a distância entre a coletiva de imprensa e a entrega de chave costuma ser longa.

Agora queremos ouvir você. Você compraria uma casa popular com estrutura de aço montada em poucos dias, ou ainda confia mais em parede de tijolo mesmo sabendo que ela desperdiça mais material? E, na sua opinião, projeto anunciado em câmara municipal com nome famoso tende a sair do papel ou termina esquecido depois da foto? Comenta aqui embaixo.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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