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Equipes restauravam uma capela escondida no bairro da Liberdade quando acharam, sob o piso, novos sepultamentos do antigo Cemitério dos Aflitos, vestígio apagado da história negra e indígena de São Paulo
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 31/07/2026 às 19:43
Curiosidades
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Restauro na Capela dos Aflitos revelou sepultamentos sob o piso e reacendeu a memória de um antigo cemitério ligado a pessoas negras, indígenas, pobres, escravizadas e condenadas à morte, em uma das áreas mais visitadas do centro de São Paulo.
Obras de restauro na Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, no bairro da Liberdade, no centro de São Paulo, revelaram novos sepultamentos ligados ao antigo Cemitério dos Aflitos, área associada à memória negra e indígena da cidade.
Divulgada pela Prefeitura de São Paulo em 19 de novembro de 2025, a descoberta ocorreu durante o acompanhamento arqueológico das intervenções no imóvel histórico, conduzido com participação do Departamento do Patrimônio Histórico.
Segundo a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, as escavações identificaram restos mortais de cinco a dez pessoas, número ainda em análise pelos pesquisadores responsáveis pelo sítio arqueológico.
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Parte do material apareceu em sepultamentos estruturados a cerca de um metro de profundidade, enquanto outro conjunto foi localizado a menos de 50 centímetros do piso, próximo à antiga sacristia e ao banheiro.
Cemitério dos Aflitos preserva memória negra e indígena da Liberdade
A descoberta reforça o uso histórico da área como parte do Cemitério dos Aflitos, espaço ativo entre o fim do século XVIII e o século XIX, em uma região que antecede a imagem turística atual da Liberdade.
Naquele período, o local recebia sepultamentos de pessoas marginalizadas pela sociedade, entre elas pobres, indígenas, pessoas escravizadas e condenados à morte, conforme informações divulgadas pela Prefeitura de São Paulo.
Conhecida hoje pelo comércio, pela circulação de turistas e pela presença da cultura japonesa, a Liberdade também guarda camadas anteriores da formação paulistana, muitas delas ligadas a populações negras e indígenas.
No Beco dos Aflitos, onde fica a capela, essa memória permanece em uma passagem estreita, cercada por lojas, prédios e ruas movimentadas do centro da capital paulista.
Construída em 1779 em taipa de pilão, a Capela dos Aflitos atravessou quase 250 anos como referência religiosa e urbana, mesmo em meio às transformações profundas do bairro.
Ao revelar sepultamentos sob o piso, o restauro mostra que a história da região vai além da paisagem mais conhecida da Liberdade e inclui marcas preservadas no subsolo.
Achados arqueológicos estavam sob o piso da capela
Além dos remanescentes humanos, as escavações localizaram fragmentos de cerâmica, louça e itens associados ao contexto funerário, ampliando o conjunto de evidências sobre o antigo campo de sepultamentos.
Entre os achados, a Prefeitura informou que um dos indivíduos apresentava adorno e colar, elementos que serão examinados pelos pesquisadores dentro dos procedimentos técnicos previstos para o sítio arqueológico.
O arqueólogo Fabio Guaraldo Almeida, do Departamento do Patrimônio Histórico, afirmou que ainda não é possível definir com precisão o total de indivíduos encontrados, devido à fragmentação de parte das ossadas.
Antes da análise em laboratório, o material será discutido com representantes de comunidades negras vinculadas à memória da Liberdade, em um processo que considera a dimensão histórica e simbólica do local.
A decisão sobre o tratamento dos achados envolve a Arquidiocese de São Paulo, o comitê gestor da obra e lideranças comunitárias, conforme a gestão municipal informou ao divulgar a descoberta.
Somente remanescentes fora de sepulturas devem ser removidos para estudo, com previsão de novo sepultamento na própria capela após as análises, respeitando o caráter sagrado atribuído ao espaço.
Restauro da Capela dos Aflitos incluiu acessibilidade e preservação
Reaberta ao público no sábado (27), com missa às 10h e celebração dos 247 anos da construção, a capela passou por restauro iniciado em abril de 2025.
A Prefeitura informou investimento de mais de R$ 3,2 milhões em modernização, acessibilidade, preservação e revitalização do imóvel histórico e de seu entorno imediato.
Durante a obra, foram realizadas melhorias estruturais e de conservação, incluindo reforço em maciços de taipa de pilão, restauração de bancos, telhado, sacristia, pisos, esquadrias e pinturas decorativas.
Também passaram a integrar o espaço recursos de acessibilidade, climatização voltada à preservação de acervo e sistema de monitoramento por câmeras, medidas incorporadas ao projeto de recuperação.
O processo de revitalização incluiu ainda a criação de uma área destinada ao sepultamento dos remanescentes humanos encontrados durante a pesquisa arqueológica realizada na capela.
Com isso, a intervenção busca conciliar investigação científica, preservação patrimonial e respeito à memória de comunidades relacionadas à história do antigo Cemitério dos Aflitos.
Campo da Forca ajuda a explicar a história do local
A trajetória do Cemitério dos Aflitos está ligada ao antigo Campo da Forca, área situada onde hoje fica a Praça da Liberdade, no centro de São Paulo.
De acordo com a Prefeitura, pessoas executadas naquele local podiam ser sepultadas no entorno da capela quando os corpos não eram mutilados, o que relaciona o cemitério à punição pública e à exclusão social.
O achado de 2025 se soma a uma descoberta anterior, feita em 2018, quando escavações ao lado da capela revelaram nove remanescentes humanos no mesmo território.
Alguns desses indivíduos tinham colares de contas associados a tradições africanas, e o episódio levou à desapropriação do terreno pela Prefeitura, além de impulsionar o projeto do Memorial dos Aflitos.
Segundo a gestão municipal, o futuro memorial pretende preservar e valorizar a história de populações negras, indígenas e de outros grupos afastados das narrativas oficiais sobre São Paulo.
Nascida da mobilização em torno do sítio arqueológico, a proposta busca tornar visível um cemitério ocultado pela urbanização da Liberdade e pela sobreposição de novas ocupações no bairro.
As pesquisas arqueológicas seguem sob acompanhamento técnico do Departamento do Patrimônio Histórico, que mantém a guarda institucional do material por meio do Centro de Arqueologia.
Enquanto os estudos continuam, a Capela dos Aflitos permanece como um dos lugares em que São Paulo ainda confronta vestígios subterrâneos de sua própria formação.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

