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Escondida sob campos da Irlanda, uma “cidade” de 3 mil anos surge com 204 casas de madeira, edifícios circulares de 30 metros e um complexo de 109 hectares, equivalente a 155 campos de futebol, que muda a história urbana da Europa
Escrito por Ana Alice
Publicado em 27/07/2026 às 21:42
Ciência e Tecnologia
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Vestígios enterrados perto de Armagh revelam um centro pré-histórico de escala incomum, com centenas de construções, produção de metais, espaços rituais e uma organização que amplia o debate sobre as primeiras comunidades urbanas da Europa.
Sob campos próximos à cidade de Armagh, na Irlanda do Norte, levantamentos arqueológicos revelaram a escala de um centro construído há mais de 3 mil anos, com áreas residenciais, produção de metais, grandes edifícios circulares e espaços destinados a cerimônias.
A pesquisa, publicada em 30 de junho de 2026 na revista científica Antiquity, indica que Haughey’s Fort era muito mais do que uma fortificação isolada no alto de uma elevação.
Por volta de 1200 a.C., o lugar funcionava como o núcleo de uma paisagem organizada, na qual moradia, trabalho especializado, reuniões públicas e atividades rituais ocupavam setores diferentes.
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Os arqueólogos identificaram 204 possíveis construções circulares de madeira, além de edifícios que alcançavam cerca de 30 metros de diâmetro.
Ao redor do assentamento, estruturas de terra antes interpretadas separadamente passaram a ser vistas como partes de um cercado com aproximadamente 109 hectares, área comparada pelos pesquisadores a 155 campos de futebol.
A palavra “cidade”, neste caso, não descreve ruas pavimentadas, prédios de pedra ou uma administração urbana semelhante à atual.
Os autores classificam Haughey’s Fort como um centro proto-urbano, expressão aplicada a assentamentos que já apresentavam concentração populacional, divisão de funções, construções coletivas e redes de comércio, embora não reunissem todas as características das cidades históricas posteriores.
Tecnologia revelou estruturas enterradas em Haughey’s Fort
Grande parte do complexo não apareceu após a abertura de uma única escavação de grandes dimensões.
A equipe combinou sensoriamento remoto, levantamentos geofísicos, escavações direcionadas e uma nova análise de registros produzidos em pesquisas anteriores.
Entre as técnicas empregadas estavam o lidar, capaz de registrar pequenas diferenças no relevo, e a gradiometria magnética.
Esse segundo método detecta alterações no campo magnético do solo provocadas por valas, buracos de postes, áreas queimadas e outras marcas deixadas pela ocupação humana.
O radar de penetração no solo também ajudou a observar elementos que permanecem abaixo da superfície.
Depois de reunir os resultados, os pesquisadores selecionaram pontos específicos para escavar e comparar as imagens dos equipamentos com estruturas reais.
A combinação dessas ferramentas permitiu reconstruir o desenho de uma paisagem que, vista apenas ao nível do chão, se parece em grande parte com campos rurais.
Cercas, valas, casas, avenidas e edifícios desapareceram, mas suas fundações e alterações no terreno continuaram registradas no subsolo.
As 204 casas são possíveis construções de madeira
O número de 204 não corresponde a casas inteiras retiradas da terra.
Trata-se de anomalias detectadas pelos levantamentos geofísicos, interpretadas pelos autores como prováveis estruturas circulares de madeira.
Esse cuidado é necessário porque somente parte do local foi escavada.
A forma, o tamanho e a posição dos sinais encontrados sustentam a interpretação de que muitos deles eram edifícios domésticos, mas não permitem afirmar que todos funcionaram como moradias ou foram ocupados ao mesmo tempo.
Ainda assim, a concentração supera o que normalmente seria esperado em um forte de colina do mesmo período.
Segundo o estudo, a distribuição das possíveis construções aponta para um assentamento denso e organizado, e não apenas para um espaço usado ocasionalmente em situações de defesa ou cerimônia.
Haughey’s Fort possuía cerca de 350 metros de diâmetro e era delimitado originalmente por três conjuntos de bancos de terra e valas.
Escavações anteriores situaram sua ocupação entre aproximadamente 1170 e 770 a.C., período que abrange parte da Idade do Bronze Final e a transição para a Idade do Ferro.
Construções de madeira raramente sobrevivem intactas durante milênios.
Quando postes apodrecem, porém, os buracos preenchidos por terra diferente podem permanecer visíveis para instrumentos geofísicos ou durante escavações.
É a repetição dessas marcas que permite aos arqueólogos estimar o formato de antigas paredes circulares.
O desenho geral pode ser identificado mesmo quando não restam tábuas, telhados ou pisos completos.
Edifícios circulares de 30 metros tinham função coletiva
Entre as possíveis residências, os pesquisadores encontraram sinais de construções circulares muito maiores.
Algumas alcançavam até 30 metros de diâmetro, dimensão que levou a equipe a interpretá-las como espaços institucionais ou comunitários.
Uma estrutura desse porte exigiria grande quantidade de madeira, mão de obra coordenada e conhecimento sobre sustentação do telhado.
Também ocuparia uma área muito superior à de uma habitação doméstica convencional.
O estudo não determina com precisão tudo o que acontecia dentro desses edifícios.
A hipótese apresentada pelos autores é que eles poderiam receber reuniões, cerimônias, festas ou decisões envolvendo grupos maiores da comunidade.
A presença dessas construções reforça a interpretação de que Haughey’s Fort concentrava atividades coletivas.
Em vez de uma reunião dispersa de famílias, o lugar reunia moradias e espaços cuja construção dependia de planejamento compartilhado.
Cercado de 109 hectares ampliou a escala do complexo
Outra mudança veio da análise das estruturas de terra conhecidas como Creeveroe Earthworks.
Antes vistas como elementos separados, elas foram reinterpretadas como partes de um grande cercado que contornava Haughey’s Fort.
O perímetro abrangia aproximadamente 109 hectares, equivalentes a 1,09 quilômetro quadrado.
A Universidade de Glasgow comparou essa área a cerca de 155 campos de futebol e classificou o conjunto entre os maiores monumentos arqueológicos conhecidos da Irlanda e da Grã-Bretanha.
A dimensão não significa que toda a área estivesse preenchida por casas.
O cercado maior incluía espaços de circulação, setores produtivos, terrenos abertos, monumentos e caminhos que conectavam diferentes pontos da paisagem.
Ao observar o conjunto, os pesquisadores identificaram uma forma de zoneamento.
Haughey’s Fort concentrava assentamento, banquetes e produção artesanal, enquanto outros locais próximos apresentavam evidências mais diretamente associadas a cerimônias.
Essa separação de funções é um dos fatores usados para descrever o complexo como proto-urbano.
Diferentes atividades estavam reunidas em uma mesma paisagem, mas não ocorriam de maneira indiferenciada.
Bronze, ouro e banquetes revelam produção especializada
Escavações realizadas em Haughey’s Fort encontraram vestígios relacionados ao trabalho com bronze e ouro.
Moldes, resíduos e pequenos fragmentos indicam a presença de artesãos capazes de produzir objetos que exigiam controle de temperatura e conhecimento sobre metais.
A fabricação em escala especializada dependeria do acesso a matérias-primas, combustíveis e trabalhadores com experiência.
Objetos classificados como de alto status também sugerem que determinados grupos possuíam maior acesso a bens e recursos.
Restos de animais e outros indícios foram interpretados como sinais de banquetes de grande escala.
Essas reuniões poderiam unir alimentação, alianças, demonstrações de poder e práticas cerimoniais, embora a função de cada evento não possa ser recuperada apenas pelos materiais preservados.
Peças associadas à Península Ibérica e à Europa Central mostram que a comunidade não estava isolada.
O estudo relaciona esses objetos a redes de intercâmbio de longa distância que atravessavam diferentes partes da Europa durante a Idade do Bronze.
Isso não significa necessariamente que moradores de Haughey’s Fort tenham viajado pessoalmente por toda essa extensão.
Mercadorias e técnicas podiam circular por etapas, passando entre comunidades intermediárias antes de chegar à Irlanda.
Piscina artificial recebeu armas, ossos e oferendas
A poucos metros de Haughey’s Fort estava o King’s Stables, uma piscina artificial construída durante o mesmo período.
Apesar do nome moderno, o lugar não era uma instalação usada para manter cavalos.
Escavações localizaram moldes relacionados à fabricação de armas, restos de animais e fragmentos de ossos humanos depositados no local.
A disposição desses materiais levou os arqueólogos a interpretar a piscina como um espaço de atividade ritual.
Uma avenida cerimonial, acompanhada por paliçadas de madeira, conectava a área do forte ao reservatório.
Os autores consideram provável que o trajeto fosse usado em deslocamentos formais ou procissões durante ocasiões específicas.
O percurso não servia apenas para facilitar a passagem entre dois pontos.
Cercas altas poderiam controlar a direção do movimento, limitar a visão do entorno e transformar a chegada à piscina em parte da experiência cerimonial.
Enquanto Haughey’s Fort reunia casas, produção artesanal e banquetes, o King’s Stables concentrava depósitos rituais.
A ligação física entre ambos mostra que as funções estavam separadas, mas integradas dentro do mesmo sistema.
Navan Fort ganhou importância séculos depois
O complexo está inserido na paisagem pré-histórica de Navan, posteriormente associada a Emain Macha, descrita nas tradições irlandesas como uma antiga capital de Ulster.
Navan Fort tornou-se conhecido principalmente por sua ocupação e importância durante a Idade do Ferro.
O novo estudo desloca parte da atenção para séculos anteriores, quando Haughey’s Fort já funcionava como centro regional.
Por volta de 1200 a.C., a construção do forte marcou, segundo os autores, a formação de um núcleo de poder, produção e ritual.
O assentamento antecedeu o período de maior destaque de Navan Fort e ajuda a explicar como aquela paisagem adquiriu importância política e simbólica.
Os monumentos não precisam ter funcionado todos da mesma maneira ou durante exatamente o mesmo intervalo.
A pesquisa, no entanto, identifica sobreposições cronológicas e ligações físicas suficientes para analisá-los como partes de uma paisagem organizada.
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Haughey’s Fort é descrito como centro proto-urbano
A classificação não transforma Haughey’s Fort automaticamente na primeira cidade da Europa.
Outros assentamentos europeus e mediterrâneos mais antigos já apresentavam alta densidade populacional, especialização de trabalho e planejamento.
O argumento do estudo é mais específico.
Na Europa Ocidental, o complexo representa um dos exemplos mais claros de uma comunidade da Idade do Bronze que reuniu, no mesmo território, moradia concentrada, produção especializada, comércio distante, edifícios coletivos e áreas rituais.
Para James O’Driscoll, da Universidade de Glasgow, as evidências revelam uma escala de organização e conectividade que não havia sido plenamente reconhecida na Irlanda desse período.
Patrick Gleeson, da Queen’s University Belfast, afirma que os monumentos precisam ser entendidos como um único sistema, e não como sítios isolados.
O estudo também altera a imagem de uma Irlanda da Idade do Bronze formada apenas por pequenos grupos agrícolas espalhados pelo território.
Pelo menos naquele ponto próximo a Armagh, havia capacidade para mobilizar trabalhadores, erguer cercados, construir edifícios monumentais e manter atividades especializadas.
Subsolo ainda guarda respostas sobre a população
Os levantamentos revelam o desenho provável do assentamento, mas não informam quantas pessoas moraram ali.
Para calcular a população, seria necessário saber quantas estruturas eram residências, quais existiram no mesmo período e quantos moradores ocupavam cada construção.
Também permanece em aberto a duração exata dos grandes edifícios.
Alguns podem ter substituído construções anteriores, enquanto outros talvez tenham funcionado simultaneamente.
Novas escavações poderão testar as interpretações produzidas pelos mapas magnéticos, identificar pisos e fogueiras, coletar materiais para datação e verificar se os diferentes setores realmente funcionaram na mesma fase.
A tecnologia consegue mostrar onde estão as marcas enterradas, mas somente a combinação entre prospecção, escavação e análise dos materiais poderá explicar quem construiu esse centro e como a vida se organizava dentro de seus limites.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

