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Espelhos gigantes no espaço vão brilhar 4 vezes mais que a Lua cheia, empresa quer lançar 50 mil até 2035 e astrônomos alertam que 1,7 milhão de satélites planejados podem devastar a astronomia

Espelhos gigantes no espaço vão brilhar 4 vezes mais que a Lua cheia, empresa quer lançar 50 mil até 2035 e astrônomos alertam que 1,7 milhão de satélites planejados podem devastar a astronomia

8 min de leitura

Espelhos gigantes no espaço vão brilhar 4 vezes mais que a Lua cheia, empresa quer lançar 50 mil até 2035 e astrônomos alertam que 1,7 milhão de satélites planejados podem devastar a astronomia

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 28/07/2026 às 13:42

Atualizado em 28/07/2026 às 13:43

Ciência e Tecnologia

Estudo do ESO alerta que satélites espelhados podem deixar o céu noturno 4 vezes mais claro e atrapalhar a busca por asteroides

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Um estudo do Observatório Europeu do Sul colocou número no problema pela primeira vez: a órbita da Terra suporta no máximo 100 mil satélites pouco brilhantes. Os planos já apresentados por empresas somam mais de 1,7 milhão, e um deles pretende refletir luz solar para o chão durante a noite.

O Observatório Europeu do Sul divulgou em 1º de julho de 2026 o primeiro estudo que calcula quantos satélites a órbita terrestre baixa consegue suportar antes de inviabilizar a astronomia profissional. O número apontado é 100 mil, desde que sejam fracos o suficiente para não serem vistos a olho nu. O trabalho é assinado pelo astrônomo Olivier Hainaut e foi publicado na revista Astronomy & Astrophysics.

O problema é que os planos anunciados por empresas ultrapassam 1,7 milhão de aparelhos, o que teria, nas palavras do pesquisador, consequências devastadoras para a astronomia. O caso mais extremo é o da americana Reflect Orbital, que pretende colocar em órbita até 50 mil satélites espelhados para refletir luz solar de volta à Terra durante a noite, projeto que sozinho pode deixar o céu noturno até quatro vezes mais claro.

O limite proposto pelo estudo: 100 mil satélites e magnitude 7

O número central do trabalho não é arbitrário. Hainaut simulou a posição, o movimento e o brilho de todas as constelações existentes e planejadas, e chegou à conclusão de que 100 mil satélites, todos abaixo do limite de visibilidade a olho nu, produziriam um estrago comparável ao de falhas técnicas comuns na astronomia, como defeito de equipamento.

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O astrônomo faz questão de relativizar o número. Ele afirmou que não se trata de uma fronteira exata, em que 99.999 seria aceitável e 100.001 seria ruim, e disse que preferiria um teto de 50 mil. A condição técnica é tão importante quanto a quantidade: os satélites precisam ser mais fracos que a magnitude visual 7, faixa em que nem o olho humano consegue enxergá los a partir de um local escuro. Se parte deles for mais brilhante que isso, o total teria de cair bastante.

De 14 mil hoje para 1,7 milhão nos planos

O ponto de partida da conta já é alto. Existem atualmente cerca de 14 mil satélites em órbita da Terra, a maioria absoluta pertencente à constelação Starlink, da SpaceX, cujos lançamentos começaram em 2019. Esse total praticamente dobrou em menos de três anos.

A projeção é que o número exploda. A SpaceX pretende lançar mais um milhão de aparelhos, incluindo grandes redes orbitais de data centers de inteligência artificial. A Amazon planeja mais de 3 mil satélites de internet pela plataforma Amazon Leo. Há ainda a constelação Cinnamon, da ESpace, e as chinesas CTC 1 e CTC 2, que juntas podem acrescentar centenas de milhares de unidades. Somados, os projetos apresentados passam de 1,7 milhão de satélites, mais de cem vezes o que existe hoje.

O plano mais volumoso veio a público pouco antes do estudo. Em junho de 2026, o fundador da SpaceX, Elon Musk, revelou a intenção de chegar a um milhão de satélites da empresa em órbita. Hainaut avalia que, até agora, a astronomia conseguiu se virar com o cenário atual, mas afirma que a situação está piorando e que as novas propostas levam os desafios da observação feita a partir do solo além do limite suportável.

Os satélites espelhados que querem vender luz do Sol à noite

O projeto que mais preocupa os astrônomos não é de internet. A startup americana Reflect Orbital quer operar uma constelação de grandes satélites espelhados capazes de direcionar luz solar concentrada para pontos específicos da superfície terrestre durante a noite, com meta de até 50 mil unidades até 2035.

Os números do feixe explicam o incômodo. Segundo o estudo, a luz refletida por esses satélites alcançará pelo menos cinco quilômetros na superfície, e quem estiver dentro dessa área receberá um brilho quatro vezes mais intenso que o da Lua cheia. Mesmo fora do feixe, cada satélite apareceria no céu tão brilhante quanto o planeta Vênus, e centenas deles poderiam ser vistos até de uma cidade com forte poluição luminosa, como Munique, na Alemanha. Seriam os objetos mais brilhantes já colocados em órbita.

Por que o céu inteiro pode ficar quatro vezes mais claro

O estudo não olhou apenas para os rastros individuais. Ele mediu também o aumento geral do brilho de fundo do céu, aquele clarão difuso que atrapalha qualquer observação astronômica mesmo quando nenhum objeto passa diretamente na frente do telescópio.

Dois efeitos se somam nessa conta. Satélites fracos demais para serem vistos individualmente ainda assim produzem iluminação difusa quando estão em grande quantidade, e os satélites muito brilhantes espalham luz em todas as direções. Só a frota completa da Reflect Orbital deixaria o céu noturno de três a quatro vezes mais claro, segundo o levantamento do ESO. É como acender uma lâmpada fraca dentro do quarto e tentar enxergar as estrelas pela janela.

O que isso faz com os telescópios que já existem

Uma hora de imagens de satélite sobre o norte do Deserto do Atacama, no Chile, em outubro de 2025.
F. Kamphues, ESO/M. Kornmesser

Os prejuízos aparecem em equipamentos específicos. O Very Large Telescope, do ESO, instalado no Observatório do Paranal, no Chile, teria perda de até 28% do campo de visão por causa apenas dos satélites planejados pela SpaceX. É uma fatia enorme de céu inutilizada em um dos telescópios mais avançados do mundo.

O caso do Observatório Vera C. Rubin, financiado pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos, é ainda mais grave. O equipamento pode perder várias horas de observação por noite. Hainaut resume o mecanismo de forma direta: quando um satélite cruza aquilo que está sendo observado, ele deixa um rastro luminoso na imagem e apaga tudo o que estava atrás. Um único espelho da Reflect Orbital seria capaz de arruinar uma exposição da câmera do Rubin.

O que exatamente foi aprovado nos Estados Unidos

Aqui vale um esclarecimento importante, porque o assunto costuma ser mal explicado. A Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos, a FCC, aprovou o plano da Reflect Orbital para o primeiro de dezenas de milhares de espelhos espaciais, informação relatada pela astrônoma Samantha Lawler, da Universidade de Regina, em entrevista ao site Refractor.

Isso não significa que a constelação inteira de satélites esteja liberada. Tanto a Reflect Orbital quanto a SpaceX seguem aguardando decisão da agência sobre a autorização para lançar suas megaconstelações completas. A palavra final sobre o futuro do céu noturno está hoje nas mãos de um órgão regulador de telecomunicações, e não de um comitê científico. Betty Kioko, responsável pelas relações institucionais do ESO, resumiu a situação dizendo que a bola agora está com a FCC.

O risco que passa longe do telescópio

Os efeitos não ficam restritos à ciência. Lawler alerta que o clarão desses feixes pode ser perigoso para quem estiver olhando através de um telescópio no momento errado e também para quem estiver pilotando uma aeronave ou dirigindo um carro à noite, situações em que um ofuscamento repentino tem consequência imediata.

Ela resume o ritmo do setor dizendo que as empresas seguem pedindo mais satélites, maiores, mais brilhantes e em órbitas mais baixas, num movimento difícil de acompanhar. A astrônoma também levanta uma questão de fundo sobre quem paga a conta. Segundo ela, a pesquisa astronômica financiada por contribuintes enfrenta uma ameaça existencial vinda de planos de empresas privadas com fins lucrativos. Ela ainda critica o fato de os cientistas serem constantemente cobrados a quantificar as próprias perdas enquanto tentam manter o trabalho normal em condições cada vez piores.

Asteroides perigosos e o efeito dominó em órbita

Existe um risco que atinge diretamente a segurança do planeta. A NASA já alertou que as constelações de satélites podem prejudicar a capacidade de detectar asteroides potencialmente perigosos em rota de colisão com a Terra, justamente o tipo de observação que depende de céu limpo e de varreduras amplas feitas à noite.

Há ainda o cenário mais temido pelos especialistas em órbita. Se satélites colidirem entre si, os destroços podem provocar novas colisões em cadeia, fenômeno conhecido como Síndrome de Kessler, capaz de transformar faixas inteiras da órbita baixa em zonas inutilizáveis. Quanto mais objetos no mesmo espaço, maior a chance de o efeito dominó começar.

O impacto ambiental que ninguém mediu direito

Existe um problema que aparece pouco no debate: o que acontece quando esses aparelhos acabam. Satélites em órbita baixa dependem de combustível para manter altitude e, quando ele acaba, o equipamento reentra na atmosfera e se desintegra. Milhares de reentradas significam milhares de estruturas queimando na alta atmosfera.

Os efeitos disso ainda são pouco conhecidos. Hainaut trata a órbita terrestre baixa como um litoral celestial, um recurso que entrega valor imenso à vida moderna, da conectividade global ao acesso direto ao Universo, e defende que o impacto das megaconstelações seja gerenciado para que esse recurso continue disponível para as próximas gerações. A poluição luminosa é apenas uma parte da conta, ao lado dos efeitos atmosféricos da reentrada.

O que responde a empresa dos espelhos

Do outro lado do debate, a Reflect Orbital afirma manter diálogo com a comunidade astronômica. Em resposta enviada à imprensa internacional após a divulgação do estudo, a empresa declarou estar comprometida com esse diálogo contínuo e informou que contratou pesquisa independente, feita por terceiros, para avaliar o impacto da própria tecnologia.

A companhia também apresentou compromissos operacionais. Segundo porta voz da empresa, a posição padrão dos satélites será desligada, ou seja, sem refletir luz, e a operação evitará de forma sistemática redirecionar feixes para perto de observatórios. São promessas de operação, não obrigações regulatórias, e é justamente essa diferença que está no centro da discussão sobre quem define as regras da órbita.

O céu ainda é de todo mundo

O debate colocado pelo estudo do ESO é menos técnico do que parece. De um lado, há benefícios reais: internet em áreas remotas, conectividade global, novas aplicações comerciais e a promessa de iluminar áreas na Terra usando luz solar refletida. De outro, existe a possibilidade concreta de perder o acesso a um céu escuro, patrimônio que a humanidade usa para se orientar e para fazer ciência desde antes de existir telescópio.

Agora queremos ler você. Vale a pena aceitar um céu noturno até quatro vezes mais claro em troca de internet e de luz sob demanda durante a noite, ou uma decisão desse tamanho não deveria ficar nas mãos de empresas e de um órgão regulador de um único país? E aqui vai a pergunta que mais divide: você aceitaria ver satélites mais brilhantes que Vênus passando sobre a sua cidade toda noite? Comenta aqui embaixo.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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