6 min de leitura
Esse caminhão vazio já pesa mais que muitos aviões comerciais cheios, precisa de dois motores V16 somando 4.600 cavalos, roda em pneus de quatro metros e nunca pode pisar em estrada comum
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 30/07/2026 às 18:51
Atualizado em 30/07/2026 às 18:54
Mineração
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
O BelAZ 75710 é o maior caminhão basculante do mundo. Pesa 360 toneladas vazio, carrega outras 450 de rocha, usa dois motores V16 que somam 4.600 cavalos e roda sobre oito pneus de quatro metros de altura, dentro dos limites de uma mina a céu aberto, nunca em via pública.
Existe uma categoria de veículo que não cabe em nenhuma comparação confortável, e o BelAZ 75710 é o exemplo mais extremo dela. Esse caminhão basculante bielorrusso pesa aproximadamente 360 toneladas antes de receber qualquer carga, número superior ao peso máximo de decolagem de muitos aviões comerciais de grande porte já abastecidos e lotados. Reportagem publicada por O Antagonista em 30 de julho de 2026 retomou os números da máquina.
Ele foi apresentado em 2013 pela BelAZ, fabricante estatal com sede em Zhodino, na Bielorrússia, e é montado ali até hoje. Com a caçamba cheia, o conjunto chega a 810 toneladas, resultado das 360 toneladas do próprio veículo somadas às 450 toneladas de carga nominal. Mede 20,6 metros de comprimento, 9,87 metros de largura e pouco mais de 8 metros de altura.
O recorde que veio depois da apresentação
O reconhecimento formal chegou em janeiro de 2014. Em um teste de carga, a caçamba transportou 503,5 toneladas, valor acima da capacidade nominal declarada pela fábrica, e o desempenho garantiu registro no Guinness. Antes dele, os maiores caminhões de mineração do mundo trabalhavam na faixa de 360 a 400 toneladas de carga útil.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O salto não foi decorativo. Em mineração a céu aberto, o custo por tonelada transportada cai quando cada ciclo carrega mais material, porque o número de viagens diminui e a frota necessária encolhe. Foi essa conta que motivou o projeto. A máquina é usada para mover material estéril, carvão e grandes volumes de rocha em minas profundas, com faixa de operação declarada entre 50 graus negativos e 50 graus positivos.
Por que dois motores V16 e não um só
Mover 360 toneladas paradas exige mais potência do que qualquer motor único de aplicação industrial entrega com folga. A solução foi dobrar. O caminhão usa dois motores diesel MTU DD16V4000, cada um com 16 cilindros em V, 65 litros de cilindrada e cerca de 1.700 quilowatts de potência nominal, o equivalente a aproximadamente 2.300 cavalos por unidade.
Somados, chegam aos 4.600 cavalos que aparecem nas fichas técnicas. A configuração dupla também funciona como redundância, já que um dos motores pode operar em marcha lenta quando o veículo está vazio, o que reduz consumo, e o segundo garante alguma capacidade de deslocamento caso o outro apresente falha. Numa mina, uma máquina parada no meio da rampa bloqueia a operação inteira, e essa é uma preocupação de projeto tão relevante quanto a potência.
Como a força chega até as oito rodas
Não existe uma transmissão mecânica ligando os motores aos eixos. Os dois V16 acionam alternadores, que produzem eletricidade para quatro motores de tração instalados no conjunto das rodas, num sistema de propulsão fornecido pela Siemens. É a mesma lógica de uma locomotiva: o diesel gera energia elétrica, e são os motores elétricos que efetivamente empurram a máquina.
A vantagem é o controle de torque. Um motor elétrico entrega força máxima desde a rotação zero, o que importa muito quando se precisa arrancar com 810 toneladas em uma rampa de mina. A tração atua nos dois eixos e a direção hidráulica movimenta os conjuntos dianteiro e traseiro. Mesmo com mais de 20 metros de comprimento, o raio de giro externo fica em torno de 19,8 metros.
Os pneus que sozinhos pesam como um caminhão comum
São oito pneus, quatro em cada eixo, na medida 59/80R63. Cada um tem cerca de quatro metros de altura e pesa aproximadamente 5,5 toneladas, mais do que muitos caminhões de entrega circulando nas cidades brasileiras. Trocar um deles não é serviço de borracharia: exige equipamento dedicado, procedimento próprio e equipe treinada.
A distribuição de peso também foge do padrão do setor. Boa parte dos caminhões de mineração concentra a maior parte da massa sobre o eixo traseiro. O projeto do 75710 busca dividir a carga de forma mais equilibrada entre frente e traseira, o que ajuda a preservar as pistas internas da mina e a reduzir o desgaste desigual dos conjuntos. Cada pneu custa mais de 50 mil dólares, segundo estimativas do mercado de equipamentos pesados.
Por que ele nunca vai andar em rodovia
A largura resolve a questão sozinha. Com quase dez metros, o veículo ocuparia várias faixas ao mesmo tempo em qualquer rodovia brasileira. A altura impediria a passagem sob a maioria dos viadutos e das redes elétricas, e o peso ultrapassa em muitas vezes o limite estrutural de pontes e pavimentos projetados para veículos rodoviários.
Por isso o caminhão é entregue desmontado. Os grandes componentes viajam separadamente até a mina e a montagem acontece no local de operação, onde a máquina passa a vida útil inteira. A velocidade máxima declarada chega a cerca de 64 quilômetros por hora em condições favoráveis, mas o trabalho real ocorre bem abaixo disso. Com a caçamba cheia, o que importa é tração, estabilidade e frenagem nas descidas, não velocidade.
Quanto custa e quanto bebe
O preço estimado ultrapassa 6 milhões de dólares por unidade, valor que varia conforme configuração e local de entrega. Não é um equipamento de prateleira: é produzido em número muito limitado e vendido diretamente a grandes operações de mineração.
O consumo acompanha a escala. As estimativas de mercado apontam algo em torno de 1.300 litros de diesel a cada 100 quilômetros percorridos. Os dois tanques armazenam juntos 5.600 litros, o que dá autonomia suficiente para os ciclos curtos e repetitivos de uma mina, onde o caminhão raramente se afasta muito da frente de lavra.
O que cabe realmente naquela caçamba
O volume da caçamba fica em torno de 268 metros cúbicos quando o material é acumulado acima das bordas, no padrão técnico de medição usado pela indústria. Como rocha tem densidade alta, o limite prático quase sempre é o peso, não o espaço.
Vale desmontar uma imagem que circula muito: a ideia de que a caçamba carrega um prédio inteiro. Ela não carrega. O que as 450 toneladas permitem é transportar uma massa comparável à de uma construção pequena, e isso é bem diferente de caber um edifício ali dentro. A comparação é útil para dar dimensão, desde que fique claro que se trata de peso, não de volume nem de estrutura.
E você, imagina o tamanho da mina que justifica uma máquina dessas? Conta aqui nos comentários se você já viu de perto algum equipamento de mineração desse porte e qual foi a sensação, e diga também se acha que faz sentido investir 6 milhões de dólares em um único caminhão.
Tags
Caminhão
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

