7 min de leitura
Explosão registrada há 845 anos deixa no espaço uma nebulosa colossal em forma de dente-de-leão, dispara filamentos a 1.100 km/s e mantém no coração dos destroços uma rara estrela zumbi nascida da fusão de duas anãs brancas
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 31/07/2026 às 17:42
Ciência e Tecnologia
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Pa 30 é o provável remanescente da supernova observada em 1181, com filamentos radiais, uma estrela zumbi e material expelido a cerca de 1.100 km/s.
Em 6 de agosto de 1181, observadores chineses e japoneses registraram uma “estrela convidada” em uma região do céu hoje associada à constelação de Cassiopeia. O objeto não se deslocava como um cometa e permaneceu visível por 185 dias, desaparecendo apenas em fevereiro de 1182.
Os registros indicam que o ponto luminoso chegou a apresentar brilho comparável ao de Saturno. Sua permanência durante meses e sua posição aparentemente fixa levaram os astrônomos modernos a interpretar o evento como uma supernova ocorrida dentro da Via Láctea.
Durante séculos, ninguém sabia com segurança onde estavam os destroços daquela explosão. A ausência de um remanescente identificado transformou a estrela de 1181 em um dos grandes enigmas da astronomia histórica.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Nebulosa Pa 30 surgiu em imagens infravermelhas
A virada começou em 2013, quando o astrônomo amador Dana Patchick examinou dados do telescópio espacial WISE e encontrou uma nebulosidade circular pouco conhecida. O objeto entrou nos catálogos como Pa 30, abreviação relacionada ao sobrenome de seu descobridor.
Assista o vídeo
No centro da estrutura havia uma estrela extremamente quente e incomum, catalogada como IRAS 00500+6713 e também conhecida como estrela de Parker.
Observações posteriores revelaram emissão intensa em raios X, ultravioleta e infravermelho, além de composição dominada por carbono e oxigênio, com neônio e magnésio.
A localização, a idade estimada e as propriedades da nebulosa apontaram para uma possibilidade extraordinária: Pa 30 poderia ser o material lançado pela explosão registrada quase 850 anos antes.
Pa 30 ocupa a região indicada pelos registros antigos
A conexão não depende apenas da aparência. Pesquisadores compararam as descrições chinesas com mapas modernos e verificaram que Pa 30 está dentro da área compatível com a posição informada para a estrela convidada de 1181.
A idade dinâmica da nebulosa também coincide com o evento histórico. Medidas da velocidade de expansão produziram estimativa próxima de mil anos, com margem suficiente para incluir a explosão registrada no século XII.
O brilho calculado para a supernova que teria criado Pa 30 também é compatível com os relatos. A combinação entre posição, idade e luminosidade tornou o objeto o candidato mais convincente, enquanto a associação anterior com 3C58 perdeu força porque sua idade e localização não se ajustam aos documentos antigos.
Filamentos transformam Pa 30 em fogo de artifício cósmico
Imagens ópticas profundas revelaram uma característica ainda mais surreal. A nebulosa possui centenas de filamentos longos e estreitos que partem da região central e se projetam para fora, lembrando os fios de um dente-de-leão ou os rastros congelados de um fogo de artifício.
Essas estruturas são ricas em enxofre ionizado e se distribuem dentro de uma concha quase circular. Em vez de formar apenas uma nuvem difusa, o material aparece organizado em linhas radiais que preservam a direção do movimento iniciado na explosão.
Observações realizadas com o Keck Cosmic Web Imager permitiram mapear a posição e a velocidade dos filamentos em três dimensões. O instrumento separou a luz conforme o movimento do gás, reconstruindo quais estruturas avançam em direção à Terra e quais se afastam.
Material da supernova avança a cerca de 1.100 km/s
A expansão medida chega a aproximadamente 1.100 quilômetros por segundo. Nessa velocidade, o material poderia atravessar a distância entre o Rio de Janeiro e Brasília em menos de um segundo, embora no espaço os filamentos percorram distâncias incomparavelmente maiores.
Os dados mostram uma expansão predominantemente balística: os fragmentos continuam seguindo para fora a partir do centro, como estilhaços lançados por uma detonação. A estrutura tridimensional reforça a relação entre os filamentos e um único evento ocorrido há vários séculos.
A velocidade é alta em termos cotidianos, mas relativamente baixa para uma supernova comum, cujos detritos podem atingir cerca de 10 mil quilômetros por segundo. Essa diferença é uma das pistas que ligam SN 1181 a uma classe rara de explosões termonucleares.
Supernova do tipo Iax não destruiu completamente a estrela
Pa 30 é associada a uma supernova do tipo Iax, categoria menos energética e menos luminosa que as supernovas do tipo Ia. Em uma explosão Ia convencional, uma anã branca sofre uma reação termonuclear descontrolada e normalmente é destruída por completo.
Eventos Iax podem interromper esse processo antes da destruição total. A explosão lança parte das camadas externas, mas deixa um remanescente estelar extremamente quente, quimicamente alterado e ainda ativo.
Assista o vídeo
A massa relativamente pequena da concha de Pa 30, sua baixa luminosidade histórica e a velocidade reduzida dos detritos combinam com esse cenário. O evento teria sido forte o suficiente para iluminar o céu durante seis meses, mas incapaz de apagar totalmente o objeto central.
Fusão de duas anãs brancas pode ter criado SN 1181
Uma das explicações mais estudadas envolve a fusão de duas anãs brancas, núcleos densos deixados por estrelas semelhantes ao Sol depois que esgotam seu combustível. Uma delas seria rica em carbono e oxigênio, enquanto a outra teria composição dominada por oxigênio e neônio.
As duas estrelas teriam perdido energia orbital, aproximado-se em espiral e finalmente colidido. A fusão desencadeou reações termonucleares, ejetou cerca de um décimo da massa do Sol e produziu a supernova observada em 1181.
O processo não teria liberado energia suficiente para dispersar toda a matéria. Parte do sistema permaneceu unida e formou a estrela central atual. A presença de carbono, oxigênio, neônio e magnésio sustenta a relação com anãs brancas quimicamente distintas.
Estrela zumbi permanece ativa no centro da nebulosa
A NASA utiliza a expressão “estrela zumbi” para descrever o ponto azul no centro de Pa 30. O apelido destaca o comportamento incomum de um objeto que atravessou uma explosão de escala estelar e continuou existindo.
A estrela central não é um astro comum. Sua temperatura superficial foi estimada em aproximadamente 200 mil kelvins, enquanto ventos podem alcançar cerca de 16 mil quilômetros por segundo. Esses fluxos atingem o material expelido anteriormente e ajudam a produzir emissões detectadas em raios X.
Sua luminosidade e composição não correspondem a uma estrela normal da sequência principal, a uma estrela de nêutrons ou a uma anã branca convencional. Ela representa um produto extremo da fusão e da explosão incompleta.
Vento estelar atinge os destroços da explosão
O remanescente continua evoluindo. O vento ultrarrápido lançado pela estrela central colide com os detritos mais lentos da supernova, aquece o gás a milhões de graus e cria regiões emissoras de raios X.
Essa interação produz uma estrutura interna complexa. Há uma concha externa em expansão, filamentos ópticos ricos em enxofre e uma zona central energizada pelo vento da estrela sobrevivente.
Assista o vídeo
Modelos investigam quando esse vento começou e como reorganizou o interior da nebulosa. A resposta pode esclarecer por que os filamentos apresentam formas tão estreitas e por que Pa 30 é diferente dos remanescentes produzidos por supernovas comuns.
Telescópios combinaram raios X, luz visível e infravermelho
A imagem mais conhecida de Pa 30 é uma composição de diversos observatórios. Chandra e XMM-Newton registraram raios X da região central; WISE observou a emissão infravermelha; o MDM Observatory destacou enxofre em luz visível; e o Pan-STARRS acrescentou as estrelas do campo.
As cores não representam exatamente aquilo que um olho humano enxergaria. Elas foram atribuídas a diferentes comprimentos de onda para tornar visíveis estruturas físicas que permaneceriam separadas em diferentes conjuntos de dados.
O resultado mostra a estrela central cercada por uma esfera de filamentos, como um dente-de-leão cósmico. A aparência nasce da união entre matéria ejetada no século XII e radiação ainda produzida pelo remanescente.
Pa 30 liga documentos medievais à astrofísica moderna
Poucos fenômenos permitem relacionar uma observação humana com uma estrutura física tão detalhada depois de tantos séculos. Os textos chineses e japoneses preservaram data, duração, localização e brilho aproximado da estrela convidada.
Essas informações oferecem uma idade praticamente conhecida para o remanescente. Em muitos casos, os cientistas precisam estimar quando uma supernova ocorreu apenas pela expansão dos detritos e pela evolução do objeto central.
Em Pa 30, o registro histórico funciona como uma marca temporal. Ele permite testar modelos de explosões Iax, acompanhar a evolução de uma estrela sobrevivente e comparar a velocidade atual com a energia liberada em 1181.
Supernova de 1181 deixou laboratório único na Via Láctea
A importância científica de Pa 30 vai além de resolver um mistério histórico. O sistema permite estudar, no mesmo local, os detritos, a estrela sobrevivente, o vento estelar e a consequência de uma provável fusão de anãs brancas.
Supernovas Iax são raras e normalmente observadas em galáxias distantes. Pa 30 está dentro da Via Láctea, a aproximadamente 7.800 anos-luz, permitindo análises em múltiplos comprimentos de onda.
A estrela convidada que brilhou durante 185 dias não desapareceu completamente. Ela deixou uma concha quase circular, filamentos lançados a cerca de 1.100 quilômetros por segundo e um remanescente que continua soprando matéria a velocidades muito maiores.
No centro desse fogo de artifício congelado permanece uma estrela zumbi, sobrevivente de uma explosão que destruiria uma anã branca comum. Mais de oito séculos depois, Pa 30 continua expandindo, emitindo raios X e revelando como duas estrelas mortas podem colidir, explodir e ainda deixar algo ativo no espaço.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

