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Filho de faxineira começou a estudar inglês escondido aos 13 anos, saiu de Jaboatão para trabalhar num cruzeiro, foi aceito por nove universidades dos EUA e levantou quase R$ 100 mil quando perdeu o patrocinador, até se tornar aos 24 o primeiro da família com diploma superior
Escrito por Ana Alice
Publicado em 30/07/2026 às 21:09
Curiosidades
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Do curso de inglês frequentado em segredo à formatura nos Estados Unidos, a trajetória de Fred Ramon reúne estudo, trabalho, apoio coletivo e obstáculos financeiros que quase interromperam um caminho construído desde a adolescência.
O diploma recebido por Fred Ramon em 15 de maio de 2025, na Califórnia, encerrou uma trajetória acadêmica que começou longe das salas de aula norte-americanas.
Aos 13 anos, sem dinheiro para pagar um curso de idiomas, ele frequentava escondido as aulas de um projeto público de inglês em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife.
Aos 24, Fred concluiu a graduação na Whittier College e se tornou o primeiro integrante da família a terminar o ensino superior.
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Antes disso, foi aprovado por nove instituições dos Estados Unidos, trabalhou em um cruzeiro, conseguiu apoio financeiro para estudar no exterior e organizou uma vaquinha que arrecadou quase R$ 100 mil quando faltavam três semestres para a formatura.
A data da cerimônia consta no calendário oficial da faculdade.
A conquista ocorreu em uma família sustentada durante anos pelo trabalho da mãe, Silvia dos Santos Gomes.
Faxineira e responsável pela criação de dois filhos, ela recebia cerca de R$ 60 por semana no início dos anos 2000, segundo o relato de Fred.
“Minha mãe trabalhava muito e mesmo assim não dava. A gente passava por muitos apertos”, afirmou.
Interesse pelo inglês começou com músicas na televisão
A curiosidade pelo idioma surgiu antes de qualquer plano de estudar fora do Brasil.
Durante a infância, Fred acompanhava videoclipes exibidos pela MTV na televisão aberta e tentava compreender as músicas estrangeiras.
Aos 13 anos, pediu à mãe que pagasse um curso de inglês.
Silvia explicou que a renda da família não permitia assumir aquela despesa.
O adolescente, então, encontrou um curso público na região e começou a comparecer às aulas sem contar a ela.
“Eu ia sozinho, sem ela saber. Queria muito aprender inglês”, relatou.
A iniciativa não permaneceu isolada.
Na adolescência, Fred participou de projetos sociais, envolveu-se com atividades ambientais e assumiu funções de representação estudantil.
Também presidiu o grêmio da escola, foi líder de turma e deu aulas de inglês para moradores da comunidade.
Um relatório da Junior Achievement Brasil registra que ele participou do programa Miniempresa em 2017 e, anos depois, recebeu aprovações de nove instituições norte-americanas.
A lista incluía Whittier College, Florida Tech, Temple University, University of Arizona, Adelphi University e outras faculdades.
Arte e educação abriram caminho para o exterior
O caminho de Fred não seguiu apenas pelas atividades escolares.
Durante o ensino médio, ele praticou balé contemporâneo e participou de apresentações culturais.
Arte, educação e atuação comunitária ocupavam o mesmo espaço em sua rotina.
A experiência com a dança abriu uma possibilidade de trabalho quando ele tinha 19 anos.
Depois de concluir o ensino médio, participou de um processo seletivo para integrar a equipe de entretenimento de um cruzeiro.
Aprovado, deixou Pernambuco para trabalhar como instrutor de dança em atividades destinadas a passageiros de diferentes países.
Uma das viagens o levou a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, marcando sua primeira experiência fora do Brasil.
“Eu nunca tinha saído do país e, de repente, estava em Dubai, dançando em festas de gala com europeus”, contou.
A permanência no cruzeiro, porém, foi interrompida pela pandemia de Covid-19.
Com as restrições que atingiram o setor de viagens em 2020, Fred retornou ao Brasil e precisou reorganizar seus planos.
De volta a Jaboatão dos Guararapes, ele passou a pesquisar oportunidades de graduação no exterior.
O ponto de partida foi um anúncio no YouTube sobre o processo de ingresso na Universidade Harvard.
“Vi um anúncio no YouTube falando sobre estudar em Harvard. Pensei: por que não?”, recordou.
Sem consultoria especializada, Fred buscou informações sobre provas de proficiência, organização do histórico escolar, cartas de recomendação e processos seletivos.
Durante meses, estudou no quarto e reuniu a documentação exigida pelas instituições norte-americanas.
Em março de 2021, recebeu nove aprovações.
A Whittier College, na Califórnia, ofereceu uma bolsa anual de US$ 35 mil.
O benefício cobria parte dos custos, mas ainda restavam cerca de US$ 31 mil por ano para mensalidades, moradia e outras despesas, de acordo com os valores divulgados na época.
A diferença financeira ainda impedia a viagem.
Depois que a história foi publicada por uma colunista de Recife e repercutiu em outros veículos, um empresário brasileiro que vivia em Miami ofereceu apoio para complementar os custos.
O patrocinador e a esposa participaram de uma videochamada com a família, ajudaram na comunicação com a faculdade e colaboraram com os documentos necessários para o visto.
Fred embarcou para os Estados Unidos em agosto de 2021.
Trabalho no campus ajudou a manter a graduação
Na Whittier College, o pernambucano estudou ciência da computação e administração, com ênfase em finanças, conforme relatou ao UOL.
A experiência acadêmica também foi acompanhada por diferentes trabalhos dentro da instituição.
Fred atuou como assistente de educação, analista de dados e integrante do setor responsável pelo relacionamento com ex-alunos e doadores.
A função permitiu que ele acompanhasse de perto como as faculdades norte-americanas arrecadam recursos para financiar bolsas.
“Aprendi como funciona o sistema de bolsas por dentro. Cada centavo que a faculdade distribui vem de alguém”, disse.
O trabalho no campus também ajudava nas despesas pessoais.
Estudantes estrangeiros nos Estados Unidos enfrentam restrições para trabalhar fora da instituição de ensino, condição que limitava as alternativas disponíveis durante a graduação.
A adaptação não envolveu apenas dinheiro ou desempenho acadêmico.
Fred afirmou que precisou compreender diferenças culturais, especialmente na forma como as relações pessoais eram construídas nos Estados Unidos.
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Perda do patrocinador ameaçou a permanência nos EUA
No terceiro ano da graduação, a estrutura financeira que permitia a permanência de Fred no país mudou.
Os patrocinadores informaram que não conseguiriam continuar pagando os custos porque a empresa havia enfrentado dificuldades e perdido uma filial.
Faltavam três semestres para a conclusão do curso.
A bolsa inicial permanecia, mas não cobria todo o valor exigido pela faculdade e pela estadia.
“Eles mostraram relatórios financeiros, tinham perdido uma filial da empresa. Eu entendi, mas fiquei desesperado”, contou.
Em dezembro de 2023, Fred tornou pública a situação e iniciou uma nova campanha de financiamento coletivo.
A meta divulgada naquele período era próxima de R$ 200 mil, valor calculado para cobrir os três semestres restantes.
A vaquinha arrecadou quase R$ 100 mil.
Embora o total não fosse suficiente para pagar todas as despesas, a mobilização chamou novamente a atenção da imprensa brasileira e chegou à direção da Whittier College.
Segundo Fred, representantes da instituição analisaram a campanha e os documentos apresentados.
A faculdade concedeu duas bolsas adicionais, permitindo que ele permanecesse matriculado até o fim do curso.
Primeiro diploma superior da família veio em 2025
A cerimônia de formatura da turma de 2025 ocorreu na quinta-feira, 15 de maio de 2025.
A Whittier College confirmou oficialmente a data e publicou registros do evento realizado no campus da instituição, na cidade de Whittier.
Ao ser chamado para receber o diploma, Fred completou um percurso iniciado nas aulas de inglês frequentadas sem o conhecimento da mãe.
A formação também encerrou a sequência de incertezas provocadas pela falta de recursos e pela interrupção do apoio financeiro.
“Alguns terminaram o ensino médio, mas faculdade, só eu. Ver minha mãe orgulhosa é surreal. Nunca achei que ia conseguir, mas com ajuda, insistência, a gente chega”, afirmou.
Após a formatura, Fred informou que trabalhava como pesquisador e analista de dados nos Estados Unidos.
Na ocasião, ele estava no Brasil durante um período de férias e pretendia retornar à Califórnia para participar de uma pesquisa em andamento na universidade.
Não foi localizada uma atualização pública segura sobre sua situação profissional depois daquele período.
O computador também passou a ocupar espaço nessa história antes da faculdade.
Aos 14 anos, Fred recebeu da mãe o primeiro laptop da casa.
Para ele, o equipamento representou o contato com um universo que reunia pesquisa, idiomas e ciências exatas.
“Eu vim das artes, mas a área de exatas nunca foi um problema para mim”, declarou.
Entre o curso de inglês escondido, a viagem de cruzeiro, as nove cartas de aprovação e a busca por recursos para continuar matriculado, cada etapa dependeu de uma combinação diferente de estudo e ajuda financeira.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

