Falso como nota de R$ 3. Mentira absoluta! E todos têm direito às próprias opiniões, mas não aos próprios fatos. Flávio Bolsonaro não criticou a eventual imposição de tarifas pelos Estados Unidos contra o Brasil em sua intervenção no USTR. Ele não dedicou uma miserável frase à contestação. Outros brasileiros o fizeram. Muitos norte-americanos foram no mesmo sentido. Ele não.
O senador e candidato do PL à Presidência apenas fez uma digressão de cafajestagem antipatriótica contra o povo e os empresários. Síntese do seu pensamento, na interpretação direta, sem volteios nem distorção sobre o que disse: “Se o Lula vencer, mandem ver. Mas esperem ao menos 90 dias para saber se não haverá um governo de quatro para os EUA: o meu”.
– Flávio não disse que inexistem razões ligadas às tarifas preferenciais, como sustentam os EUA;
– Flávio não disse que inexistem razões ambientais;
– Flávio não disse que inexistem razões ligadas aos meios de pagamento — a defesa que fez do Pix já foi anulada pelo seu documento de 86 páginas, escrito com nariz marrom, para os cartões de crédito;
– Flávio endossou a mentirosa tolerância do Brasil com a corrupção — num dia em que um aliado seu, de que sua mãe era candidata a suplente pelo Senado, foi garfado pela PF — e ainda teve a cara de pau de citar o Caso Master… Justo ele! O homem que levou um coice do “Dark Horse”.
Nada disso!
Flávio apenas apelou, de joelhos — desde Ernesto Araújo, quem se lembra?, eles buscam “o altar do Deus de Trump” —, para que as punições não venham agora.
Este atrevido, que sempre dá mais um passo à beira do abismo — parafraseio Millôr — sustentou apenas ser este o “pior momento” para as tarifas. Logo, se as palavras fazem sentido, ele vislumbra um “melhor momento”.
Todos os argumentos dos EUA são fácil e absolutamente desmontáveis com verdades inequívocas e demonstráveis. Mas ele estava lá tentando se livrar de sua fortuna crítica e de tudo o que fez até agora, em companhia do pai e de um dos irmãos, contra o Brasil, contra o Supremo, contra a institucionalidade.
Flávio foi se ajoelhar de novo. Logo terá de comprar uma pomada contra escaras. Contra o descaramento — putz, fiz um trocadilho! —, não há. Só vergonha na cara. Mas não se inventou um linimento para isso. Nem um emplastro (em Machado: “emplasto”) contra a nossa “melancólica humanidade”. No caso, contra o melancólico servilismo.
Ou nem tão “melancólico” assim se tudo der certo para esses patriotas e errado para o Brasil. Quanto vale entregar as terras raras? Quanto vale entregar o Pix? Quanto vale fazer a vontade dos cartões de crédito?
Insista-se: Flávio foi o único Brasileiro a falar na USTR a não se opor às tarifas. Alinhou-se com a minoria de norte-americanos que a defenderam — eram “lobbies” especialmente ligados ao agro de lá.
E, no entanto, observo, que a CNA, o principal sindicato de produtores rurais do Brasil, paga pau para o bolsonarismo. Por isso sugeri, em texto de ontem, com uma nota de ironia, que esses caras leiam um clássico do marxismo, de autoria de Lukács. E houve idiota reaça achando que eu falava a sério. É sério que Lukács é leitura sofisticada para quem entende do riscado. Mas é claro que eu brincava. Se essa turma ler a “Caminho Suave” da defesa dos interesses nacionais, já estaremos no lucro.
Sou de um tempo em que as elites nacionais conseguiam ao menos suportar uma oração subordinada substantiva completiva nominal reduzida de infinitivo.
Em certa medida, a gramática até poderia salvar o mundo, como a beleza — em “O Idiota”, de Dostoievski. Mas acho que Jair Renan pode ser eleito deputado por Santa Cataria, em nome dos que ele chama “cidadões”… “A vida não presta/ e eu só tenho o Zé”… Graaande Léo Jaime!

