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Imigrante italiano passou 33 anos sozinho transformando ferro, vidro quebrado, conchas e restos de lixo em torres de sucata de quase 30 metros em Los Angeles, obra sem projeto que enfrentou ordem de demolição, resistiu a 10 mil libras de força, fez um guindaste falhar e ainda sobreviveu intacta a terremotos históricos
Escrito por Carla Teles
Publicado em 30/07/2026 às 04:30
Atualizado em 30/07/2026 às 04:31
Construção
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Simon Rodia construiu sozinho as torres de sucata de Watts entre 1921 e 1954, usando vergalhões, cimento, vidro, cerâmica, espelhos, conchas e objetos descartados; ameaçada de demolição, a obra suportou um teste lateral de 10 mil libras, fez o guindaste falhar e permaneceu de pé após terremotos históricos na Califórnia.
As torres de sucata conhecidas como Watts Towers começaram a surgir em 1921, quando o imigrante italiano Simon Rodia decidiu transformar o terreno triangular onde vivia, no bairro de Watts, em Los Angeles, numa obra sem projeto formal, construída com ferro, cimento e materiais encontrados nas ruas.
A história foi detalhada pelo site Etan Does LA em uma publicação de 13 de abril de 2022. Segundo a fonte, Rodia trabalhou sozinho durante 33 anos, principalmente à noite, nos fins de semana e feriados, até abandonar o conjunto em 1955, depois de sofrer um derrame e cair de uma das estruturas.
Terreno triangular virou espaço para uma obra sem planta
Simon Rodia chegou aos Estados Unidos ainda menino e, depois de viver em diferentes cidades, instalou-se no sul da Califórnia. Em 1920, comprou um pequeno lote triangular em Watts, próximo à antiga linha ferroviária Pacific Electric, e começou a construir no ano seguinte.
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Ele não deixou plantas, cálculos ou um projeto artístico detalhado. A intenção declarada era apenas fazer “algo grande”, ideia que acabou ocupando mais de três décadas de sua vida e transformando o quintal numa das obras de arte popular mais conhecidas dos Estados Unidos.
O conjunto recebeu o nome de “Nuestro Pueblo”, ou “Nossa Cidade”, inscrição gravada por Rodia sobre uma das entradas. A obra cresceu por tentativa, desmontagem e reconstrução, até alcançar a forma que ele considerava adequada.
Vidro quebrado e restos de lixo ganharam outra função
Antes de levantar as estruturas mais altas, Rodia cobriu partes do quintal com cimento colorido e pressionou objetos sobre a superfície ainda úmida. Cestos, pedaços de metal, azulejos, discos quebrados, garrafas e partes de móveis passaram a integrar os mosaicos.
Materiais que normalmente seriam descartados foram incorporados como textura, cor e memória da vizinhança. Rodia recolhia objetos encontrados nas ruas e também fazia trocas com crianças do bairro, oferecendo frutas ou pequenas quantias em dinheiro.
Com o tempo, surgiram cactos de concreto, fontes, bancos, um labirinto, um coreto, uma banheira para pássaros e uma escultura inspirada no navio de Marco Polo. As torres de sucata vieram depois, acompanhadas por cinco estruturas menores.
Vergalhões foram dobrados manualmente nos trilhos
As três torres principais foram feitas com vergalhões reaproveitados, tubos e contrafortes de ferro. Rodia dobrou pessoalmente cada peça, usando os trilhos ferroviários próximos como uma espécie de torno improvisado.
A estrutura metálica recebeu tela, cimento e mosaicos formados por conchas, pedaços de espelho, vidro, pedras, azulejos e fragmentos de garrafas de refrigerante. Nenhuma peça foi posicionada por uma equipe especializada: todo o trabalho manual foi realizado por Rodia.
O imigrante possuía experiência profissional com aplicação de cimento, assentamento de azulejos e trabalho em altura. Ele havia atuado como instalador de linhas telefônicas e sabia utilizar cintos de segurança enquanto escalava estruturas elevadas.
Torres alcançaram quase 30 metros de altura
Assista o vídeo
As maiores estruturas chegam a quase 100 pés, equivalentes a aproximadamente 30 metros. Vistas de longe, formam pontas estreitas que se elevam acima das construções baixas do bairro de Watts.
Rodia subia carregando baldes de cimento, conchas e peças decorativas. A altura tornou o trabalho mais arriscado, especialmente porque ele não dispunha de andaimes, máquinas modernas ou uma equipe de apoio.
O conjunto foi cercado por uma parede ondulada com cerca de sete pés, pouco mais de dois metros, revestida com pedras coloridas, cerâmica e pedaços de garrafa. Corações e formas curvas aparecem repetidamente em diferentes áreas.
Trabalho continuou por 33 anos sem ajuda
Rodia dedicou noites, feriados e fins de semana às torres de sucata. O processo começou em 1921 e foi interrompido em 1954, quando ele já tinha 75 anos.
Naquele ano, sofreu um derrame e caiu de uma das torres. Os episódios contribuíram para sua decisão de considerar a obra concluída, embora não haja registro de uma cerimônia formal ou de uma data precisa para o último elemento instalado.
Em 1955, Rodia entregou a propriedade a um vizinho e mudou-se para Martinez, no norte da Califórnia, onde passou a viver com uma irmã. Ele não voltou a produzir outra obra de escala semelhante.
Incêndio levou cidade a ordenar demolição
Em 1956, um incêndio destruiu a antiga casa de Rodia existente no terreno. Depois do episódio, a prefeitura de Los Angeles classificou o conjunto como um risco à segurança e determinou que as estruturas fossem demolidas.
Um grupo de moradores, artistas e defensores do local criou o Committee for Simon Rodia’s Towers in Watts. A mobilização buscava provar que as torres eram estruturalmente seguras e possuíam valor cultural.
Entre os integrantes estava Bud Goldstone, engenheiro aeronáutico que propôs um teste de resistência. A avaliação seria decisiva para definir se a ordem de demolição permaneceria válida.
Teste aplicou 10 mil libras de força lateral
Cabos de aço foram presos às torres e conectados a um guindaste. O equipamento puxou as estruturas lateralmente, aplicando uma força de 10 mil libras, equivalente a aproximadamente 4,5 toneladas-força.
As torres de sucata não se moveram durante o teste. O guindaste, por outro lado, apresentou uma falha mecânica antes que a estrutura demonstrasse qualquer sinal relevante de instabilidade.
Depois do resultado, o Departamento de Construção e Segurança de Los Angeles recuou na tentativa de demolir o conjunto. Goldstone ficou com a placa que indicava a futura derrubada como lembrança da disputa.
Estrutura resistiu a terremotos e tumultos
A resistência das torres não foi demonstrada apenas pelo teste com o guindaste. Segundo a fonte, o conjunto atravessou o terremoto de Long Beach, em 1933, e o terremoto de Northridge, em 1994.
Os abalos fizeram cair apenas pequenos fragmentos de decoração. As estruturas principais permaneceram de pé, apesar de terem sido erguidas sem cálculos formais ou projeto de engenharia registrado.
O conjunto também sobreviveu sem danos relevantes aos tumultos ocorridos em Watts em 1965. Esses episódios reforçaram a percepção de que a construção improvisada possuía estabilidade maior do que autoridades haviam imaginado.
Obra recebeu reconhecimento histórico oficial
As Watts Towers foram incluídas no Registro Nacional de Lugares Históricos dos Estados Unidos em 13 de abril de 1977. Em 14 de dezembro de 1990, receberam também a designação de Marco Histórico Nacional.
Durante 16 anos, o comitê formado para salvar a obra ficou responsável pela preservação. Em 1975, passou a trabalhar em parceria com a cidade de Los Angeles e, em 1978, com o estado da Califórnia.
Atualmente, o local é administrado pelo Departamento de Assuntos Culturais de Los Angeles. A obra ameaçada de demolição tornou-se oficialmente reconhecida como patrimônio artístico e histórico.
Preservação limita acesso ao interior
O Watts Towers Arts Center e o Charles Mingus Youth Arts Center funcionam ao lado das estruturas e desenvolvem visitas, atividades culturais e projetos com artistas. O espaço também recebe festivais anuais de música.
No momento retratado pela fonte, os visitantes podiam observar apenas o perímetro enquanto o Museu de Arte do Condado de Los Angeles conduzia um trabalho de preservação de longo prazo.
Mesmo do lado de fora, os mosaicos, as proporções e os detalhes continuam visíveis. A paisagem construída a partir de sucata permanece como testemunho de uma obra individual que resistiu ao abandono, à ordem de demolição e ao tempo.
De restos descartados a símbolo de Los Angeles
Simon Rodia não possuía formação artística acadêmica nem deixou outras obras conhecidas. Sua experiência com cimento, azulejos e trabalho em altura ajudou na construção, mas não explica completamente a decisão de dedicar 33 anos a uma criação daquele porte.
As torres de sucata mostram como materiais ignorados podem ganhar significado quando reunidos por uma visão persistente. Ferro enferrujado, vidro quebrado, conchas e pedaços de garrafa passaram de resíduos urbanos a elementos de uma estrutura reconhecida nacionalmente.
Na sua opinião, obras construídas sem projeto formal, mas com valor artístico e histórico, devem ser preservadas mesmo quando desafiam as regras tradicionais da engenharia? Deixe seu comentário e conte qual detalhe da história de Simon Rodia mais chamou sua atenção.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

