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Impressa em 7 dias e montada em menos de 6 horas entre o último trem da noite e o primeiro da manhã, uma estação ferroviária japonesa substituiu o prédio de madeira de 75 anos pela metade do custo

Impressa em 7 dias e montada em menos de 6 horas entre o último trem da noite e o primeiro da manhã, uma estação ferroviária japonesa substituiu o prédio de madeira de 75 anos pela metade do custo

9 min de leitura

Impressa em 7 dias e montada em menos de 6 horas entre o último trem da noite e o primeiro da manhã, uma estação ferroviária japonesa substituiu o prédio de madeira de 75 anos pela metade do custo

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 26/07/2026 às 20:09

Atualizado em 26/07/2026 às 20:17

Construção

Impresso em 7 dias e montado em menos de 6 horas entre dois trens, o prédio da estação de Hatsushima substituiu uma construção de 1948 pela metade do custo.

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O último trem passou às 23h57 e o primeiro às 5h45. Nesse intervalo, quatro caminhões e um guindaste ergueram uma estação inteira ao lado da antiga. A montagem da estrutura levou cerca de duas horas, e a obra pelo método convencional custaria o dobro.

A estação de Hatsushima, na cidade de Arida, província de Wakayama, no Japão, recebeu na madrugada de 26 de março de 2025 um prédio novo montado a partir de peças produzidas com impressora 3D de construção. A operação substituiu uma construção de madeira erguida em 1948, dentro de um projeto que a operadora West Japan Railway, a JR West, apresenta como o primeiro do tipo no mundo, segundo reportagem de Kiuko Notoya publicada pelo The New York Times.

A comparação de números é o que sustenta o interesse do setor. Pelo método convencional de concreto armado, apenas a estrutura levaria de um a dois meses e custaria o dobro, de acordo com a JR West e com a construtora parceira Serendix. A produção das peças levou sete dias em fábrica, e a montagem no local aconteceu dentro da janela de seis horas em que não passa trem.

A janela de seis horas que manda no cronograma

O último trem passou às 23h57 e o primeiro às 5h45, e a estação nova nasceu nesse intervalo.

Obra perto de linha férrea em operação é um problema logístico antes de ser um problema de engenharia. As restrições são rígidas e o trabalho só pode acontecer à noite, no intervalo entre o último e o primeiro trem, para não interferir na tabela de horários.

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Kunihiro Handa, cofundador da Serendix, resumiu o efeito disso: normalmente uma construção assim se arrasta por vários meses, avançando um pedaço a cada noite em que os trens não estão circulando. É essa fragmentação, e não a complexidade da obra em si, que estica o prazo.

O desafio assumido pelo projeto foi concentrar tudo em uma única madrugada. A meta era completar da fundação à estrutura em seis horas, algo que só se torna possível se as peças chegarem prontas ao canteiro. Foi exatamente esse o desenho da operação.

Sete dias de impressão a 800 quilômetros de distância

As peças foram impressas a cerca de 800 quilômetros dali, em uma fábrica na província de Kumamoto.

O prédio não foi impresso no local. A fabricação aconteceu em uma fábrica na província de Kumamoto, na ilha de Kyushu, no sudoeste japonês, a cerca de 800 quilômetros da estação de destino.

A produção completa, incluindo a impressão das peças e o reforço com concreto, levou sete dias, segundo a Serendix. As peças receberam ainda pintura com tinta resistente às intempéries antes de sair da fábrica.

O transporte começou na manhã de 24 de março de 2025. As partes seguiram por estrada até Arida em caminhões separados, atravessando quase todo o oeste do Japão para chegar a uma cidade de 25 mil habitantes na província de Wakayama, vizinha dos destinos turísticos de Osaka e Nara.

A madrugada de 25 de março: quatro caminhões e um guindaste

Na noite daquela terça-feira, os caminhões começaram a chegar e dezenas de moradores se juntaram na estação para assistir. A cena tinha algo de espetáculo local: uma obra inédita acontecendo em um lugar que todo mundo conhecia de cor.

O último trem partiu às 23h57. Depois da liberação da via pela ferrovia, os quatro caminhões entraram em sequência na rotatória em frente à estação, e um guindaste içou as peças diretamente da carroceria para o ponto de instalação, a poucos metros do prédio antigo. Barras de metal foram inseridas nos furos de fixação e adesivo foi aplicado para travar o conjunto, com a base assentada sobre uma camada de concreto de regularização.

A montagem da estrutura, incluindo teto e paredes, levou aproximadamente duas horas. Foram apenas algumas pessoas trabalhando, contando o operador do guindaste. O primeiro trem chegou às 5h45 e encontrou a estação nova já de pé.

Há um detalhe que ajuda a entender o tamanho da eficiência. Segundo relato posterior da operação, boa parte do tempo de montagem foi consumida com a troca dos caminhões na rotatória, e o trabalho efetivo de construção ficou perto de uma hora e quinze minutos.

O detalhe técnico que quase ninguém conta

Quatro caminhões entraram em sequência na rotatória, e um guindaste içou as peças direto da carroceria.

Aqui está a informação mais importante desta matéria e a que costuma sumir nas manchetes. O prédio não é, tecnicamente, um objeto impresso maciço.

O que a impressora produziu foram as peças que formam a casca da construção, feitas de um tipo especial de argamassa. Essas peças foram então preenchidas com ferragem e concreto, resultando em uma edificação de concreto armado convencional em termos estruturais. Em outras palavras, a impressão 3D substituiu a fôrma, não o concreto.

Isso não diminui o feito, e sim explica por que ele funciona. Dispensar fôrma de madeira é justamente o que permite curvas e relevos sem estourar o orçamento, porque em obra tradicional a fôrma é a parte cara e demorada de qualquer geometria fora do padrão retangular. Hiroshi Ota, do escritório de arquitetura Neuob, apontou exatamente isso ao explicar as formas arredondadas escolhidas: desenhos curvos são caros e difíceis com concreto moldado em fôrma.

A construção resultante é de concreto armado com resistência sísmica comparável à de casas do mesmo material, segundo a Serendix, e apresenta durabilidade e resistência à corrosão superiores às da madeira que estava ali antes.

Nove metros quadrados, uma laranja e um peixe na parede

A montagem da estrutura levou cerca de duas horas, com apenas algumas pessoas trabalhando.

O prédio novo é pequeno e assume isso. São 9,9 metros quadrados de área, em um pavimento, com 6,3 metros de largura, 2,1 metros de profundidade e 2,6 metros de altura no ponto mais alto do teto em arco.

O interior tem exatamente três itens: um banco para duas pessoas, uma máquina de bilhetes e um leitor simples de cartão de transporte. A função declarada é servir de sala de espera, e a estrutura é bem menor do que o prédio de madeira que substituiu.

A identidade local ficou por conta da fachada. As paredes trazem relevos de uma laranja mandarina e de um peixe espada, os dois produtos que dão fama a Arida. Segundo o arquiteto responsável, representar especialidades regionais em relevo é outro recurso que só a impressão 3D torna viável naquela escala e naquele custo.

Vale registrar a reação de quem usa o lugar. Yui Nishino, estudante universitária de 19 anos que pega o trem ali todo dia, disse que a obra avançava em uma velocidade impossível na construção normal e torceu para que a tecnologia fosse usada em mais edifícios.

Metade do custo e um sexto do prazo

O argumento econômico é o que interessa à ferrovia. Segundo a JR West, o mesmo prédio construído pelo método convencional levaria mais de dois meses e custaria o dobro.

A conta da Serendix vai na mesma direção pelo lado do trabalho. A companhia afirma que sua abordagem baseada em impressora 3D reduz custo de mão de obra e produz todo o material de construção a partir de argamassa, cortando duas despesas ao mesmo tempo em um cenário de preços em alta.

Para a operadora ferroviária, porém, o ganho principal não é o dinheiro em si. O que interessa é a redução do número de pessoas necessárias para tocar a obra, segundo Ryo Kawamoto, presidente da JR West Innovations, braço de capital de risco da empresa. Em um país com força de trabalho encolhendo, gente disponível vale mais do que orçamento.

O prédio de 1948 e o Japão que encolhe

O que saiu da impressora foi a casca de argamassa, depois preenchida com ferragem e concreto.

O contexto por trás do experimento é demográfico. Com o envelhecimento da população japonesa e a redução da mão de obra, manter infraestrutura ferroviária, incluindo prédios de estação antigos, virou desafio crescente para as operadoras, especialmente em estações rurais com pouco movimento.

Hatsushima se encaixa nesse perfil. A estação fica em uma cidade costeira tranquila, é atendida por uma única linha com trens circulando de uma a três vezes por hora e recebe algo em torno de 530 passageiros por dia. Desde 2018 opera de forma automatizada, sem funcionários, como acontece com muitas estações menores no país.

O prédio de madeira que saiu de cena foi concluído em 1948 e chegou aos anos 2020 com problemas de envelhecimento e custo de manutenção crescente. Nem todo mundo comemorou a troca. Toshifumi Norimatsu, de 56 anos, que administra o correio a poucos metros dali, disse ter sentimentos misturados: lamentou a demolição da antiga estação, mas afirmou que ficaria feliz se aquela experiência beneficiasse outras estações.

Abriu em 22 de julho de 2025

A estrutura ficou pronta em março, mas o público só entrou meses depois. Faltavam serviços internos, acabamento externo e a instalação dos equipamentos, incluindo máquina de bilhetes e leitor de cartão.

A JR West anunciou em 10 de julho de 2025 a data definitiva. O novo prédio entrou em uso a partir do primeiro trem de 22 de julho de 2025, uma terça feira, funcionando como sala de espera da estação de Hatsushima.

O prazo prometido em março foi cumprido. Entre a montagem noturna e a abertura ao público passaram se quase quatro meses, tempo dedicado quase inteiramente a acabamento e instalações, e não à construção em si.

Quem fez e o que vem depois

O projeto reuniu bastante gente para um prédio de menos de dez metros quadrados. O desenho arquitetônico ficou a cargo do escritório Neuob em parceria com o escritório de arquitetura da JR West em Osaka, e o projeto estrutural envolveu o escritório KAP e a mesma equipe da ferrovia.

A Serendix, sediada em Nishinomiya, na província de Hyogo, é a peça central da parte industrial. A empresa se apresenta como a primeira fabricante japonesa de casas impressas em 3D e concluiu em março de 2022 sua primeira unidade em 23 horas de trabalho acumulado. Em maio de 2024 firmou acordo de capital e negócios com o grupo JR West, movimento que abriu caminho para projetos fora da habitação.

O passo seguinte já está em avaliação. A JR West informou que estuda aplicar a tecnologia a outros prédios de estação e a demais instalações ferroviárias, e a Serendix afirmou que vai medir com a ferrovia os efeitos reais de redução de prazo e de custo de construção e manutenção antes de ampliar a escala.

O que fica dessa madrugada

Sete dias de impressão, 800 quilômetros de estrada, quatro caminhões, um guindaste, duas horas de montagem e um prédio de 9,9 metros quadrados com uma laranja esculpida na parede. A estação de Hatsushima não é grande nem sofisticada, e é justamente por isso que ela interessa: mostra o que dá para fazer em uma janela de seis horas quando as peças chegam prontas.

E você, o que acha desse caminho? Trocar um prédio de madeira de quase oito décadas por uma sala de espera de dez metros quadrados é modernização inteligente ou empobrecimento do que a estação era? Faz sentido o Brasil olhar para essa tecnologia em estações, paradas de ônibus e postos de saúde no interior, ou o problema aqui é outro? E mais: obra que reduz o número de trabalhadores necessários é ganho de produtividade ou perda de emprego disfarçada de inovação? Comente sua opinião, principalmente se você trabalha com construção civil, ferrovia ou pré moldados e consegue avaliar o que esses números significam na prática.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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