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Inveja da vagina (por Fernanda Hamann)

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Inveja da vagina (por Fernanda Hamann)

O blogueiro Paulo Figueiredo, auto-exilado nos Estados Unidos e foragido de um mandado de prisão da Justiça Brasileira, causou repúdio ao dizer que as mulheres votam mal, principalmente as solteiras, porque as casadas imitam o voto dos maridos.

Não surpreende que a pérola venha do neto de um ditador, num vídeo cheio de ícones de um pseudopatriotismo entreguista, como a bandeira dos EUA e uma caneca MAGA.

Muito se debateu sobre a encruzilhada da direita brasileira, dependente de um bolsonarismo misógino, que precisa do voto feminino, majoritário no Brasil. Também se apontaram relações entre a posição de Figueiredo e a de neonazistas como Nick Fuentes, que defendem a extinção do voto das mulheres.

Mas a montagem fálica do discurso do blogueiro me remeteu, antes, a um esforço de compensar uma questão masculina que merece ser formulada numa terminologia psicanalítica: a inveja da vagina.

Embora Freud seja acusado de machismo — por ter diagnosticado o funcionamento psíquico de sujeitos submetidos a uma cultura, essa sim, machista —, sua clínica se construiu sobretudo a partir da escuta de mulheres, que dispunham de poucos espaços de fala além do consultório do analista.

Nesse contexto, o conceito freudiano de inveja do pênis se insere no que Nelson Rodrigues chamaria de a vida como ela é (e não como gostaríamos que ela fosse). Trata-se de uma questão mais simbólica do que anatômica: numa sociedade em que um atributo masculino é símbolo de poder, as meninas desejam possuí-lo.

Mas o vocabulário psicanalítico permitiu o avanço das conceituações de Freud para além do que ele previa, inclusive por psicanalistas mulheres, como Melanie Klein. Na sua clínica com crianças, Klein notou que muitos meninos nutrem a fantasia de que a mãe é dotada de um falo dentro dela, e desejam roubá-lo. Depois, acossados pela culpa, sofrem de uma angústia persecutória, que pode resultar num sentimento de ódio e inveja da mulher, intenso e subjacente, que perturbará a masculinidade e a relação heterossexual adulta.

Outras psicanalistas, como Karen Horney, observaram que os homens tendem a experimentar uma inveja inconsciente da capacidade das mulheres de gestar a vida. Afinal, ao contrário delas, eles nunca terão certeza de que são os pais biológicos dos seus filhos e herdeiros. Isto explica a criação de mecanismos de controle do corpo feminino — dos cintos de castidade à legislação sobre o aborto. Horney postulou, então, a existência de uma inveja da vagina, ou da feminilidade.

O avanço do feminismo deu às mulheres a chance de ocupar novos lugares sociais. Cabe aos homens se interrogar quais lugares eles pretendem ocupar nesse novo rearranjo. Eles querem nutrir laços de parceria e equidade com as mulheres? Ou lutar para restabelecer a supremacia que consideram ameaçada?

As reações reacionárias, dos red pills e afins, apelam a uma masculinidade violenta, mas também caricata e patética. Remetem à cena dos meninos inseguros, medindo o tamanho das suas “pilinhas” no banheiro da escola.

 

(Transcrito do PÚBLICO-Brasil)

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