Ao menor sinal de desconforto, muita gente recorre à internet em busca de respostas. Em poucos cliques, sintomas como barriga inchada, azia e gases viram um diagnóstico pronto e, quase sempre, apontam para intolerância alimentar.
A gastroenterologista Paula Novais alerta que o diagnóstico raramente é tão simples e que as sugestões encontradas nas redes levam muitas pessoas a cortar alimentos da dieta por conta própria.
Segundo a especialista, o excesso de informação sobre o tema tem gerado uma percepção equivocada sobre intolerância alimentar. Em sua prática no Barralife Medical Center, no Rio de Janeiro, ela explica que frequentemente os pacientes não entendem que os sintomas podem decorrer de alterações no próprio funcionamento do intestino.
“Se uma pessoa percebe desconforto apenas após consumir leite, faz sentido investigar a lactose. Mas quando pão, frutas, feijão, cebola, alho e diversos outros alimentos passam a causar sintomas, muitas vezes o problema não está em todos eles. Isso pode indicar um intestino sensibilizado, inflamação intestinal ou alterações da microbiota”, afirma.
Sintomas podem ser confundidos com problemas intestinais
Paula Novais esclarece que outras condições podem provocar sintomas semelhantes. “Síndrome do intestino irritável, supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO), doença celíaca e doenças inflamatórias intestinais também podem desencadear gases, distensão abdominal, diarreia e desconforto após as refeições”, diz a médica.
“Muitas pessoas passam meses ou anos retendo alimentos, gastando com exames sem validação científica e suplementos diversos, enquanto a verdadeira causa dos sintomas permanece sem investigação”, complementa.
Autodiagnóstico
A popularização de testes de intolerância alimentar vendidos em farmácias também tem confundido pacientes. Segundo Paula Novais, muitos desses exames medem anticorpos IgG contra alimentos e interpretam o resultado como sinal de intolerância.
“Na prática, esses anticorpos costumam indicar apenas que o organismo teve contato com aquele alimento. Não comprovam doenças nem justificam restrições alimentares”, alerta.
Embora desconfortos digestivos ocasionais sejam comuns, alguns sinais exigem investigação especializada. “Diarreia persistente, perda de peso inexplicada, anemia, fadiga intensa, sangue nas fezes, febre e dores abdominais recorrentes podem indicar doenças que vão muito além de uma simples intolerância”, detalha a gastroenterologista.
Entenda mais sobre a intolerância alimentar
Por fim, a gastroenterologista explica que intolerância alimentar é a dificuldade do organismo em digerir certos alimentos, geralmente por falta de enzimas específicas. Um exemplo comum é a intolerância à lactose.
Segundo Paula Novais, o diagnóstico ocorre quando o organismo não produz lactase suficiente, enzima responsável por quebrar a lactose — o açúcar do leite — em glicose e galactose para serem absorvidas.
“Quando uma pessoa com intolerância consome produtos lácteos, o intestino delgado não consegue digerir a lactose adequadamente. A lactose chega ao cólon intacta e as bactérias da flora intestinal a fermentam”, detalha.
A médica reforça que os sintomas característicos costumam aparecer entre 30 minutos e duas horas após o consumo: dor abdominal, inchaço (distensão abdominal), flatulência, diarreia e náusea.
Em relação ao glúten, o cenário é ainda mais complexo. “Muitas pessoas usam o termo ‘intolerância ao glúten’ para situações diferentes. Há a doença celíaca, que é autoimune; a alergia ao trigo; e a sensibilidade ao glúten não celíaca. Cada uma tem causas, mecanismos e tratamentos específicos”, destaca a especialista.
Justamente por essas especificidades, a médica reforça a importância de consultar um especialista antes de excluir alimentos da rotina. “Uma lista extensa de itens ‘proibidos’ pode levar a dietas muito restritivas, deficiências nutricionais, medo de comer e uma relação prejudicada com a alimentação”, conclui.
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