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Miguel, de 88 anos, e Nelson, de 73, mantêm viva a ferraria do pai em Vila Lângaro, onde ainda forjam ferro na bigorna, fabricam foices e rodas de carroça à mão e guardam um ofício centenário no interior gaúcho

Miguel, de 88 anos, e Nelson, de 73, mantêm viva a ferraria do pai em Vila Lângaro, onde ainda forjam ferro na bigorna, fabricam foices e rodas de carroça à mão e guardam um ofício centenário no interior gaúcho

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Miguel, de 88 anos, e Nelson, de 73, mantêm viva a ferraria do pai em Vila Lângaro, onde ainda forjam ferro na bigorna, fabricam foices e rodas de carroça à mão e guardam um ofício centenário no interior gaúcho

Escrito por Felipe Alves da Silva

Publicado em 29/07/2026 às 21:27

Curiosidades

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Ferreiro e marceneiro desde crianças, os irmãos Bordinhon aprenderam o ofício observando o pai trabalhar, sem que ninguém precisasse ensinar com palavras — bastava olhar e repetir. Reprodução/Vale Agrícola

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Os irmãos Bordinhon aprenderam o ofício com o pai ainda na infância e, desde 1986, assumiram juntos a ferraria e a marcenaria da família, onde foices, rodas de carroça e utensílios centenários ainda são produzidos e restaurados à mão

No município de Vila Lângaro, na região norte do Rio Grande do Sul, dois irmãos fazem questão de manter acesa uma chama que o tempo moderno tenta apagar. Miguel Bordinhon, de 88 anos, é ferreiro. Nelson Bordinhon, de 73, é marceneiro. Juntos, preservam as técnicas e o modo de fazer herdados do pai — um homem que aprendeu o ofício sozinho e deixou como legado não apenas ferramentas e peças, mas uma forma de enxergar o trabalho que poucos ainda conhecem.

A ferraria onde Miguel passa os dias foi construída pelo próprio pai da família, que veio de Veranópolis e se instalou no interior de Vila Lângaro. De lá para cá, pouca coisa mudou. A bigorna permanece no mesmo lugar. O martelo é o mesmo. As técnicas também. O que mudou foi apenas o fole: o antigo, movido a braço — uma caixa grande de madeira e couro que bombeava ar manualmente para alimentar o fogo — foi substituído por um soprador elétrico, com a chegada da energia na região.

Antes disso, contudo, a vida era bem diferente. “Era tudo, não tinha luz”, lembra Miguel. Nos períodos de seca, a água escasseava e o dínamo movido pela roda d’água perdia força, gerando energia insuficiente até para manter uma lâmpada acesa com claridade. “Ficava aquela lâmpada — você enxergava um pouquinho”, recorda o ferreiro, descrevendo com simplicidade uma época em que trabalhar significava superar limitações que hoje parecem distantes.

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Da maravalha ao carvão: o ritual de acender o fogo e moldar o ferro

Miguel aprendeu a usar a maravalha ainda criança, aos 8 anos, quando o pai lhe ensinou que nada se desperdiça dentro de uma ferraria de verdade. Imagem: Reprodução/Vale Agrícola

Todo trabalho na ferraria começa pelo fogo. E acendê-lo, segundo Miguel, é uma arte em si. O primeiro combustível utilizado é a maravalha — o pó e os resíduos de madeira que sobram da marcenaria. Ela serve para iniciar a chama. Em seguida, o carvão é adicionado aos poucos, sustentando o calor necessário para que o ferro possa ser trabalhado.

Antigamente, o carvão preferido era feito de nó de pinheiro — material que gerava uma brasa mais forte e esquentava o ferro muito mais rápido. “Hoje, com a lenha mais fraca, você gasta muito mais carvão”, explica o ferreiro, comparando o rendimento dos combustíveis de ontem e de hoje. O ar que alimenta o fogo passa por canos conectados ao soprador, controlando a intensidade da chama conforme a necessidade da peça que está sendo trabalhada.

O momento decisivo chega quando o ferro atinge a cor certa — alaranjado ou vermelho. É então que começa a moldagem. Com o martelo na mão e a peça sobre a bigorna, Miguel trabalha o metal com golpes precisos, formando argolas, encaixes, hastes. “Com 8, 10 anos eu comecei a fazer isso”, relembra, descrevendo como aprendeu o ofício ainda criança, observando o pai trabalhar sem que ninguém lhe ensinasse formalmente. Até os 15 anos, já dominava o processo com desenvoltura.

Nesse tempo, a ferraria da família produziu de tudo: foices, enxadas, facões, martelos, arados, molas de caminhão e, entre as peças mais complexas, as antigas rodas de carroça — cada uma com seu conjunto de raios, cambotas, chapas e a chamada buzina, uma capa de ferro encaixada no eixo de madeira para que ele não se desgastasse com o atrito. “Antigamente o eixo era de madeira, não era de ferro como vem hoje”, explica Miguel, mostrando uma das rodas mais antigas guardadas na ferraria, onde ainda é possível ver a precisão dos encaixes feitos inteiramente à mão.

A marcenaria ao lado: onde a madeira completava o que o ferro começava

Na marcenaria ao lado da ferraria, Nelson, de 73 anos, transforma madeira em peças que o ferro de Miguel vai completar — uma parceria de décadas entre dois irmãos e dois ofícios. Imagem: Reprodução/Vale Agrícola

Ao lado da ferraria, a marcenaria de Nelson completava o ciclo de produção. Os dois ofícios sempre andaram juntos: o ferro fornecia os componentes metálicos, e a madeira dava forma às estruturas maiores. Uma carroça completa, por exemplo, exigia o trabalho das duas oficinas — e levava mais de um mês para ficar pronta, do primeiro corte de madeira até a instalação das rodas forjadas pelo irmão.

Na marcenaria, Nelson mostra como os furos nas massas de carroça eram abertos com brocas manuais e ajustados com martelo para garantir o encaixe perfeito. Nada era feito no improviso — cada peça precisava se encaixar com exatidão, porque qualquer folga comprometia toda a estrutura da roda em movimento.

Além do trabalho com carroças, os dois irmãos também se dedicavam à roça. Tinham junta de boi, cavalo de trabalho e participavam de mutirões coletivos. “Quando chovia e a gente não tinha outro trabalho, a gente fazia isso”, conta Nelson, descrevendo as tardes em que vizinhos se reuniam para debulhar milho e descascar frutas com máquinas manuais de engrenagem — algumas delas ainda guardadas na marcenaria, como um descascador de frutas com mais de 70 anos que ainda funciona perfeitamente.

Nesse sentido, o trabalho manual era, antes de tudo, um meio de sobrevivência. “Era uma mistura de atividade na roça e na ferrinha, porque era um meio de sobreviver”, resume Nelson. Ao todo, a família Bordinhon tinha nove irmãos — mas somente Miguel e Nelson herdaram o ofício do pai. Em 1986, após o falecimento dele, os dois assumiram juntos o negócio e seguiram lado a lado, cada um no seu espaço, cada um com sua especialidade, mas sempre um completando o trabalho do outro.

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Quase 90 anos e ainda de olho na bigorna: a missão de não deixar o ofício morrer

Hoje, com uma lesão no pé que dificulta o deslocamento, Miguel já não consegue trabalhar diariamente na ferraria. Porém, não fica longe por muito tempo. “Às vezes eu deixo ele por lá se entreter um pouquinho, fazendo alguma coisinha — mas tem que dar uma olhada”, conta Nelson, descrevendo com carinho a vigilância que mantém sobre o irmão mais velho. Para Miguel, passar pela ferraria não é apenas hábito — é compromisso. “A gente tem compromisso com ele”, diz Nelson, referindo-se ao espaço como se fosse um ser vivo que precisa de atenção e cuidado.

Por outro lado, Nelson também não parou no tempo. Hoje conta com um espaço renovado, com equipamentos mais modernos que facilitam o dia a dia. Além disso, dedica parte do tempo à restauração de móveis e utensílios antigos — uma das primeiras furadeiras manuais já encontradas na região, com engrenagens e mandril à mostra, é um dos tesouros que guarda com orgulho na marcenaria.

Para os irmãos Bordinhon, preservar essas tradições é mais do que um trabalho. É uma missão. Eles compartilham não apenas técnicas, mas valores e memórias de uma época em que tudo era feito com paciência, capricho e tempo. “A vida parecia que era melhor. A gente se divertia mais. Era um pouco sofrida, mas era uma vida boa — a gente tinha mais vizinho, tinha mais criança para se divertir”, reflete Nelson, comparando o ritmo de outrora com o mundo de hoje. “Hoje o pessoal só corre atrás. Na época, você trabalhava, mas tinha tempo para outras coisas.”

Em um mundo cada vez mais rápido e tecnológico, a ferraria e a marcenaria de Vila Lângaro resistem como um lembrete vivo de que há valor no que é feito devagar, com as mãos, e que algumas tradições só existem porque alguém, em algum momento, decidiu não deixá-las morrer.

Será que, quando Miguel e Nelson não estiverem mais por aqui, ainda haverá alguém disposto a acender o fogo na bigorna e continuar esse ofício — ou essa chama vai se apagar junto com a geração que a manteve viva?

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Felipe Alves da Silva

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

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