6 min de leitura
Motoboy rodava oito horas por dia e estudava três antes de sair para trabalhar, e na quinta tentativa passou em medicina na estadual do Ceará
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 31/07/2026 às 13:33
Atualizado em 31/07/2026 às 13:43
Curiosidades
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Victor Emanoel Rocha Silva fazia corridas de moto por aplicativo em Fortaleza, oito horas por dia, e estudava três horas na biblioteca do cursinho antes de começar o turno. Em março de 2025, o motoboy foi aprovado em medicina na Uece, campus de Crateús. Era o sonho dos pais dele.
A rotina cabia em um bloco de horas rígido. Aula de cursinho pela manhã, três horas de estudo na biblioteca logo em seguida e, então, oito horas de corridas de moto pelas ruas de Fortaleza. Foi assim que Victor Emanoel Rocha Silva, que trabalhava como motoboy de aplicativo de transporte, chegou à aprovação em medicina na Universidade Estadual do Ceará, no campus de Crateús, aos 24 anos, conforme reportagem de Beatriz Rabelo publicada pelo Diário do Nordeste em 25 de março de 2025 e matérias do O POVO e do GCMais na semana anterior.
Ele é o primeiro da família a entrar no curso. O pai estudou até a quinta série e vende mercadorias como ambulante, e a mãe trabalha em feira. Com a aprovação, Victor precisou se mudar de Fortaleza para Crateús, no interior do estado, a mais de 350 quilômetros de casa, e organizou uma vaquinha para bancar os custos da mudança.
Qual era exatamente o trabalho dele
Vale esclarecer a função, porque o rótulo comum engana. Victor não fazia entregas de encomendas. Ele fazia corridas de moto por aplicativos de transporte de passageiros em Fortaleza, o que na cidade se chama popularmente de moto de aplicativo ou motouber. É trabalho de plataforma, sem vínculo, sem jornada fixa e com remuneração por corrida.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Essa condição tem um lado que ele mesmo apontou como decisivo. A flexibilidade permitiu encaixar o trabalho na rotina de estudo, e não o contrário. Como rendia melhor pela manhã, reservou esse período para os livros e empurrou as corridas para tarde e noite. Nos fins de semana, esticava a jornada e chegava a rodar até 12 horas, virando o dia em alguns casos.
Três horas de estudo antes de ligar a moto
A parte mais difícil, segundo o relato dele, não foi o conteúdo, foi o tempo. Precisava dominar a prova, resolver todas as edições anteriores e ainda aprender as matérias, tudo dentro de um número de horas que não dava para esticar. A saída foi ser cirúrgico na escolha do que estudar.
O bloco fixo de três horas diárias na biblioteca do cursinho, sempre antes de começar a trabalhar, foi o eixo de tudo. Era o único horário que não dependia de demanda de corrida, de trânsito nem de imprevisto. Entre 2020 e 2024, ele cursou preparatório em cursinho particular com bolsa integral, o que resolveu o custo mas não resolveu a agenda.
O risco que vinha junto do trabalho
Existe um custo desse tipo de emprego que raramente aparece nas histórias de superação, e Victor foi direto ao falar dele. Sofreu assalto e tentativa de assalto, e no começo de 2024 se envolveu em um acidente de moto.
O raciocínio que ele apresenta sobre o assunto é frio e revelador. Quem roda de moto por aplicativo circula por todos os bairros, inclusive os mais perigosos, e a exposição faz parte do serviço. Ele resume que não entraria nesse risco se não enxergasse uma saída no fim do percurso. É a lógica de quem calcula perigo real contra chance de mudança de vida, e não a de quem vive uma aventura motivacional.
Quantas tentativas foram, afinal
Aqui há divergência entre os veículos que cobriram o caso, e o leitor merece saber. O Diário do Nordeste registra cinco tentativas, ou cinco anos tentando, conforme o trecho. Já o O POVO e o GCMais falam em quatro anos de tentativas.
A diferença provavelmente vem da forma de contar: o período de cursinho vai de 2020 a 2024, o que dá cinco anos letivos, mas quatro anos completos de intervalo. Nenhum veículo informou nota, colocação ou pontuação de Victor no processo seletivo. O que consta em todas as reportagens é que ele integra a quarta turma do curso de medicina da Uece em Crateús, informação sobre a turma da unidade, não sobre a posição dele na lista.
De onde veio a vontade de ser médico
A escolha nasceu dentro de casa, e cedo. O pai é diabético, e a família passava boa parte do tempo em hospital acompanhando o tratamento. Victor também tinha dermatites e era levado com frequência ao Hospital Infantil Albert Sabin, referência pediátrica em Fortaleza.
Crescer circulando por corredor de hospital como acompanhante e como paciente foi o que transformou medicina em objetivo fixo. Ele afirma que nunca se viu em outra profissão, mesmo nos períodos em que a ansiedade e o medo de não conseguir apertavam. Já aprovado, tinha uma área de interesse definida: cirurgia ortopédica.
A família que empurrou a decisão
Victor é filho de uma feirante e de um vendedor ambulante. A mãe concluiu o ensino médio e o pai parou os estudos na quinta série, o que faz dele o primeiro da casa a chegar a um curso de medicina.
Sobre o apoio, a frase dele é curta e não precisa de explicação: diz que o pai acreditou nele contra tudo e contra todos. Quando a aprovação saiu, a família comemorou muito, e ele descreveu o momento como o ponto mais alto de felicidade dos pais. É a inversão de um roteiro comum, em que o sonho profissional é do filho e a família apenas tolera. Aqui o objetivo era compartilhado desde o começo.
A mudança para Crateús e a vaquinha
A aprovação criou um problema prático imediato. O campus fica em Crateús, no sertão dos Crateús, longe de Fortaleza, e mudar de cidade custa dinheiro que uma família de feirante e ambulante não tinha guardado. Victor organizou uma vaquinha para cobrir os custos do deslocamento e da instalação.
Ele chegou à cidade em 21 de março de 2025, e as aulas começaram na quinta-feira seguinte, dia 27. A decisão que talvez mais diga sobre a situação real dele é outra: não pretendia largar o trabalho. Planejava continuar fazendo corridas por aplicativo em Crateús, nos horários livres, para se sustentar durante a graduação. Um curso de medicina é integral e consome praticamente todo o dia útil, o que dá a medida do que ele estava se propondo a fazer.
Onde essa história está hoje
O que dá para afirmar é apenas a aritmética do calendário: quem entrou no primeiro semestre de 2025 em um curso de seis anos estaria, em 2026, cursando o segundo ano da graduação. Qualquer coisa além disso precisaria de apuração nova, e por isso este texto trata o caso como o que ele é, o retrato de um momento específico de uma trajetória que continua em andamento.
E você, conhece alguém que estudou trabalhando o dia inteiro e conseguiu passar? Conta aqui nos comentários como foi essa rotina, e diga também se acha que o país oferece condições reais para quem precisa trabalhar enquanto se prepara para o vestibular.
Tags
MOTOBOY
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

