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Mulher que sonhava ser médica desde menina, acabou seguindo carreira na Matemática; após décadas, Ivy não desistiu, retomou os estudos e, aos 47 anos, conquistou uma vaga em Medicina na UECE após quatro anos de preparação e nove reprovações
Escrito por Ruth Rodrigues
Publicado em 31/07/2026 às 11:03
Atualizado em 31/07/2026 às 11:04
Curiosidades
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Medicina era o sonho de infância de Ivy, que enfrentou nove negativas, ansiedade e luto até conquistar uma vaga na Uece.
Depois de quatro anos de preparação, nove resultados negativos e uma vida atravessada por maternidade, mudanças internacionais e luto, a professora e bacharel em Matemática Ivy Girão iniciou o curso de medicina no Campus Crateús da Universidade Estadual do Ceará, a cerca de 350 quilômetros de Fortaleza.
Mãe de dois filhos e formada há 22 anos pela Universidade Federal do Ceará, ela conquistou a vaga ao retomar um sonho de infância que havia sido adiado repetidamente pelas responsabilidades e mudanças de sua trajetória. A aprovação ultrapassou o significado de uma conquista individual.
Após a divulgação do resultado nas páginas dos dois cursos preparatórios dos quais participou, Ivy começou a receber mensagens de profissionais que também guardavam o desejo de mudar de carreira, incluindo uma arquiteta e uma enfermeira com 12 anos de profissão que ainda pensava em estudar medicina.
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Para a nova universitária, cada relato mostrou que sua vitória também passou a representar mães, donas de casa e pessoas convencidas de que o tempo para recomeçar já havia acabado.
Aprovação em medicina virou incentivo para outras mulheres
A repercussão surpreendeu Ivy porque muitas mensagens não tratavam apenas do vestibular. As pessoas contavam histórias de sonhos interrompidos, carreiras construídas em outras áreas e desejos que continuavam presentes mesmo depois de anos dedicados à família, ao trabalho ou à sobrevivência.
Ao perceber essa identificação, a professora passou a enxergar a entrada em medicina como uma possibilidade de encorajar mudanças que não precisam estar ligadas necessariamente ao ensino superior.
“Cada pessoa que se sentir motivada e tocada de alguma forma, mesmo que não seja para a Medicina, pela minha história, já vai ser um negócio fenomenal”, afirmou.
A conquista chegou depois de um percurso composto por decisões e acontecimentos que alteraram seus planos em diferentes momentos:
- formação em Matemática pela Universidade Federal do Ceará;
- mestrado realizado na mesma área;
- mudanças para os Estados Unidos e para a Austrália;
- nascimento dos filhos Murilo e Álvaro;
- retorno ao Brasil para acompanhar o tratamento do marido;
- abandono de um projeto de doutorado no exterior;
- retomada dos estudos para vestibulares em 2019;
- nova preparação iniciada em 2022;
- quatro anos de dedicação até a aprovação na Uece.
Essas etapas não formaram uma trajetória linear. Em vários momentos, Ivy encontrou oportunidades acadêmicas e familiares que a levaram por caminhos diferentes, embora a vontade de exercer a medicina permanecesse como uma ideia recorrente desde a infância.
Medicina reapareceu quando Ivy precisou imaginar o futuro
A decisão de disputar uma vaga ganhou força durante o processo de reconstrução após a morte do marido, o matemático Darlan Girão. Durante anos, a professora havia imaginado que os dois envelheceriam juntos perto do mar, talvez em Fortim ou Aracati, acompanhando o pôr do sol de mãos dadas.
Com a perda, o futuro deixou de ter o formato que ela havia planejado. Ivy precisou descobrir quem era sem o companheiro e encontrar uma razão que a ajudasse a olhar além das necessidades imediatas. Durante quatro anos, sua rotina foi guiada pela ideia de enfrentar apenas um dia por vez, sem tentar organizar planos muito distantes.
Depois da fase mais intensa da pandemia, em 2022, ela sentiu que poderia começar a projetar novamente os próximos anos. Buscar uma nova carreira tornou-se uma maneira de reconstruir a própria identidade e tornar o envelhecimento menos assustador, pois a formação oferecia um objetivo capaz de conectá-la a uma vida ainda em desenvolvimento.
Uma reflexão do filósofo Mario Sergio Cortella teve papel importante nessa decisão. A frase propunha olhar para a pessoa que a criança de cada um sonhou em se tornar e avaliar a distância existente entre aquele desejo e a vida adulta. Ivy percebeu que sua resposta continuava sendo a mesma: desde menina, queria ser médica.
Caminho até a medicina exigiu enfrentar TDAH e ansiedade
A preparação começou em casa, com videoaulas, e avançou quando Ivy conquistou uma bolsa em um curso pré-vestibular. Ela realizou o Exame Nacional do Ensino Médio três vezes e alternou períodos de confiança com momentos em que questionava a própria capacidade.
O desafio não estava somente na quantidade de conteúdos exigidos. Diagnosticada com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, ela precisava administrar as dificuldades de concentração durante provas extensas, além da ansiedade provocada pelo controle do tempo.
Ivy relatou que conseguia permanecer focada por aproximadamente duas horas, mas começava a se preocupar excessivamente com o relógio durante as cinco horas de aplicação do Enem. A sensação de não conseguir demonstrar tudo o que sabia alimentava um pensamento recorrente de que poderia ser uma fraude, apesar da formação acadêmica e dos anos dedicados à Matemática.
O vestibular da Uece apresentava uma dinâmica diferente, com questões mais direcionadas ao domínio de conteúdos e à resolução prática. Ao reconhecer que esse formato se ajustava melhor à maneira como conseguia trabalhar sob pressão, Ivy concentrou parte maior de seus esforços no processo seletivo estadual.
Última prova de medicina coincidiu com novo problema familiar
A edição decisiva ocorreu em um período de forte tensão dentro de casa. Após terminar o Enem de 2025, Ivy voltou a atenção para a família e percebeu que sua mãe apresentava sinais de demência, iniciando uma busca por avaliações que esclarecessem o quadro.
As preocupações se acumularam às vésperas do vestibular da Uece. Com a mente voltada para a saúde materna, a professora chegou a questionar o motivo de insistir na prova naquele momento, quando outros assuntos pareciam mais urgentes e emocionalmente desgastantes.
Foi um dos filhos que ofereceu uma orientação simples: durante três horas, ela poderia usar o exame como uma pausa dos problemas e tentar aproveitar a experiência. O conselho retirou parte do peso associado à obrigação de passar e abriu espaço para que Ivy respondesse às questões sem a mesma autocobrança.
Naquele dia, a versão ansiosa e desconfiada de si mesma perdeu força. Ao fazer a prova com maior liberdade, ela conseguiu entregar o que sabia e alcançou o resultado perseguido durante anos.
Nome na lista precisou ser conferido três vezes
Mesmo depois de tanta preparação, Ivy teve dificuldade para acreditar quando encontrou o próprio nome entre os aprovados. Ela fechou a página e tornou a abri-la três vezes, procurando algum erro que pudesse desfazer o resultado.
Quando teve certeza de que a vaga era realmente sua, viveu cerca de cinco minutos de euforia. Chorou, riu, gritou e pulou enquanto processava o fim de uma sequência de nove negativas e o início de uma formação desejada desde criança.
A reação representava mais do que o alívio por ter vencido um vestibular concorrido. Para Ivy, era como se a menina que havia sonhado com a medicina finalmente pudesse se manifestar depois de décadas em que outras decisões, necessidades e perdas ocuparam o primeiro plano.
A graduação começava, no entanto, acompanhada de novas renúncias. Estudar em Crateús significa viver distante de Fortaleza e, pela primeira vez, não estar diariamente ao lado dos filhos. Também reduz sua presença junto aos pais em um momento delicado para a saúde da mãe.
Medicina exigirá nova organização familiar
Filha única, Ivy sabe que o deslocamento para outra cidade modifica sua participação nos cuidados familiares. Ela passou a preparar o pai para lidar com as necessidades da esposa e começou a organizar a contratação de alguém que possa morar com eles e oferecer suporte.
A distância dos filhos também desperta insegurança. Quando o mais novo voltar para casa com dúvidas escolares, a mãe não estará no mesmo ambiente para ajudá-lo imediatamente, uma mudança difícil depois de anos em que maternidade e rotina doméstica caminharam juntas.
Ainda assim, Ivy rejeita a ideia de esperar pelo surgimento de condições ideais. Sua experiência mostrou que decisões importantes quase nunca acontecem em cenários livres de conflitos, responsabilidades ou receios. O objetivo passou a ser avançar apesar dessas limitações, e não aguardar que todas elas desapareçam.
“Não existe um cenário em que tudo seja perfeito. Pelo menos na minha vida, isso nunca aconteceu. Eu vou com medo, mas vou”, declarou.
A frase resume uma aprovação construída sem que os problemas familiares, a ansiedade ou as dúvidas estivessem totalmente resolvidos.
Matemática apresentou a Ivy o amor e uma vida no exterior
Embora a medicina fosse o desejo inicial, a primeira graduação de Ivy foi em Matemática na UFC. No Departamento de Matemática do Centro de Ciências, no Campus do Pici, ela encontrou uma formação acadêmica e também conheceu Darlan, então colega de curso.
A proximidade começou como amizade, transformou-se em namoro e, posteriormente, em casamento. Os dois concluíram a graduação em 2004, avançaram para o mestrado na mesma área e construíram uma família com a chegada de Murilo e Álvaro.
A parceria acadêmica levou o casal ao Texas, nos Estados Unidos, onde Darlan realizou o doutorado em Austin em 2011. Eles retornaram ao Brasil no ano seguinte, e a proximidade com familiares e amigos reacendeu em Ivy o desejo de mudar para a área da saúde.
O projeto foi novamente postergado quando surgiu a possibilidade de realizar um doutorado sanduíche em Matemática, começando no Brasil e seguindo para a Austrália. A pós-graduação poderia abrir mais oportunidades internacionais, enquanto o exercício da medicina em outro país dependeria de processos complexos de validação profissional.
Diagnóstico do marido interrompeu planos na Austrália
Na Oceania, Ivy conseguiu emprego e viu a vida familiar começar a se estabilizar. Esse cenário mudou quando Darlan recebeu o diagnóstico de um câncer raro e uma estimativa inicial de apenas três meses de vida.
A família decidiu voltar ao Brasil em 2017 para que ele pudesse realizar um tratamento com imunoterapia. Entre o diagnóstico e a morte, passaram-se exatamente 12 meses, período marcado por idas frequentes ao hospital, cuidados intensos e convivência próxima com pessoas que ofereceram apoio.
Ivy recorda aquele ano como um tempo de sentimentos aparentemente contraditórios. Embora soubessem da gravidade da doença, a casa permanecia cheia de amigos e a família recebia demonstrações constantes de carinho. A tristeza pelo que se aproximava coexistia com a alegria de se sentir amada e acompanhada.
A convivência com médicos durante o tratamento também fortaleceu sua admiração pela profissão. Ao observar os especialistas que cuidavam de Darlan, Ivy pensava que desejava exercer a medicina com a mesma capacidade de acolher e impactar pacientes atravessando momentos de extrema fragilidade.
Luto encerrou doutorado
Depois da morte do marido, a orientadora responsável pelo doutorado na Austrália informou que a vaga continuaria disponível quando Ivy se sentisse pronta para retornar. A proposta, porém, exigiria mudar novamente de país, dessa vez sozinha e responsável por dois filhos.
Ela decidiu abandonar o projeto e permaneceu no Brasil. A renúncia encerrou uma trajetória acadêmica na Matemática que poderia levá-la de volta ao exterior, mas também criou o momento em que a medicina deixou de ser apenas um desejo antigo e passou a ocupar o centro dos planos.
A primeira tentativa de retomada aconteceu em 2019, quando o luto ainda estava muito recente. Ivy iniciou o movimento, mas percebeu que ainda não possuía condições emocionais para sustentar uma preparação tão exigente.
Somente em 2022 ela conseguiu reiniciar o processo com maior consistência. A partir dali, foram quatro anos de estudos intensos, provas, resultados negativos e novas tentativas, até a confirmação da vaga no Campus Crateús.
Medicina deixa de ser carreira e vira plano de vida
Ivy ainda não definiu a trajetória profissional em especialidades, cargos ou ganhos futuros. Seu objetivo está ligado principalmente à forma como pretende se relacionar com as pessoas que encontrar durante a formação e o exercício da profissão.
“Hoje, penso em como praticar uma medicina que faça a diferença na vida de quem quer que vá cruzar o meu caminho ou que o meu caminho vá cruzar”, afirmou.
Para ela, a graduação não representa somente uma troca de atividade, mas a construção de um propósito capaz de reunir as experiências acumuladas como professora, mãe, viúva e cuidadora.
Aos poucos, os anos dedicados à Matemática, as mudanças de país, o acompanhamento do tratamento de Darlan e a própria reconstrução emocional passam a integrar a médica que Ivy pretende se tornar. Nada disso é descartado com o início da nova graduação; ao contrário, cada experiência amplia sua compreensão sobre perda, medo, cuidado e recomeço.
Depois de nove respostas negativas, ela chegou à medicina sem esperar que a vida estivesse completamente organizada. Ivy precisou mudar de cidade, confiar mais nos próprios conhecimentos e aceitar que a insegurança continuaria presente.
A aprovação na Uece mostra que o medo pode acompanhar uma decisão sem necessariamente impedi-la — e que um sonho adiado por décadas ainda pode se transformar em um novo plano de vida.
Fonte: Diário do Nordeste
Fonte
Diário do Nordeste
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ruth Rodrigues.

