A prática de musculação pode trazer benefícios que vão além do fortalecimento dos músculos. Um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostrou que o treinamento de força foi capaz de alterar o funcionamento de genes no fígado de camundongos obesos, reduzindo danos associados ao acúmulo de gordura no órgão.
A pesquisa, publicada na revista Life Sciences em 1º de janeiro, ajuda a explicar como a musculação pode contribuir para combater a doença hepática esteatótica, conhecida como gordura no fígado, condição frequentemente associada à obesidade e à diabetes tipo 2.
Como o exercício altera o fígado
Os pesquisadores investigaram mudanças na epigenética — área da ciência que estuda como fatores como alimentação, atividade física e ambiente — podem modificar o funcionamento dos genes sem alterar o DNA.
Após oito semanas de musculação, os animais apresentaram alterações na regulação do gene MTCH2, envolvido na produção de energia pelas células do fígado.
Segundo os pesquisadores, na obesidade o excesso de gordura provoca inflamação, prejudica o funcionamento das mitocôndrias, responsáveis por produzir energia, e dificulta a regeneração do órgão. Esse ambiente favorece alterações na atividade do MTCH2 e contribui para a progressão da doença.
Nos animais que fizeram musculação, o cenário foi diferente. O treinamento reduziu a inflamação e melhorou a produção de energia nas células do fígado. Com isso, a produção da proteína ligada ao gene MTCH2 diminuiu, indicando que o órgão deixou de funcionar em um estado permanente de estresse.
Melhora na ação da insulina
O estudo também mostrou que a musculação restaurou a sensibilidade do fígado à insulina. Normalmente, o hormônio sinaliza ao fígado quando deve interromper a liberação de glicose para o sangue. Na obesidade, porém, o órgão pode desenvolver resistência à insulina e continuar liberando açúcar mesmo quando o organismo já possui níveis suficientes, contribuindo para o aumento da glicemia.
Além disso, os pesquisadores observaram redução da atividade de enzimas relacionadas à fibrose, processo de cicatrização que compromete o funcionamento do fígado, e aumento da produção de ATP5, uma proteína importante para a geração de energia nas células.
Segundo a equipe da Unicamp, os resultados ajudam a entender os mecanismos pelos quais a musculação protege o fígado em casos de obesidade.
Embora o estudo tenha sido realizado apenas em animais, os pesquisadores afirmam que compreender essas alterações pode contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias de prevenção e tratamento da doença hepática esteatótica.

