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Nenhum comprador apareceu e a rede que foi uma das maiores do varejo de eletrônicos por mais de 40 anos apagou as luzes de mais de 200 lojas, demitiu 2.335 pessoas e deixou £ 150 milhões de dívida
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 29/07/2026 às 22:06
Atualizado em 29/07/2026 às 22:29
Economia
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Ela nasceu em 1972 vendendo componentes eletrônicos por correspondência para quem montava circuito em casa. Fechou em 17 de junho de 2018, quatro meses depois de entrar em processo formal de insolvência, e a administração judicial continuava aberta anos depois.
A rede britânica Maplin Electronics entrou em administração judicial em 28 de fevereiro de 2018, depois de não conseguir uma venda solvente da operação, e teve a última loja fechada em 17 de junho do mesmo ano, conforme informa a página oficial da administração mantida pela PwC. A empresa empregava 2.335 pessoas no momento da nomeação dos administradores, segundo registro da Eurofound, agência da União Europeia que acompanha reestruturações empresariais.
O prejuízo aos credores foi bem maior que a folha. O colapso deixou cerca de £ 150 milhões devidos, valor que a venda dos ativos dificilmente recuperaria, segundo publicou a consultancy.uk em maio de 2018. A maior perda tendia a ficar com a gestora de participações Rutland Partners, última proprietária da rede.
O que a Maplin era de verdade
Antes de falar do fim, vale corrigir a ideia do que a empresa foi, porque isso costuma ser inflado.
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A Maplin nasceu em 1972 como um negócio de venda por correspondência que fornecia componentes eletrônicos a hobistas, segundo a BBC. A primeira loja física foi aberta em 1976, em Westcliff-on-Sea, no condado de Essex.
O público era específico. A rede atendia desde comprador comum até quem trabalhava com eletrônica ou tratava o assunto como passatempo, vendendo componentes, cabos, ferramentas, computadores e equipamentos para uso doméstico.
O porte também tinha limite claro. Segundo a consultancy.uk, a empresa faturava £ 235,8 milhões por ano e operava mais de 217 lojas no Reino Unido e na Irlanda, com escritórios centrais em Londres e em Rotherham. A BBC a descreveu como uma das maiores varejistas de eletrônicos do país, o que não é o mesmo que dominar o mercado.
Os três motivos que o próprio presidente citou
As causas do colapso não são especulação: elas foram enumeradas pelo executivo que comandava a empresa no dia do anúncio.
Segundo declaração publicada pela ICAEW Economia em fevereiro de 2018, o presidente da Maplin, Graham Harris, apontou três fatores: a desvalorização da libra depois do Brexit, um ambiente de consumo fraco e a retirada do seguro de crédito.
Cada um pesa de uma forma diferente. A libra mais fraca encareceu diretamente a mercadoria importada, que era a base do estoque. O consumo fraco reduziu a receita. E a retirada do seguro de crédito é o golpe menos visível e mais letal.
Vale explicar esse último ponto, porque é técnico. Seguro de crédito é o que protege o fornecedor caso o cliente não pague. Quando a seguradora se retira, o fornecedor passa a exigir pagamento antecipado ou simplesmente para de entregar. Uma varejista sem seguro de crédito perde a capacidade de abastecer as prateleiras, mesmo tendo caixa.
O contexto do setor era o mesmo para todos. Segundo a consultancy.uk, o varejo britânico enfrentava incerteza ligada ao Brexit, estagnação de salários em termos reais e endividamento crescente do consumidor.
Fevereiro de 2018 foi um mês brutal no varejo britânico
O caso não aconteceu isolado, e a sequência de quebras daquele período explica por que ninguém apareceu para comprar.
A Maplin entrou em administração praticamente no mesmo dia em que a Toys R Us anunciou a própria situação no Reino Unido, segundo a consultancy.uk. Foi um único dia com duas grandes redes caindo.
O balanço do trimestre é revelador. Reportagem publicada pelo Daily Record aponta que 21.413 trabalhadores foram demitidos ou tiveram o emprego ameaçado nos três primeiros meses de 2018, considerando fechamentos de lojas, reestruturações e o colapso da Carillion.
Outras redes conhecidas entraram na lista naquele ano, incluindo Mothercare, Poundworld e House of Fraser, segundo a BBC. Quando o setor inteiro está em contração, comprador para uma rede física com contratos de aluguel e estoque parado praticamente não existe.
Os administradores tentaram vender até o fim
O processo não começou como liquidação, e essa distinção importa para entender o desfecho.
A PwC nomeou três administradores conjuntos: Zelf Hussain, Toby Underwood e Ian Green. Segundo declaração de Hussain publicada pela ICAEW Economia, o foco inicial seria justamente procurar interessados em adquirir toda a companhia ou parte dela.
A intenção declarada era evitar demissões e fechamento de lojas. Segundo a consultancy.uk, em março, com a busca por comprador se mostrando mais difícil que o previsto, o fechamento controlado das unidades passou a ser possibilidade concreta.
A estratégia mudou então de venda para conversão. As lojas seguiram abertas para transformar estoque em dinheiro, pagar as despesas do processo e reduzir a perda dos credores, e não porque houvesse recuperação em curso.
Os 141 demitidos dos escritórios em março
A primeira leva de cortes não atingiu as lojas, e sim a estrutura administrativa.
Segundo o registro da Eurofound, em março os administradores demitiram 141 funcionários que trabalhavam nos dois escritórios centrais, em Londres e em Wath upon Dearne, no norte da Inglaterra. A consultancy.uk noticiou naquele mês que mais de 60 cargos seriam cortados, sendo 55 em Londres, o que indica que o número final foi maior que o anunciado inicialmente.
Os demais funcionários permaneceram temporariamente durante a liquidação. Em maio, ainda havia mais de 2 mil pessoas empregadas, segundo a consultancy.uk, aguardando para saber quem seria o próximo.
Há uma informação que os administradores destacaram no início e que raramente aparece nos resumos do caso. Os salários de fevereiro foram pagos, e a empresa se comprometeu a continuar pagando pelo trabalho realizado durante o período de administração, conforme declarou Graham Harris.
A marca voltou, as lojas não
O nome Maplin não desapareceu do comércio, e vale separar o que voltou do que não voltou.
Segundo a InternetRetailing, cerca de um ano depois do fechamento a Maplin foi relançada como varejista exclusivamente on-line, após a marca, o domínio e os perfis em redes sociais serem vendidos a um comprador cuja identidade não foi divulgada na época.
Registros corporativos indicam que a marca foi adquirida em 31 de maio de 2019 por uma nova empresa, a Maplin Online Ltd, posteriormente renomeada como Digital-First Retail Limited, que segue operando sob o nome Maplin e vendendo produtos semelhantes.
A distinção jurídica é essencial e costuma ser mal compreendida. A nova operação não é a recuperação da companhia anterior e não assumiu automaticamente as obrigações dela. Lojas, contratos de aluguel, empregos e dívidas ficaram todos com a empresa liquidada, enquanto a marca seguiu vida própria na internet.
O processo continuou aberto por anos
Um detalhe pouco divulgado mostra que liquidação de rede desse porte não termina quando a última porta fecha.
Segundo a página oficial da PwC, Ian Green mudou de função dentro da firma e renunciou formalmente ao cargo de administrador conjunto, sendo removido por decisão judicial em 5 de dezembro de 2019 e liberado de responsabilidade a partir de 19 de dezembro daquele ano.
O processo seguiu adiante. Ainda segundo a mesma página, Jane Steer substituiu Toby Underwood como administradora conjunta com efeito a partir de 30 de novembro de 2021, mais de três anos depois do fechamento da última loja.
Isso significa que a apuração de ativos, a distribuição aos credores e a resolução de pendências se estenderam por anos após o encerramento da operação física, o que é a norma em insolvência de grande porte, e não exceção.
O que fica dessa história
Uma empresa nascida em 1972 vendendo componente por correspondência, uma primeira loja em 1976 no litoral de Essex, £ 235,8 milhões de faturamento anual, três motivos declarados pelo próprio presidente, 2.335 empregos, £ 150 milhões devidos a credores e uma marca que hoje existe só como endereço na internet. O caso da Maplin mostra o que acontece quando uma rede especializada perde ao mesmo tempo o câmbio, o consumidor e o crédito dos fornecedores.
E você, o que acha? Rede física especializada em nicho técnico ainda tem espaço, ou o comércio eletrônico tornou esse modelo inviável em qualquer país? Você acha correto uma marca ser vendida e relançada sem herdar nenhuma das dívidas nem dos empregos da empresa original? E mais: aqui no Brasil, quantas lojas de componentes eletrônicos sobraram na sua cidade em relação a dez anos atrás? Comente sua opinião, principalmente se você trabalha ou trabalhou no varejo e viu de perto o efeito da migração para o on-line.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

