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Ninguém imaginava que o maior patrimônio das usinas de cana estivesse escondido fora das máquinas, mas a inteligência artificial está revelando uma revolução que pode redefinir o futuro do etanol brasileiro

Ninguém imaginava que o maior patrimônio das usinas de cana estivesse escondido fora das máquinas, mas a inteligência artificial está revelando uma revolução que pode redefinir o futuro do etanol brasileiro

5 min de leitura

Ninguém imaginava que o maior patrimônio das usinas de cana estivesse escondido fora das máquinas, mas a inteligência artificial está revelando uma revolução que pode redefinir o futuro do etanol brasileiro

Escrito por Caio Aviz

Publicado em 24/07/2026 às 14:50

Atualizado em 24/07/2026 às 14:51

Agronegócio

Vista aérea de uma usina de cana-de-açúcar ilustra a integração entre produção de etanol, gestão de dados, conhecimento humano e inteligência artificial como fatores de competitividade no setor sucroenergético.

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Tecnologia poderá preservar o conhecimento profissional, integrar informações e elevar a eficiência agrícola, industrial, logística, comercial e financeira das usinas brasileiras

A próxima grande transformação das usinas produtoras de etanol poderá ser impulsionada menos pelos equipamentos e mais pela capacidade de preservar conhecimento, organizar dados e tomar decisões estratégicas com apoio da inteligência artificial. Esse movimento já começa a ganhar espaço no setor sucroenergético brasileiro e tende a influenciar a competitividade das empresas nas próximas décadas.

Durante muitos anos, terras, canaviais, indústria e capacidade produtiva foram considerados os principais patrimônios das usinas. Entretanto, embora esses ativos continuem fundamentais, um novo diferencial competitivo começa a ganhar protagonismo.

Agora, a inteligência artificial aplicada às usinas de cana desponta como ferramenta capaz de transformar experiências acumuladas em conhecimento acessível para toda a organização. Dessa forma, o patrimônio intelectual passa a ter valor estratégico equivalente ao patrimônio físico.

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As reflexões foram apresentadas por Cíntia Cristina Ticianeli, economista formada pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em Engenharia de Produção pela POLI-USP PRO e executiva do setor sucroenergético, em artigo publicado pela Forbes Brasil, em julho de 2026. Paralelamente, iniciativas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) também vêm demonstrando a crescente importância da agricultura digital, da inteligência artificial e da gestão de dados no agronegócio.

Experiência humana continua sendo o maior patrimônio das usinas

Antes de tudo, a inteligência artificial não surge para substituir profissionais. Pelo contrário, sua principal contribuição poderá ser ampliar o valor da experiência acumulada ao longo de décadas.

Nas usinas brasileiras existe um conhecimento construído diariamente por operadores, técnicos, supervisores, gestores e executivos.

Por exemplo, operadores conseguem identificar pequenas alterações no funcionamento de equipamentos antes mesmo que sensores emitam alertas.

Da mesma forma, supervisores agrícolas reconhecem sinais de deficiência nutricional, estresse hídrico e início de infestações durante simples caminhadas pelos canaviais.

Além disso, gestores industriais identificam mudanças discretas na fermentação capazes de comprometer o rendimento da produção.

Enquanto isso, profissionais com longa experiência conseguem antecipar tendências comerciais, econômicas e regulatórias que dificilmente seriam percebidas apenas por análises históricas.

Inteligência artificial ajuda a preservar décadas de conhecimento

Historicamente, grande parte desse conhecimento permaneceu concentrada na memória de profissionais altamente especializados.

Consequentemente, aposentadorias, sucessões e renovação das equipes sempre representaram um desafio silencioso para as empresas.

Nesse cenário, a inteligência artificial poderá capturar padrões, organizar informações, integrar conhecimentos e apoiar decisões estratégicas.

Assim, parte da experiência deixará de existir apenas na memória das pessoas e passará a integrar o patrimônio intelectual das organizações.

Nova revolução acontece nas decisões e não apenas nas máquinas

Ao longo das últimas décadas, o setor sucroenergético incorporou mecanização agrícola, automação industrial, GPS, equipamentos embarcados e agricultura de precisão.

Agora, entretanto, inicia-se uma nova etapa.

Desta vez, a revolução não acontece exclusivamente nas máquinas.

Ela ocorre, sobretudo, na qualidade das decisões.

Diariamente, as usinas produzem milhões de informações relacionadas ao clima, solo, variedades, produtividade, ATR, maturação, consumo de insumos, manutenção, logística, estoques, preços, custos e indicadores financeiros.

Nesse contexto, a inteligência artificial consegue analisar essas informações simultaneamente, identificando relações que dificilmente seriam percebidas de forma isolada.

Aplicações já alcançam agricultura, indústria, logística e gestão

Na agricultura, essa tecnologia poderá prever produtividade, identificar falhas de plantio, antecipar déficits hídricos, reconhecer pragas e recomendar o melhor momento para a colheita.

Na indústria, será possível acompanhar equipamentos em tempo real, prever falhas, otimizar processos de fermentação, reduzir perdas e aumentar a eficiência energética.

Na logística, a inteligência artificial permitirá reorganizar rotas, diminuir tempos de espera e sincronizar colheita, transporte e moagem.

Já na gestão comercial e financeira, poderão ser construídos cenários mais consistentes envolvendo preços do açúcar, etanol, petróleo, câmbio, custos logísticos, riscos regulatórios e comportamento dos mercados.

Organização dos dados será o verdadeiro desafio

Entretanto, o maior obstáculo dessa transformação provavelmente não será tecnológico.

Na realidade, será cultural.

Hoje, milhões de dados já são produzidos diariamente pelas usinas.

Contudo, boa parte dessas informações permanece distribuída entre sistemas que não se comunicam, planilhas, sensores, bancos de dados e relatórios acumulados ao longo de décadas.

Por isso, antes de ampliar investimentos em inteligência artificial, será necessário fortalecer a governança de dados, a padronização das informações, a integração entre sistemas, a rastreabilidade, a segurança cibernética e a qualidade dos registros.

Nenhum algoritmo consegue compensar dados desorganizados.

Por outro lado, empresas que estruturarem corretamente suas informações poderão obter ganhos significativos de eficiência.

Dados passam a ser ativos estratégicos do setor sucroenergético

Assim como o bagaço da cana deixou de ser apenas um resíduo e passou a gerar bioeletricidade, os dados também vivem uma transformação semelhante.

Durante muitos anos, serviram apenas como registros operacionais.

Agora, passam a produzir inteligência e apoiar decisões estratégicas.

Mesmo assim, a experiência humana continuará sendo insubstituível.

Nenhum algoritmo conhece, sozinho, todas as particularidades de uma variedade cultivada em determinado solo, submetida a condições climáticas específicas e processada em uma indústria com características próprias.

Por isso, interpretar contextos, compreender exceções, avaliar riscos e definir estratégias continuará sendo responsabilidade das pessoas.

Conhecimento será o diferencial competitivo das próximas décadas

Ao preservar, organizar e compartilhar o conhecimento acumulado, as usinas fortalecem sua capacidade de inovação, formam novas lideranças e garantem continuidade operacional.

O setor sucroenergético brasileiro construiu uma trajetória marcada pela adaptação tecnológica e pela busca permanente por eficiência.

Agora, inicia uma nova fase.

A competitividade das usinas será medida não apenas pelos equipamentos instalados ou pela capacidade produtiva, mas principalmente pela capacidade de transformar experiência em conhecimento, conhecimento em inteligência e inteligência em decisões mais eficientes.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

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