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No ensaio de formatura em Odontologia, um jovem tirou o capelo, colocou na cabeça do pai e vestiu o chapéu de palha que ele usa vendendo adesivos por 218 cidades para pagar a faculdade dos filhos
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 28/07/2026 às 14:33
Atualizado em 28/07/2026 às 14:39
Curiosidades
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Ele ainda bordou na manga do jaleco o carrinho de lanches e o colete de vendas do pai, com um versículo bíblico embaixo. Como não existiam fotos do carrinho, precisou recorrer à inteligência artificial para reconstruir a imagem. O pai chorou pela primeira vez diante dele.
Raimundo Matheus Camelo tinha 24 anos e nunca havia visto o pai chorar. Isso mudou em 17 de julho de 2025, durante o ensaio de formatura do curso de Odontologia, quando o jovem tirou o capelo da própria cabeça, colocou no pai e vestiu o chapéu de palha que Francisco André Camelo usa todos os dias para vender adesivos pelo interior do Nordeste, segundo reportagem de Paloma Vargas publicada pelo Diário do Nordeste.
Conhecido como Francisco da Merenda, o pai tinha 53 anos e já havia percorrido 218 municípios em sete estados nordestinos vendendo adesivos de porta em porta. O objetivo declarado era um só: ver os cinco filhos formados. Matheus foi o quarto a chegar lá.
A troca de chapéus que ninguém tinha combinado
A homenagem aconteceu no momento das fotos tradicionais de formatura, e pegou o pai completamente desprevenido.
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Francisco já havia acompanhado a formatura de outros filhos e conhecia o roteiro. Segundo ele, os meninos sempre surpreendem quando estão encerrando os cursos, mas nada o preparou para o que Matheus fez naquele dia.
O gesto tem uma simbologia direta e sem floreio. O capelo representa o diploma que o filho conquistou, e o chapéu de palha representa o trabalho que pagou por ele. Ao trocarem de lugar, os dois deixaram explícito quem carregou quem.
Sobre o instante da troca, o pai não conseguiu descrever com precisão o que sentiu. Ele disse que precisaria procurar palavras e que não tinha nenhuma à disposição para explicar a emoção.
O bordado no jaleco e a imagem que não existia
A ideia da homenagem não nasceu no dia. Ela vinha sendo elaborada desde maio de 2025, quando o jovem começou a preparar o trabalho de conclusão de curso.
Matheus decidiu incluir nos agradecimentos uma imagem do carrinho de lanches com que os pais sustentaram a família por anos. O problema é que o carrinho não existe mais e não havia nenhuma fotografia dele guardada em casa.
A solução veio pela tecnologia. O jovem recorreu à inteligência artificial para gerar uma imagem que se aproximasse ao máximo do carrinho original, e usou o resultado no corpo do trabalho e na apresentação.
Houve, porém, um problema de agenda. No dia da apresentação do trabalho de conclusão, Francisco estava viajando pela Paraíba a trabalho e não viu nada. Foi aí que surgiu a segunda ideia: levar a mesma imagem para a manga do jaleco, bordada ao lado do colete e do catálogo de adesivos, com a citação do livro de Êxodo, capítulo 20, versículo 12, que trata de honrar pai e mãe.
Quem é Francisco da Merenda
O apelido conta a primeira metade da história. Antes dos adesivos, Francisco e a esposa Lucivânia sustentavam a casa vendendo lanches em um carrinho, e foi dali que veio o nome que ele usa até hoje, inclusive nas redes sociais onde registra as viagens.
Natural de Santa Quitéria, no interior do Ceará, ele sempre trabalhou como vendedor ambulante. A mudança de ramo aconteceu na pandemia, quando decidiu trocar os lanches pelos adesivos e passou a rodar cidades do Nordeste vendendo de município em município.
O mapa que ele monta tem nome próprio. Ele chama a rota de busca de sonhos, e até julho de 2025 já havia riscado 218 municípios em sete estados. Faltavam apenas Sergipe e Alagoas para completar o Nordeste inteiro.
A conta dos adesivos
Os números do negócio são modestos e ajudam a dimensionar o esforço por trás de quatro diplomas.
Os adesivos são vendidos a R$ 2 a unidade, ou três por R$ 5. Em dias bons, Francisco chega a vender mais de 250 unidades.
Fazendo a conta bruta, um dia bom rende algo entre R$ 400 e R$ 500, antes de descontar passagem de ônibus, hospedagem, alimentação e a reposição do próprio catálogo. Não é um dia bom por semana: é o teto de um dia bom, e nem todo dia é bom.
As viagens seguem a lógica do estoque. Cada saída dura até o catálogo acabar, o que pode levar até três meses. Depois de terminado o ensaio de formatura, em 21 de julho de 2025, ele já embarcava em um ônibus rumo a Pereiro, também no Ceará, sem prazo definido de retorno.
O que custa ficar três meses fora
A parte menos fotogênica dessa história aparece quando Francisco fala do que a estrada cobra dele. Ele mesmo chama de feridinha no coração.
O episódio que ele escolheu contar envolve a neta. Durante uma das viagens, ela ligou para avisar que no aniversário de dez anos dela só faltava o avô. Segundo o próprio relato, isso doeu muito.
Do outro lado, os filhos entendem o motivo da ausência, mesmo sentindo falta. Matheus afirma que a saudade sempre foi grande, mas que todos compreendem o propósito por trás das viagens.
É esse acúmulo de dias perdidos que o gesto do capelo tentou reconhecer. Não é apenas a mensalidade que foi paga com aqueles adesivos: são três meses de ausência por vez, repetidos ao longo de anos.
Cinco filhos, quatro diplomas e um em andamento
O balanço da família até aquele momento era o seguinte. Carlos, o mais velho, tinha 32 anos e é jornalista. Giordano, de 30, é técnico em segurança do trabalho. Francisco Júnior, de 27, formou-se dentista, mesma profissão de Matheus.
A caçula ainda estava em curso. Antonia Vitória, de 20 anos, cursava Medicina Veterinária, e é por causa dela que Francisco voltou para a estrada logo depois do ensaio de formatura do irmão.
Existe um detalhe estrutural nessa trajetória que vale destacar, porque explica por que o pai precisou rodar tanto. Todos os cinco estudaram em escola pública na educação básica, mas na hora do ensino técnico ou superior precisaram recorrer à rede privada.
É aí que a conta aperta. Diploma de escola pública não custa nada, e diploma de faculdade particular custa uma mensalidade por mês durante anos. Foi essa diferença que os adesivos cobriram.
O que aconteceu depois
A história não parou no ensaio de formatura, e o desdobramento é relevante para quem for ler hoje.
A colação de grau de Matheus estava marcada para agosto de 2025, no Centro Universitário Uninta, em Sobral. Depois disso, o caso ganhou alcance nacional: em 2 de novembro de 2025, pai e filho participaram do quadro The Wall, no programa Domingão com Huck, da TV Globo.
A participação teve um roteiro de montanha-russa. A dupla chegou a acumular perto de R$ 65 mil, mas zerou o jogo no formato do quadro, em que um responde perguntas em sala isolada enquanto o outro define as posições das bolas. Depois do encerramento da rodada, o apresentador convidou os dois para uma dinâmica extra, com cinco tentativas de acertar uma bola em um círculo verde. Eles conseguiram na última.
Segundo o próprio programa, aquele acerto garantiu o que foi chamado de pontapé inicial para o projeto de abertura do consultório odontológico da família. Antes da exibição, Francisco havia escrito nas redes sociais que ele e parte da família representariam Santa Quitéria e o Nordeste, falando sobre como a educação pode transformar vidas e abrir caminhos que antes pareciam impossíveis.
O que a homenagem provocou
O efeito do gesto sobre quem o recebeu foi imediato e duradouro. Segundo Matheus, a emoção do pai foi tão genuína que ele próprio não conseguiu segurar o choro, e mesmo depois a ficha não havia caído de que tinha visto o pai chorar.
O jovem também explicou de onde vem a inspiração. Ele conta que se espelha na perseverança e na garra do pai, e que em todos os dias em que acordava para ir à faculdade pensava na luta dele, no esforço diário com a merenda e com os adesivos.
Havia ainda mais uma homenagem em preparação. Matheus revelou que os cinco irmãos planejavam juntos um novo gesto para o pai, sem detalhar qual.
O que fica dessa história
Um capelo trocado por um chapéu de palha, um carrinho de lanches recriado por inteligência artificial porque não sobrou nenhuma foto, 218 municípios riscados no mapa, adesivos a R$ 2 e três meses seguidos longe de casa por viagem. A homenagem do jovem dentista cearense ao pai vendedor ambulante virou imagem justamente porque resume, em um único gesto, o que muita família brasileira faz sem ninguém filmar.
E você, o que essa história te lembra? Alguém da sua família se sacrificou de um jeito parecido para você chegar onde chegou, e você já disse isso em voz alta para essa pessoa? Você acha que gestos assim são o reconhecimento que basta, ou o país deveria facilitar para que ninguém precise rodar sete estados vendendo adesivo para bancar uma faculdade? E mais: qual foi a maior homenagem que você já fez ou recebeu? Conte nos comentários, principalmente se você foi o primeiro da sua casa a se formar.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

