Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

O candidato que ninguém está vendo (por Hubert Alquéres)

o-candidato-que-ninguem-esta-vendo-(por-hubert-alqueres)

O candidato que ninguém está vendo (por Hubert Alquéres)

O caso Master deixou de ser apenas um escândalo financeiro. Ao atingir Jacques Wagner, um dos políticos mais influentes e mais próximos do presidente Lula, a investigação alcançou o coração do poder. Mais importante, porém, do que a eventual responsabilidade deste ou daquele personagem, é o efeito político produzido pelo episódio. As investigações passaram a envolver figuras associadas ao governo, à oposição, ao Centrão e ao sistema financeiro, reforçando uma percepção cada vez mais difundida entre os eleitores: a de que as fronteiras entre interesses públicos e privados continuam excessivamente permeáveis.

É justamente dessa perda de confiança que costumam nascer os candidatos improváveis.

Durante muito tempo, a política parece previsível. Os mesmos partidos ocupam o centro do palco, os mesmos líderes dominam o debate público e os analistas discutem apenas qual deles chegará primeiro à linha de chegada. Então, de repente, surge alguém que poucos levavam realmente a sério alguns anos antes.

Foi assim com Fernando Collor em 1989 e com Jair Bolsonaro em 2018. Em outros países, ocorreu com Javier Milei, na Argentina, e Emmanuel Macron, na França. Em comum, esses casos não têm ideologias, trajetórias ou propostas semelhantes. O que compartilham é outra característica: emergiram quando parcelas expressivas da sociedade perderam a confiança nos atores tradicionais.

Talvez seja cedo para afirmar que o Brasil esteja novamente diante de um momento dessa natureza. Mas é difícil ignorar alguns sinais.

A polarização entre lulismo e bolsonarismo organizou a vida política brasileira por quase uma década. Dominou eleições, moldou identidades, mobilizou paixões e transformou adversários em inimigos existenciais. Hoje, porém, começam a surgir sinais de desgaste.

Não porque as divergências tenham desaparecido. Ao contrário. Elas permanecem profundas. O que parece enfraquecer é a capacidade de cada campo político de se apresentar como resposta aos problemas do país.

Durante anos, a esquerda denunciou a corrupção, os privilégios e os impulsos autoritários da direita. A direita denunciou a corrupção, o aparelhamento do Estado e a impunidade da esquerda. Cada lado alimentou a convicção de que representava uma alternativa moral ao adversário.

O problema é que a realidade se encarregou de desgastar essa narrativa. Escândalos, favorecimentos indevidos, relações pouco transparentes entre agentes públicos e interesses privados, promessas de moralização que terminaram frustradas e sucessivas crises de governança atingiram personagens de diferentes espectros políticos. Para uma parcela crescente da população, a disputa deixou de opor virtuosos e culpados. Passou a parecer um confronto entre grupos igualmente incapazes de entregar a renovação prometida.

O caso Master tornou-se emblemático justamente por isso. Não apenas pelos fatos sob investigação, mas porque reforça a percepção de que um mesmo sistema de relações atravessa partidos, governos, Congresso, grupos econômicos e estruturas de poder. O problema já não parece restrito a uma ideologia ou a um campo político específico.

O desgaste, contudo, não decorre apenas dos escândalos. Outros problemas estruturais continuam avançando sem que o sistema político pareça capaz de enfrentá-los com a urgência necessária.

O crime organizado amplia sua presença na economia formal, infiltra-se em cadeias produtivas, controla territórios e movimenta bilhões de reais. Relatórios recentes apontam sua expansão para setores como transporte, combustíveis, construção civil, serviços financeiros e comércio. O problema deixou de ser apenas policial. Tornou-se institucional.

A economia também oferece sinais contraditórios. Embora indicadores importantes permaneçam positivos, persistem preocupações relacionadas ao crescimento dos gastos públicos, ao aumento do endividamento e à dificuldade de construir uma trajetória fiscal mais sólida. Para muitos brasileiros, cresce a sensação de que o país administra crises sucessivas sem atacar suas causas mais profundas.

O que está em crise não são apenas governos ou lideranças, mas a crença de que um dos lados possui autoridade moral e competência suficientes para se apresentar como antídoto ao outro.

E é provável que o elemento mais importante seja de natureza psicológica.

Em 2018 predominava a indignação. Havia revolta contra a corrupção, contra a crise econômica e contra o sistema político. Hoje o ambiente parece diferente. Menos marcado pela raiva e mais pela exaustão.

Muitos brasileiros já não demonstram a mesma disposição para defender incondicionalmente um dos polos. Não necessariamente porque tenham mudado de posição ideológica, mas porque passaram a enxergar limitações, contradições e fracassos dos dois lados.

É nesse ambiente que candidatos improváveis costumam surgir.

O erro mais comum dos analistas é imaginar que o próximo presidente necessariamente estará entre os nomes já conhecidos. A história mostra exatamente o contrário. Quando sistemas políticos entram em processo de desgaste, novas lideranças encontram espaço para crescer rapidamente. O fenômeno raramente começa com o candidato. Começa com o esgotamento do ambiente que sustentava os candidatos tradicionais.

Naturalmente, não há hoje um nome capaz de ocupar esse espaço de forma evidente. Talvez ele sequer apareça nas pesquisas. Bolsonaro parecia improvável poucos anos antes de vencer. Collor também. O mesmo ocorreu em diversos países que atravessaram crises de representação.

A questão, portanto, não é identificar quem será o próximo candidato improvável. É saber se as condições para seu surgimento estão novamente se formando.

________________________________________

Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

Sair da versão mobile