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O pai cortou cana numa usina de Alagoas por 35 anos, o filho se formou médico pela Ufal e o salário dele tirou o pai do canavial

O pai cortou cana numa usina de Alagoas por 35 anos, o filho se formou médico pela Ufal e o salário dele tirou o pai do canavial

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O pai cortou cana numa usina de Alagoas por 35 anos, o filho se formou médico pela Ufal e o salário dele tirou o pai do canavial

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 31/07/2026 às 19:24

Curiosidades

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Filho de cortador de cana se formou médico pela Ufal em outubro de 2023 e tirou o pai do canavial em Alagoas depois de 35 anos de corte manual de cana.

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Maurício Bernardo da Silva colou grau em 11 de outubro de 2023, aos 23 anos, depois de seis anos de curso na Ufal de Arapiraca. Com o emprego na rede pública e os plantões semanais, o pai deixou o corte de cana ainda naquele ano.

O médico Maurício Bernardo da Silva se formou pela Universidade Federal de Alagoas, campus de Arapiraca, em 11 de outubro de 2023, e o efeito mais imediato do diploma não apareceu na vida dele, e sim na do pai, conforme reportagem publicada em 22 de outubro de 2023 pelo colunista Carlos Madeiro, no UOL. João Vicente da Silva, então com 47 anos, deixou naquele mesmo ano o corte de cana para uma usina de Alagoas, ofício que exerceu por cerca de 35 anos.

A família mora no bairro do Cruzeiro, em São Sebastião, município do interior alagoano situado a 126 quilômetros de Maceió. A saída do canavial não foi aposentadoria, e sim consequência direta do primeiro emprego do filho: em outubro de 2023, Maurício, então com 23 anos, já atendia em uma Unidade Básica de Saúde na própria cidade e cumpria plantões semanais em Arapiraca e São Miguel dos Campos.

Trinta e cinco anos entre o facão e a usina

O trabalho no corte de cana começou cedo demais na vida de João Vicente. Segundo o relato dele à reportagem em outubro de 2023, entrou na atividade aos 14 anos, e foi dali que saiu o sustento da casa durante toda a formação dos filhos.

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Corte manual de cana é um dos trabalhos mais desgastantes do campo brasileiro. A jornada começa antes do amanhecer, o pagamento costuma ser por produção, e o desgaste físico se acumula em joelhos, coluna e ombros ao longo dos anos. É um ofício que cobra o corpo do trabalhador como forma de pagamento, e trinta e poucos anos nessa rotina explicam por que a saída dele virou notícia.

Ainda assim, o pai não tratou o período com amargura. Ele afirmou ter orgulho do que construiu, porque foi com esse serviço que garantiu comida para si e para os filhos, e disse ter feito tudo por amor à família. A frase resume uma relação com o trabalho braçal que quem nunca dependeu dele raramente entende.

A promessa que a mãe fez antes de ele nascer

Maurício e os pais na porta de casa em São Sebastião (AL)
Imagem: Felipe Chié/Arquivo pessoal

A expectativa de que Maurício se tornasse médico é anterior ao nascimento dele. Adriana da Silva, então com 43 anos, contou em outubro de 2023 que, durante a gestação, repetia para si mesma que carregava um doutor, sem dividir isso com ninguém.

Esse desejo tinha origem em uma perda. O primeiro filho do casal morreu durante uma cirurgia em Maceió, aos 2 anos e 6 meses, com a mãe ao lado dele. Maurício nasceu depois, e o sonho da profissão veio carregado dessa história.

Não é raro que expectativas assim se dissolvam no caminho, porque o desejo de um pai ou de uma mãe não determina a trajetória de ninguém. Neste caso, a coincidência entre o que foi sonhado e o que aconteceu levou duas décadas para se completar, e passou por escola pública, aprovação em federal e seis anos de curso.

Cadernos baratos e uma criança que já sabia escrever

Os primeiros sinais apareceram cedo na vida escolar. Aos 5 anos, no primeiro ano de pré-escola, a professora chamou a mãe para perguntar onde o menino havia estudado antes, porque ele já sabia escrever. Era a primeira experiência dele em sala de aula.

A família, porém, não tinha condições de investir em escola particular nem em curso complementar. Dona de casa, Adriana lembrou que comprava cadernos baratos para o filho e acompanhava, ano após ano, os elogios que vinham dos professores.

No 9º ano, a diretora da escola convocou a mãe para uma conversa direta. O recado foi que aquele aluno poderia ser o que quisesse, mas precisava estudar em Arapiraca, cidade maior e com melhor estrutura de ensino do que a rede disponível em São Sebastião.

A bolsa recusada e a escolha por não depender de favor

A conversa com a diretora resultou em uma oferta concreta. Ela conseguiu uma bolsa de 50% da mensalidade em uma escola particular de Arapiraca e se dispôs a custear a outra metade do próprio bolso, para que o estudante tivesse acesso a um colégio melhor.

A família agradeceu e recusou. A justificativa apresentada foi a preferência por seguir na rede pública, sem depender da ajuda financeira de terceiros. É uma decisão que muita gente questionaria de fora, e que a família tomou com clareza sobre o que queria.

O caminho escolhido foi outro colégio público, o Lions, em Arapiraca, que Maurício descreveu como melhor estruturado do que as opções disponíveis na cidade onde morava. A escolha manteve o estudante na rede pública do começo ao fim, incluindo a graduação em uma universidade federal.

Curso para filho de rico: o preconceito que vinha até de conhecidos

As boas notas não blindaram a família dos comentários. Segundo os relatos dados à reportagem em outubro de 2023, eles se acostumaram a ouvir que seria difícil se formar sendo filho de cortador de cana e que medicina era curso para filho de rico.

O detalhe mais duro é a origem dessas frases. Elas não vinham de estranhos, e sim de pessoas conhecidas e até de familiares, que não acreditavam na formatura. Descrédito vindo de dentro do círculo próximo costuma pesar mais do que qualquer obstáculo institucional.

Maurício afirmou que nada disso o abalava. Na avaliação dele, a dificuldade real da família sempre foi financeira, e não escolar, já que a trajetória em escola pública e depois na faculdade transcorreu de forma tranquila do ponto de vista acadêmico. O que ele destacou foi o papel dos pais, que acreditaram, não desistiram e fizeram o que puderam para que ele chegasse à universidade.

Seis anos na Ufal e o registro profissional antes da colação

Médico Maurício Bernardo em sua casa, em São Sebastião (AL)
Imagem: Felipe Chié/Arquivo pessoal

O curso durou seis anos no campus de Arapiraca da Universidade Federal de Alagoas, no agreste do estado. A colação de grau aconteceu em 11 de outubro de 2023.

Antes disso, ainda no fim de julho de 2023, ele já havia recebido o documento de conclusão e providenciado o registro profissional necessário para atuar. Essa antecipação explica por que, na data da reportagem, ele já estava trabalhando: o exercício da medicina depende do registro no conselho de classe, e não da cerimônia de formatura em si.

Na prática, isso significa que houve uma janela de cerca de dois meses e meio entre o início da atuação profissional e a colação de grau. Foi nesse intervalo que a rotina da família começou a mudar, com a entrada de renda que permitiria tirar o pai do canavial.

UBS de dia e plantões durante a semana

Em outubro de 2023, a rotina profissional do recém formado combinava dois tipos de vínculo. Ele atendia em uma Unidade Básica de Saúde no próprio município onde mora e cumpria plantões semanais em Arapiraca e em São Miguel dos Campos.

Esse arranjo é comum entre médicos no início de carreira, especialmente no interior. A atenção básica oferece vínculo mais estável e horário previsível, enquanto o plantão remunera por escala e permite complementar a renda, ao custo de deslocamento entre cidades e de jornadas longas.

Naquele momento, ele atuava como generalista e ainda não havia definido especialidade. Disse estar em fase de decisão, com interesse despertado pela cirurgia vascular, sem que a escolha estivesse fechada. A definição de especialidade, no seu caso, ficou para depois de outra lista de prioridades.

A lista de prioridades que colocou a especialização no fim da fila

Médico Maurício Bernardo ao lado da mãe dona de casa e do pai cortador de cana
Imagem: Felipe Chié/Arquivo pessoal

Maurício afirmou carregar, desde a entrada na faculdade, uma lista de prioridades organizada. Com o pai já fora do corte de cana, o primeiro item passou a ser mudar a família para uma casa melhor, e em outubro de 2023 a busca por um imóvel maior já estava em andamento.

O segundo item da lista era a compra de um carro. Só depois de deixar tudo resolvido para os pais, segundo ele, viriam a especialização e os projetos pessoais.

Essa ordem diz muito sobre a lógica da decisão. Especialização médica é o passo que amplia renda e possibilidades de carreira, e adiá la tem custo profissional real. Colocar a casa dos pais antes da própria formação é uma escolha com preço, e ele a apresentou como retribuição pelo apoio recebido ao longo dos anos de estudo.

O pai saiu do canavial, mas não quer ficar parado

A reação de João Vicente à mudança tem duas partes. Ele não escondeu o orgulho pelo lugar aonde o filho chegou, mas avisou que não pretende passar o resto da vida sem trabalhar.

Disse não saber ficar parado e manifestou a intenção de fazer bicos, aceitando qualquer serviço braçal que apareça, embora estivesse apenas descansando naquele momento. É uma reação frequente entre trabalhadores que passaram décadas em atividade contínua e que associam identidade e rotina ao trabalho.

Vale registrar a distinção que a própria reportagem faz: ele não se aposentou. Sair do corte de cana e se aposentar são coisas diferentes, e o que aconteceu foi o encerramento de uma atividade específica, viabilizado pela renda que passou a existir na casa.

Uma família inteira migrando para a área da saúde

Maurício não é o único filho do casal seguindo esse caminho. O irmão dele, então com 22 anos, cursava técnico de enfermagem em Arapiraca em outubro de 2023.

A convergência dos dois para a área da saúde reforça o efeito que uma trajetória bem sucedida produz dentro de casa. Quando alguém do núcleo familiar atravessa a barreira do ensino superior, o caminho deixa de ser abstrato para os que vêm em seguida.

É importante registrar que os fatos relatados aqui correspondem à situação da família em outubro de 2023, data da apuração. Quase três anos se passaram desde então, e não há informação pública mais recente sobre a mudança de casa, a definição de especialidade ou a situação atual de João Vicente.

De 35 anos de canavial a um diploma em seis

O contraste entre os dois números resume a história. De um lado, três décadas e meia de trabalho braçal iniciado na adolescência. Do outro, seis anos de curso em universidade federal que bastaram para encerrar aquela rotina.

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O que liga as duas pontas não é sorte nem exceção. É uma sequência de decisões tomadas por pessoas sem margem para errar: manter o filho na escola pública, recusar o que parecia favor, comprar caderno barato quando não dava para mais, e atravessar o descrédito de quem dizia que medicina não era lugar para filho de cortador de cana.

E você, conhece alguém que tirou a família de uma situação difícil sendo o primeiro a chegar à faculdade? Acha que o filho deve priorizar os pais antes da própria carreira ou que cada um precisa cuidar do próprio caminho primeiro? Conta nos comentários o que a sua família fez para colocar alguém na universidade.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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