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O que é ser “masculino” hoje? Tema divide opiniões e levanta debates

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O que é ser “masculino” hoje? Tema divide opiniões e levanta debates

Apesar de ocuparem historicamente posições de poder, muitos homens se veem, atualmente, diante de uma crise de identidade. Em meio a mudanças sociais, avanços das pautas de igualdade de gênero e questionamentos sobre papéis tradicionais, surge uma dúvida recorrente: o que significa, afinal, “ser masculino” nos dias atuais? 

O tema voltou ao centro do debate nas redes sociais após, entre outros casos, a realização de um curso apresentado pelo ator Juliano Cazarré, que propõe o fortalecimento da masculinidade. A discussão não é isolada. Iniciativas como Legendários, Homem de Verdade, Promise Keepers e outros encontros voltados exclusivamente ao público masculino também vêm ganhando visibilidade, muitas vezes com propostas semelhantes.

É nesse contexto que cresce o chamado “masculinismo” — conjunto de discursos que defendem pautas relacionadas aos direitos e aos interesses dos homens.

O ator Juliano Cazarré criou o curso presencial O Farol e a Forja, focado em masculinidade, liderança e valores

Relatos e experiências

Ao Metrópoles, o policial Márcio Marques relata que viveu muitos treinamentos intensos e ambientes de transformação. Participante do movimento Legendários em Brasília, o também pastor assegura que nunca havia participado de qualquer experiência que gerasse tantos testemunhos.

“Esse, na minha opinião, é o maior diferencial do movimento: a quantidade de homens que sobem a montanha e retornam com suas vidas transformadas. Saem de lá reposicionados, com novas perspectivas e com um amor redobrado por Jesus e por sua família.”

Para César Junio, pastor e diretor do movimento, uma das experiências mais transformadoras que vivenciou foi perceber que existiam “sementes de potencial” dentro dele que ainda não tinham sido plenamente despertadas.

“A montanha não foi apenas uma experiência física ou emocional, foi um processo profundo de confronto, silêncio, superação e reposicionamento interior. Eu costumo dizer que a montanha estica o homem. Ela nos tira da zona de conforto, confronta nossos limites, expõe nossas desculpas e nos leva a enxergar com mais clareza quem somos.”

César Junio e a esposa

Visão sobre masculinidade

Segundo César, participar de encontros como esses impactou profundamente sua visão sobre masculinidade. Ele passou a compreender, com ainda mais força, que masculinidade saudável não é dureza, frieza emocional ou imposição. Ao contrário, é responsabilidade, presença, domínio próprio, honra, serviço, paternidade, proteção e caráter.

“Esses encontros me ajudaram a enxergar que vulnerabilidade não é o contrário de masculinidade. Quando bem compreendida, ela faz parte da maturidade de um homem.”

Márcio Marques compartilha uma visão semelhante. Segundo o policial, os encontros reforçaram a percepção que ele tinha sobre o quanto a masculidade foi atacada e, com isso, fragilizada.

“Escrevi um livro com esse tema em 2022, antes mesmo de conhecer o movimento. Há quase uma década venho pregando sobre a necessidade de o homem retomar o seu papel bíblico, o que envolve conhecer melhor suas emoções, seus desafios, sua missão e ter outros homens com os mesmos princípios para se apoiar”, comenta.

Márcio Marques

Relações familiares, profissionais e afetivas

Segundo César Junio, as experiências vividas durante o encontro transformaram sua forma de enxergar diferentes aspectos da vida. “Depois da montanha, o homem passa a olhar tudo por outra perspectiva. Ele entende que a vida é curta, que o tempo é precioso e que não vale a pena viver desconectado do que realmente importa.”

Na família, esse processo desperta uma consciência maior sobre presença. No ambiente profissional, a experiência fortalece caráter, disciplina, foco e responsabilidade. Nas relações afetivas, a montanha ensina o valor da honra, da escuta, da humildade e da reconciliação, conforme define o pastor.

Para Márcio, a experiência o fez refletir de maneira mais intencional sobre as decisões tomadas no dia a dia, deixando de agir no “piloto automático” e desenvolvendo mais consciência sobre suas escolhas.

“O resultado é inevitável: valorizar mais as coisas essenciais (vida, saúde, liberdade, paz de espírito), ser grato e responsivo ao que o Senhor tem me confiado (pessoas, responsabilidades bens, mensagem) e investir tempo com aqueles que realmente importam: mulher, filhos, irmãos, amigos, discípulos, deixando a plateia e os holofotes para segundo plano.”

Difusão do conteúdo “masculino”

Embora esses encontros voltados ao público masculino tenham ganhado espaço nos últimos anos e, segundo relatos, proporcionado experiências transformadoras, também é importante considerar os debates e questionamentos que surgem em torno dessas iniciativas.

Marcos Nascimento, psicólogo e pesquisador da Fiocruz, explica que muitos homens ainda não reconhecem que privilégios históricos masculinos são, de fato, privilégios. Para ele, a atuação de movimentos sociais, como os feministas, passou a questionar comportamentos antes vistos como “naturais”, transformando a forma de compreender as relações de gênero.

“Com isso, muitos homens foram impulsionados a repensar o seu lugar no mundo e se sentem perdidos. A tarefa não é simples, mas é fundamental para estabelecermos relações mais igualitárias entre mulheres e homens (e entre homens também)”, aponta.   

Nesse cenário, o crescimento de conteúdos sobre masculinidade nas redes sociais tem acendido um alerta entre especialistas. Mais do que uma tendência digital, essas narrativas influenciam diretamente a forma como homens constroem sua identidade e se relacionam.

O que está por trás do “resgate da masculinidade” 

Segundo a psicóloga especialista em gênero Liliany Souza, o problema começa na própria definição do que esses conteúdos chamam de masculinidade. “Quando se fala em resgatar a masculinidade, muitas vezes o que está por trás é a ideia de um homem que domina, que controla, que decide — colocando automaticamente as mulheres em um lugar de inferioridade e subjugação”, explica.

Esse tipo de mensagem atua como um reforço de padrões antigos de comportamento. Isso porque, como destaca a especialista, tudo o que consumimos ajuda a moldar nossa visão de mundo.

“Todo conteúdo que a gente consome é pedagógico. Se homens consomem mensagens que reforçam privilégio e poder, a gente continua formando pessoas que acreditam que esse é o lugar natural deles”, reforça Liliany. 

Mais do que uma tendência digital, essas narrativas influenciam diretamente a forma como homens constroem sua identidade e se relacionam

Não existe uma única forma de ser homem

O psicólogo também salienta que o conceito de “ser homem” também é diferente para cada pessoa. “Não existe uma única forma de ser homem. As masculinidades são múltiplas e atravessadas por fatores como classe, raça, idade, orientação sexual e identidade de gênero”, destaca.

“As masculinidades, no plural, são múltiplas e se conectam com outros marcadores, como classe social, cor/raça, idade, orientação sexual e identidade de gênero, por exemplo. Homens brancos ou negros, heterossexuais ou gays, cis ou trans, jovens ou idosos têm experiências distintas do que é ser homem e isso precisa ser levado em consideração. Por isso, não há uma forma única de ser homem nem uma única masculinidade.”

Segundo ele, ainda há uma convivência entre padrões tradicionais — como força, virilidade e controle emocional — e novas formas de viver a masculinidade, mais abertas à vulnerabilidade e ao cuidado. Esse conflito ajuda a explicar por que tantos homens se sentem deslocados diante das transformações sociais.

O movimento cresce na internet

A psicóloga Claudia Melo acrescenta que essa construção também passa por um afastamento emocional aprendido desde cedo. “Homens aprendem que certas emoções não são bem-vindas e que vulnerabilidade é sinal de fraqueza. Isso cria uma incongruência interna: o que se sente não pode ser vivido plenamente”, afirma.

Os impactos na prática

O resultado do consumo desse tipo de conteúdo pode ser um descompasso entre o que esses homens aprendem on-line e a realidade atual, marcada por avanços na autonomia feminina e na busca por relações mais igualitárias. 

Nesse cenário, cresce também o risco de reprodução de comportamentos problemáticos. “Quando ideias misóginas são incentivadas e consumidas, formamos homens mais propensos a reproduzir violência — seja ela simbólica, psicológica ou até física”, alerta Liliany. 

Essas atitudes nem sempre aparecem de forma explícita. Por vezes, se manifestam em situações cotidianas, como desqualificar a opinião de uma mulher, assumir que ela deve ocupar funções de cuidado ou esperar submissão em relações afetivas. São comportamentos que, somados, ajudam a manter estruturas de desigualdade.

Para a especialista em gênero, a mudança passa por um processo de revisão individual e coletiva. Isso inclui questionar padrões aprendidos desde a infância e abrir espaço para novas formas de se relacionar. “Uma masculinidade mais saudável começa quando o homem se dispõe a se repensar — algo que historicamente não foi ensinado a ele.”

Caminhos para uma masculinidade mais saudável

Para os especialistas, o caminho passa por revisão, escuta e construção coletiva. “Uma masculinidade mais saudável começa quando o homem se dispõe a se repensar — algo que historicamente não foi ensinado a ele”, afirma Liliany.

Marcos Nascimento destaca que esse processo não precisa, e nem deve, ser solitário. “Me parece que um dos eixos centrais é pensar o cuidado como tema central nessa discussão. Cuidado consigo mesmo e com as pessoas que cercam esses homens. Ressignificar o que é ser homem é um ato de suma importância que exige esforço coletivo. Pensar sobre isso nas escolas, com meninos e meninas, nos espaços de trabalho e na esfera da saúde deve ser visto como um investimento importante”, ressalta. 

Já Claudia Melo reforça a importância do olhar interno. “Desenvolver uma escuta mais sensível, reconhecer sentimentos sem julgamento e questionar padrões aprendidos são passos importantes. A terapia pode ajudar, mas esse movimento começa quando o homem se autoriza a ser mais real.”

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