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Obrigados a consertar a fachada que ameaçava cair de um casarão em Toledo, na Espanha, os donos descobriram que a casa fora erguida em cima de um banho árabe medieval inteiro, com salas abobadadas e forno, do século XIII

Obrigados a consertar a fachada que ameaçava cair de um casarão em Toledo, na Espanha, os donos descobriram que a casa fora erguida em cima de um banho árabe medieval inteiro, com salas abobadadas e forno, do século XIII

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Obrigados a consertar a fachada que ameaçava cair de um casarão em Toledo, na Espanha, os donos descobriram que a casa fora erguida em cima de um banho árabe medieval inteiro, com salas abobadadas e forno, do século XIII

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 24/07/2026 às 18:30

Ciência e Tecnologia

Obrigados a consertar a fachada, os donos de um casarão em Toledo acharam um banho árabe medieval do século XIII inteiro embaixo da própria casa.

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Uma ordem da prefeitura para reparar telhas que caíam na rua obrigou os donos de um casarão em Ajofrín, na província de Toledo, a mexer no imóvel. A obra destravou uma escavação que revelou, embaixo da cozinha e da sala, um banho árabe medieval quase inteiro.

No município de Ajofrín, na província de Toledo, na Espanha, um casarão habitado por décadas por várias famílias guardava um pedaço da história espanhola logo abaixo do piso. O prédio já era popularmente conhecido como banhos árabes e havia escapado da demolição no início dos anos 2000, quando uma equipe de especialistas em patrimônio histórico o classificou como área de proteção, desconfiada de que ali houvesse vestígios arqueológicos. A descoberta foi detalhada pela Universidade de Castilla La Mancha, cuja equipe de arqueólogos conduziu a intervenção, em comunicado divulgado pelo portal el espanol, em agosto de 2024.

O que forçou a confirmação da suspeita foi um problema banal de manutenção. Em 2021, as autoridades municipais exigiram que os proprietários fizessem obras para impedir que telhas despencassem na rua, e foi essa exigência que motivou a intervenção arqueológica. O resultado apareceu num estado de conservação excepcional, descrito como um dos melhores exemplos de banhos rurais do centro da Península Ibérica.

A casa estava construída sobre o banho

Fachada da casa em Ajofrín. Universidade de Castilla-La Mancha

As escavações exploratórias revelaram uma ligação que ninguém enxergava no dia a dia. A antiga cozinha e a sala de estar do casarão se conectavam a dois cômodos abobadados, e esses cômodos correspondiam às áreas de água quente e água morna de um antigo complexo de banhos andaluzes, datado entre os séculos XIII e XIV. Ou seja, a vida doméstica corria por cima de uma estrutura medieval inteira, sem que os moradores soubessem o que pisavam.

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As duas salas abobadadas preservadas foram erguidas em pedra e tijolo. As abóbadas, segundo a leitura dos arqueólogos, foram construídas com escoras de madeira que sustentavam os tijolos durante a obra, técnica coerente com o período. É essa combinação de material simples e execução cuidadosa que explica por que a estrutura chegou de pé até o século XXI, ainda que soterrada e reaproveitada por outras construções ao longo do tempo.

Por que esse achado é raro

A raridade não está só na idade, e sim em dois detalhes que os pesquisadores fazem questão de sublinhar. O primeiro é a localização rural. Banhos como esse costumam ser documentados em ambiente urbano, a exemplo dos que se conhecem na própria cidade de Toledo, então encontrar um exemplar rural preservado é incomum por si só.

O segundo detalhe é a data, e ele carrega quase um paradoxo histórico. A sobrevivência dessas estruturas no centro da península, entre os séculos XIII e XIV, chama atenção porque nessa região os banhos já estavam em declínio ou em desuso. A reconquista cristã havia acontecido ali séculos antes do que no sul, e o abandono desse tipo de banho foi mais precoce no centro. Que um complexo desses ainda estivesse em funcionamento naquele período, e naquele lugar, é o que dá peso ao caso.

O caminho da água, sala por sala

Restos de salas abobadadas em Ajofrín. Universidade de Castela-La Mancha

Pelo que os arqueólogos reconstituíram, o aqueduto original provavelmente tinha três seções, uma para água fria e as duas conservadas, para água quente e morna. O banho seguia uma planta axial, com os cômodos paralelos e interligados, e o percurso do banhista tinha uma lógica de ida e volta pelo mesmo ponto.

A visita começaria pela sala fria, avançaria até a sala quente ao fundo, passaria pelo cômodo central de água morna e retornaria à sala fria, saindo pela mesma entrada. Era um circuito térmico pensado como sequência, do frio ao quente e de volta ao frio, o mesmo princípio que estrutura banhos desse tipo em toda a tradição andaluza.

O forno escondido no pátio, e o que foi saqueado

O coração do sistema ficava no pátio da casa. Ali estava a fornalha que aquecia as piscinas por meio de um hipocausto, o método antigo de aquecimento que faz o ar quente circular por baixo do piso e das paredes para elevar a temperatura dos ambientes. Era o motor térmico de todo o complexo.

Das piscinas em si não sobrou vestígio arquitetônico, e a explicação mais provável é dura. A principal hipótese sugere que eram bacias ou banheiras que foram roubadas e saqueadas quando os banhos caíram em desuso, junto com os pisos originais. O que o tempo não destruiu, a pilhagem levou, restando a estrutura fixa de pedra e tijolo que não dava para carregar.

De ruína a estábulo, de estábulo a casa

A trajetória do lugar depois do abandono explica como um banho medieval virou endereço residencial. No século XVIII, sobre as ruínas do balneário, foi erguido um edifício agrícola com bebedouros e cochos para animais. O que era banho aristocrático de água quente virou dependência rural para o gado.

Já na época contemporânea, esse edifício agrícola passou por várias reformas até ser adaptado como moradia, o casarão que diferentes famílias habitaram por décadas. Três funções empilhadas no mesmo ponto ao longo dos séculos, banho, estábulo e casa, cada uma apagando um pouco da anterior, até que uma ordem para consertar telhas trouxe a primeira de volta à superfície.

Um circuito termal de volta à luz

Sala de banho quente. Universidade de Castilla-La Mancha/Equipe de Pesquisa

O que começou como obrigação de manutenção terminou como um dos melhores registros de banho rural medieval do centro da Espanha. Embaixo de uma cozinha comum estavam duas salas abobadadas, o traçado de um percurso de água quente e morna e o pátio onde um forno aquecia tudo, tudo datado entre os séculos XIII e XIV e guardado por acaso debaixo da vida cotidiana de várias gerações.

E é aí que fica a pergunta que rende conversa de verdade. Você já imaginou o que pode estar embaixo da sua casa ou de um prédio antigo do seu bairro? Comenta aqui embaixo se você já encontrou algo inesperado numa reforma, ou que lugar da sua cidade você desconfia que esconde história embaixo do chão.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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