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Para barrar o Rio Paraná, Brasil e Paraguai despejaram concreto suficiente para erguer 210 estádios do Maracanã e ferro para 380 Torres Eiffel, na barragem de Itaipu de 7.919 metros de extensão e 196 de altura

Para barrar o Rio Paraná, Brasil e Paraguai despejaram concreto suficiente para erguer 210 estádios do Maracanã e ferro para 380 Torres Eiffel, na barragem de Itaipu de 7.919 metros de extensão e 196 de altura

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11 min de leitura

Para barrar o Rio Paraná, Brasil e Paraguai despejaram concreto suficiente para erguer 210 estádios do Maracanã e ferro para 380 Torres Eiffel, na barragem de Itaipu de 7.919 metros de extensão e 196 de altura

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 23/07/2026 às 19:18

Atualizado em 23/07/2026 às 19:26

Construção

Concreto para 210 Maracanãs e aço para 380 Torres Eiffel: veja como Itaipu ergueu uma barragem de 196 metros e por que o material foi resfriado com gelo.

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Foram cerca de 12,7 milhões de metros cúbicos de concreto, volume que a própria usina compara a 210 Maracanãs, mais ferro e aço suficientes para 380 Torres Eiffel. Em um único dia de 1978, o canteiro lançou 7.207 metros cúbicos, recorde sul-americano da época, o equivalente a 24 prédios.

A usina de Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu, no Paraná, tem uma barragem de 7.919 metros de extensão e 196 metros de altura, o equivalente a um edifício de cerca de 65 andares. Para chegar a esse resultado, o canteiro consumiu um volume de concreto que a própria empresa compara à construção de 210 estádios do tamanho do Maracanã, e uma quantidade de ferro e aço que daria para erguer 380 Torres Eiffel.

Os números não são retórica de folheto turístico: eles explicam por que a obra virou objeto de estudo em universidades de engenharia. Antes de qualquer despejo de material, foi preciso desviar o Rio Paraná por um canal escavado na rocha, e o concreto precisou ser resfriado com gelo produzido no próprio canteiro para não rachar enquanto endurecia. A produção comercial de energia começou em maio de 1984.

Quanto concreto foi, afinal: os números e a divergência

Concreto para 210 Maracanãs e aço para 380 Torres Eiffel: veja como Itaipu ergueu uma barragem de 196 metros e por que o material foi resfriado com gelo.

Vale começar pelo dado central, e ele aparece de formas diferentes conforme a fonte. O material oficial de Itaipu informa 12,7 milhões de metros cúbicos de concreto, e é esse volume que sustenta a comparação com os 210 Maracanãs.

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Outras publicações trabalham com 12,57 milhões e há quem cite 12,3 milhões de metros cúbicos. A diferença entre os extremos é de cerca de 400 mil metros cúbicos, o que parece pouco em termos percentuais e é bastante em termos absolutos: dá quase sete Maracanãs de diferença. Não encontrei explicação pública para a variação, e a hipótese mais provável é que os números incluam ou excluam estruturas auxiliares.

Para efeito de comparação, existe um dado que ajuda a dimensionar essa montanha de material. O volume de concreto de Itaipu é cerca de quinze vezes maior que o do Eurotúnel, o túnel ferroviário que liga a Inglaterra à França por baixo do Canal da Mancha, e o volume de escavação de terra e rocha é aproximadamente oito vezes e meia maior.

O dia em que o canteiro lançou um prédio por hora

Existe uma data específica que virou símbolo do ritmo da obra. Em 14 de novembro de 1978, Itaipu bateu o recorde sul-americano de concretagem ao lançar 7.207 metros cúbicos de concreto em um único dia.

A tradução desse número é o que impressiona. O ritmo equivale a erguer um prédio de dez andares a cada hora, ou 24 edifícios ao longo das 24 horas do dia. Não se trata de força bruta apenas: manter esse fluxo exige usina de concreto funcionando sem parar, transporte sincronizado, equipe em turnos ininterruptos e controle de qualidade em cada carga.

Registros sobre a obra mencionam ainda que houve dias com lançamento de até 15 mil metros cúbicos e meses que alcançaram 340 mil metros cúbicos. Esses valores aparecem em relato jornalístico e não no material oficial da empresa, então vale tratá-los como ordem de grandeza, e não como marca homologada.

As fábricas de gelo que salvaram a barragem de rachar

Este é o detalhe que costuma surpreender quem não é da área e que a fonte original menciona quase de passagem. Concreto não endurece frio. A reação química entre cimento e água libera calor, e em uma peça pequena isso não faz diferença. Em um bloco de barragem, com dezenas de metros de espessura, faz toda a diferença do mundo.

O problema é físico e implacável. O miolo da peça esquenta muito mais que a superfície, e quando o interior finalmente esfria e contrai, a diferença de temperatura entre dentro e fora gera tensões capazes de abrir fissuras. Em uma estrutura que precisa segurar a pressão de um reservatório inteiro, fissura térmica não é defeito estético, é risco.

A solução adotada em Itaipu foi montar fábricas de gelo no próprio canteiro de obras, conforme registram documentos históricos da empresa. O gelo entra na mistura no lugar de parte da água, baixando a temperatura do concreto no momento do lançamento e reduzindo o pico térmico durante a cura. É procedimento consagrado em grandes barragens, e a escala de Itaipu exigiu produção industrial de gelo no meio do Paraná.

Duas fábricas de cimento montadas ao lado da obra

Concreto para 210 Maracanãs e aço para 380 Torres Eiffel: veja como Itaipu ergueu uma barragem de 196 metros e por que o material foi resfriado com gelo.

Outro problema de logística virou solução de engenharia. A demanda de cimento para tanto concreto era tão grande que havia previsão de que as empresas brasileiras e paraguaias não conseguiriam atender ao ritmo do canteiro sem comprometer o abastecimento do restante dos dois países.

A resposta foi levar a fábrica até a obra. Foram montadas duas unidades de produção de cimento, uma em cada país, ao lado do canteiro, com moinhos de clínquer instalados especificamente para o empreendimento. É o tipo de decisão que só faz sentido em obra de escala continental: quando o transporte do insumo custa mais que produzi-lo no local, a conta se inverte.

O volume de transporte envolvido no restante dos materiais dá a medida do resto da operação. Registros sobre a construção mencionam a mobilização de mais de 20 mil caminhões e cerca de 6,6 mil vagões ferroviários. Uma única turbina, vinda de São Paulo, levou cerca de três meses para chegar ao canteiro.

Antes do concreto, foi preciso tirar o rio do lugar

Nada disso teria sido possível sem resolver primeiro o problema mais óbvio: o rio estava no caminho. O Paraná, descrito no material da usina como o sétimo maior rio do mundo, precisou ser desviado por um canal escavado na rocha viva.

As dimensões desse desvio são de outra obra dentro da obra. O canal tinha cerca de dois quilômetros de extensão, 150 metros de largura e 90 metros de profundidade, e sua abertura exigiu a remoção de dezenas de milhões de metros cúbicos de terra e rocha. As fontes divergem na unidade: algumas falam em mais de 50 milhões de toneladas, outras em cerca de 55 milhões de metros cúbicos, então vale registrar a ordem de grandeza sem cravar o número.

O momento decisivo tem data e explosivo. Em 20 de outubro de 1978, 58 toneladas de dinamite derrubaram as duas ensecadeiras que protegiam a construção do novo curso, liberando a passagem da água pelo canal. Só depois disso o leito original ficou seco e disponível para receber o concreto da barragem principal.

Gravidade aliviada: o truque que economizou concreto

Com esse volume de material em jogo, cada metro cúbico economizado representava dinheiro e tempo. A barragem principal de Itaipu é do tipo gravidade aliviada, e o nome descreve exatamente a estratégia.

Uma barragem de gravidade convencional resiste ao empuxo da água pelo próprio peso, e para isso precisa ser maciça. A versão aliviada usa blocos ocos de concreto, com vazios internos que reduzem a quantidade de material sem comprometer a resistência à pressão do reservatório. É engenharia de eficiência: colocar massa apenas onde ela realmente trabalha.

Vale registrar que a barragem de Itaipu não é uma peça única de concreto. A estrutura combina trechos de concreto com trechos de terra e de enrocamento, cada um adequado à geologia e à altura do local onde está. Os 7.919 metros de extensão somam esses diferentes tipos, e não apenas o trecho principal.

Os 380 Torres Eiffel de ferro e aço

A comparação que dá título à matéria é da própria Itaipu. Segundo o material oficial da usina, a quantidade de ferro e aço empregada no empreendimento seria suficiente para construir 380 Torres Eiffel.

Esse aço não aparece na foto porque está enterrado dentro do concreto e distribuído pelas estruturas metálicas da casa de força. Concreto resiste muito bem à compressão e muito mal à tração, e é o aço que resolve esse problema. Sem armadura, uma estrutura desse porte se comportaria como uma peça de pedra gigante: forte para ser esmagada, frágil para ser puxada ou dobrada.

Há ainda um dado de recorde nacional que costuma passar despercebido. Durante 35 anos, a barragem de Itaipu foi a mais alta estrutura de concreto armado do Brasil, posição que só perdeu recentemente. Com 196 metros, ela equivale a um edifício de aproximadamente 65 andares.

Os números de energia que circulam desatualizados

Aqui é preciso corrigir informação que aparece repetida em quase todo texto sobre Itaipu, inclusive no material que originou esta matéria. A afirmação de que a usina fornece cerca de 10% da energia consumida no Brasil e 85% da consumida no Paraguai está defasada. O concreto não mudou de lugar, mas os percentuais mudaram bastante.

Os dados oficiais mais recentes contam outra história. Em 2025, Itaipu produziu 72.879.287 megawatts-hora, alta de 8,63% sobre 2024. Desse total, 64% ficaram com o Brasil, o que representou cerca de 7% de toda a energia consumida no país, e 36% foram para o Paraguai, atendendo aproximadamente 87% do consumo paraguaio.

A tendência é de mudança contínua nesse equilíbrio. Há quarenta anos, o Brasil consumia 95% do suprimento da usina; em 2024, esse percentual havia caído para 69%, com o Paraguai subindo para 31%. A própria empresa projeta que, até 2035, o crescimento do consumo paraguaio deve eliminar o excedente hoje vendido ao Brasil.

Terceira em potência, primeira em produção acumulada

A comparação feita pelo material de origem menciona apenas a Usina das Três Gargantas, na China, e ficou incompleta. Segundo material publicado pela própria Itaipu, a usina é atualmente a terceira maior hidrelétrica do mundo em potência instalada e a primeira do mundo em geração acumulada.

O motivo dessa aparente contradição não está no concreto nem no tamanho da barragem, e sim no regime dos rios. Uma usina com capacidade instalada maior nem sempre produz mais ao longo do ano, porque depende da constância da vazão. O Rio Paraná oferece fluxo relativamente estável ao longo dos meses, enquanto rios asiáticos sujeitos a monções apresentam variação sazonal muito mais acentuada.

Os marcos da produção acumulada mostram o efeito do tempo. O primeiro bilhão de megawatts-hora foi alcançado em 2001, o segundo em agosto de 2012, o terceiro em março de 2024, e em 5 de setembro de 2025 a usina ultrapassou 3,1 bilhões de megawatts-hora desde o início da operação. É energia suficiente para abastecer o planeta inteiro por cerca de 44 dias, segundo o cálculo da própria empresa.

Os 40 mil trabalhadores e a cidade que precisou ser criada

Obra dessa escala não cabe em uma cidade despreparada. Alguém precisava misturar, transportar e lançar todo aquele concreto: o pico do canteiro reuniu mais de 40 mil trabalhadores simultaneamente, número que por si só equivale à população de um município de porte médio.

A consequência foi ter de construir a estrutura urbana junto com a barragem. O projeto exigiu a criação de bairros inteiros e de hospitais em Foz do Iguaçu para abrigar e atender esse contingente, transformando de forma permanente a geografia da cidade e da região de fronteira.

A dimensão diplomática também pesou. A construção foi conduzida durante os anos 1970 como uma parceria entre dois países na gestão de um recurso fronteiriço, e o arranjo binacional criado ali segue regendo a operação da usina até hoje, com a produção dividida igualmente entre Brasil e Paraguai e a possibilidade de venda do excedente ao país parceiro.

O lado que a celebração costuma deixar de fora

Nenhum retrato honesto de Itaipu fica completo só com os superlativos do concreto, e vale registrar o que a maior parte dos textos sobre a usina omite. A construção envolveu volume expressivo de recursos públicos e é cercada de denúncias de corrupção relacionadas a agentes públicos e a empresas de construção.

O contexto político da época agrava esse ponto. A obra correu durante a ditadura militar brasileira, período em que a censura e a repressão estatal impediam a imprensa de publicar informações sobre o assunto, o que atrasou por décadas qualquer apuração pública consistente.

Houve também o custo humano e ambiental. A formação do reservatório de 1.350 quilômetros quadrados deslocou populações ribeirinhas e submergiu áreas naturais, entre elas as Sete Quedas. Como contrapartida, a empresa registra o plantio de 24 milhões de mudas nativas na faixa de proteção do reservatório, apresentado como o maior reflorestamento do gênero feito no mundo.

Do canteiro ao turismo: o que a usina virou

Passadas quatro décadas, a estrutura que consumiu todo aquele concreto virou também produto turístico. Itaipu é hoje a segunda maior atração de Foz do Iguaçu, atrás apenas das Cataratas, e recebeu 26,7 milhões de visitantes desde 1977.

O programa de visitação inclui passeios panorâmicos e visitas técnicas que levam o público para dentro da barragem, onde é possível sentir a vibração das turbinas em operação. À noite, um espetáculo de iluminação acompanhado de música transforma a estrutura em atração cultural, movimentando a economia local.

Para quem for visitar, um dado ajuda a entender o que se está olhando. A vazão máxima do vertedouro chega a 62,2 mil metros cúbicos por segundo, cerca de 40 vezes a vazão média das Cataratas do Iguaçu, que fica em torno de 1.500 metros cúbicos por segundo. O vertedouro, aliás, quase não é usado: em 2025 ele foi aberto em apenas nove dias, e antes disso a usina passou 696 dias sem precisar acionar o sistema.

O retrato final combina proeza técnica e conta que ainda está sendo paga. Foram cerca de 12,7 milhões de metros cúbicos de concreto resfriado com gelo produzido no canteiro, ferro e aço equivalentes a 380 Torres Eiffel, um rio inteiro desviado por um canal de dois quilômetros escavado na rocha, 58 toneladas de dinamite para derrubar as ensecadeiras e mais de 40 mil trabalhadores no pico da obra. Quarenta anos depois, a usina é a terceira do mundo em potência instalada, a primeira em geração acumulada e responde por cerca de 7% da eletricidade consumida no Brasil e por 87% da consumida no Paraguai. E carrega, junto com os recordes, denúncias de corrupção que a censura da época impediu de investigar no momento certo.

E você, já visitou Itaipu ou conhece alguém que trabalhou na construção? Na sua opinião, o Brasil ainda seria capaz de tocar uma obra dessa escala hoje, ou perdemos essa capacidade? Conta nos comentários qual desses números te impressionou mais: o concreto, o desvio do rio ou os 40 mil trabalhadores no mesmo canteiro.

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Rio Paraná


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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