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Para fincar o prédio mais alto do norte de Mato Grosso, engenheiros cavaram a fundação mais profunda do Brasil, 50 metros abaixo do chão da terra da soja, e despejaram 15 mil metros cúbicos de concreto em cerca de 1.900 caminhões-betoneira para segurar 42 andares
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 22/07/2026 às 17:22
Atualizado em 22/07/2026 às 17:27
Construção
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O edifício Raízes, em Sinop, terá 42 andares e mais de 150 metros de altura, sustentados por estacas que descem 50 metros no subsolo. A fundação do prédio custou mais de R$ 10 milhões e ultrapassa em dez metros a do Senna Tower, em Balneário Camboriú.
Um prédio de 42 andares está sendo erguido no meio da maior região produtora de soja do país, e o feito de engenharia começou muito antes do primeiro pavimento. Em Sinop, no norte de Mato Grosso, a incorporadora São Benedito escavou estacas de 50 metros de profundidade para sustentar o edifício Raízes, o que segundo o levantamento divulgado nesta quarta-feira, 22 de julho de 2026, configura a maior fundação predial do Brasil.
Para chegar a essa base, a obra consumiu cerca de 15 mil metros cúbicos de concreto e 350 mil quilos de aço, volume que exigiu aproximadamente 1.900 caminhões-betoneira e 13 carretas, conforme detalhou o engenheiro-chefe da construtora, Luiz Cláudio Ferreira Marinho. Só a fundação foi orçada em mais de R$ 10 milhões. O prédio terá mais de 150 metros de altura e marca o início da verticalização de alto padrão no interior mato-grossense.
Os números que sustentam a torre antes do primeiro andar
A conta da fundação impressiona justamente por descrever o que ninguém vai enxergar depois da obra pronta. São cerca de 15 mil metros cúbicos de concreto e 350 mil quilos de aço, o que se traduz em aproximadamente 1.900 caminhões de concreto e 13 carretas de aço apenas para dar início à construção, segundo o engenheiro-chefe da São Benedito.
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Colocado em perspectiva, esse volume de concreto encheria seis piscinas olímpicas. E ele desaparece por completo abaixo da linha do solo, sustentando uma carga que só faz sentido quando se olha para os 42 pavimentos que vão nascer em cima.
Um registro técnico mais recente do empreendimento, publicado quando a fundação já estava executada, apresentou o volume total da base acima de 13 mil metros cúbicos, equivalentes a cerca de 1.800 caminhões. A diferença entre o previsto e o consolidado é normal em obras dessa escala, e os dois números falam da mesma ordem de grandeza.
O solo que é ótimo para soja e complicado para arranha-céu
A escolha por uma fundação tão profunda não foi capricho de projeto. O solo da região de Sinop, excelente para o cultivo de grãos, não responde bem à carga concentrada de uma torre de mais de 150 metros. Antes de definir a solução, a equipe fez uma sondagem que chegou a 80 metros de profundidade no terreno.
O resultado dessa investigação levou à técnica de estaca escavada com fluido estabilizante, combinada com hélice contínua monitorada, em diâmetros que alcançam 100 centímetros. É o tipo de solução que aparece em obras de porte metropolitano e que raramente chega ao interior do país. O objetivo, em linguagem simples, é transferir o peso do edifício para camadas de solo bem mais firmes do que aquelas que sustentam a lavoura na superfície.
O princípio vale para qualquer prédio alto. A estaca funciona como uma perna que atravessa o terreno mole até encontrar apoio confiável, e a profundidade não é escolhida no chute: ela sai da leitura da sondagem, que mostra em qual cota o solo passa a resistir de fato. Quando essa cota está longe da superfície, como aconteceu em Sinop, o custo da obra sobe antes mesmo de a estrutura aparecer.
197 estacas e três radiers para segurar o núcleo do prédio
O detalhamento técnico ajuda a entender por que a conta ficou tão alta. Só na projeção da torre são 197 estacas, e cada uma consome em torno de 47 metros cúbicos de concreto, o equivalente a cerca de seis caminhões por estaca. A armação de cada uma leva 16 barras de aço de 16 milímetros.
Sobre as estacas vem o bloco de fundação. O núcleo central do edifício se apoia em três grandes radiers, com altura entre 2,5 e 3 metros, que sozinhos consomem mais de 1,8 mil metros cúbicos de concreto, com taxa de armação que se aproxima de 70 quilos de aço por metro cúbico. É a parte da obra que ninguém fotografa e que decide se o resto fica de pé.
Dez metros mais fundo que o Senna Tower
A comparação que deu visibilidade nacional ao projeto é com o Senna Tower, em Balneário Camboriú, cuja fundação desce 40 metros. Os 50 metros de Sinop superam essa marca em dez metros, e é daí que vem a classificação de maior fundação predial do país.
Vale um registro de cautela sobre o superlativo, porque nem todos os envolvidos usam a mesma expressão. O engenheiro-chefe da construtora afirmou que “poucos empreendimentos no Brasil têm 50 metros de profundidade”, formulação mais contida que a de recorde absoluto. Somando a estrutura inteira, os 154 metros acima do térreo e os 50 metros abaixo dele, o conjunto chega a cerca de 200 metros de altura estrutural, um dado que ajuda a dimensionar a obra melhor do que qualquer comparação isolada.
O contraste com Balneário Camboriú também desfaz uma intuição comum. O prédio catarinense é muito mais alto, mas precisa de menos profundidade, porque profundidade de fundação não acompanha altura de forma automática. Ela responde ao que existe embaixo. Areia compacta, rocha próxima da superfície ou argila mole mudam completamente a conta, e é por isso que uma torre de 42 andares no Centro-Oeste pode exigir estaca mais longa que um arranha-céu litorâneo bem maior.
O prédio: 42 andares, 132 apartamentos e coberturas de 766 m²
Acima do solo, o Raízes terá 42 pavimentos e 132 apartamentos, distribuídos em um terreno de pouco mais de 5 mil metros quadrados no setor comercial de Sinop. As unidades vão de 194 metros quadrados até coberturas duplex de 766 metros quadrados, com varandas que chegam a 30 metros quadrados.
O conceito adotado pela incorporadora batizou essas unidades de casas suspensas, expressão que descreve bem a proposta: metragens de residência térrea empilhadas em altura. A entrega está prevista para agosto de 2029, prazo compatível com a complexidade estrutural do empreendimento, e a obra movimenta valores estimados em torno de meio bilhão de reais na economia local.
O canteiro fica no cruzamento da Avenida das Acácias com a Avenida das Figueiras, em área comercial da cidade. A escolha do endereço não é detalhe menor em um município que ainda tem poucos prédios altos: em cidades de crescimento recente, o primeiro empreendimento vertical costuma definir para onde o mercado imobiliário vai empurrar os lançamentos seguintes.
Por que o produtor rural está trocando casa grande por apartamento
A demanda que sustenta um projeto desse porte vem de uma mudança de comportamento no campo. Produtores rurais que sempre moraram em casas amplas passaram a considerar o apartamento, movimento que a incorporadora atribui a três fatores: mais segurança, menor custo de manutenção e mais praticidade no dia a dia.
É uma inversão relevante para quem historicamente associava qualidade de vida a metragem de terreno. O apartamento de alto padrão entra como alternativa que preserva o espaço interno e elimina a rotina de manutenção de uma casa grande, e foi justamente para atender esse perfil que as unidades do prédio foram desenhadas com áreas generosas e varandas amplas.
Sinop, a cidade com menos de 50 anos que virou polo regional
O contexto urbano explica o resto. Sinop ainda não completou cinco décadas de fundação e já funciona como centro de referência para toda a região norte de Mato Grosso. O aeroporto local, com menos de vinte anos, é o segundo mais movimentado do estado, e o município aparece na lista das 100 cidades mais ricas do agronegócio brasileiro.
Omar Maluf, CEO da São Benedito, resume o cenário ao dizer que se trata de “uma cidade que cresce fora da curva” e que está se tornando um centro regional. A verticalização, porém, ainda engatinha por lá. O Raízes é tratado pela própria empresa como marco inicial desse processo, e não como consequência de um mercado já maduro, o que explica por que um prédio isolado ganha tanta atenção.
A empresa por trás da obra e a estratégia que a sustenta
A São Benedito foi fundada em 1983 e tem origem na trajetória de Samir Maluf, imigrante libanês que começou no comércio antes de migrar para a construção civil. Hoje a empresa é conduzida pelos netos, Omar e Amir Maluf, e integra uma holding com negócios em energia solar, pecuária e uma rede de academias com unidades espalhadas de Manaus a Chapecó.
A estratégia financeira ajuda a explicar a disposição de bancar uma obra desse porte no interior. A incorporadora retém cerca de 15% dos imóveis que constrói, usando esses ativos como fonte de renda recorrente e como colchão de segurança. Foi esse desenho conservador que, segundo a empresa, garantiu fôlego para atravessar períodos de crise como a pandemia sem interromper obras.
Na prática, guardar parte das unidades significa abrir mão de caixa imediato na venda para ter receita previsível depois, com aluguel ou valorização. Em construção civil, onde o ciclo de um prédio leva anos entre lançamento e entrega, esse tipo de reserva costuma ser o que separa a empresa que atravessa uma crise da que para a obra no meio e deixa comprador na mão.
No fim, o dado mais curioso do projeto é justamente o que vai ficar invisível. O prédio será lembrado pelos 42 andares e pela silhueta recortada contra a lavoura, mas o que o torna possível são 50 metros de concreto e aço enterrados, resultado de uma sondagem de 80 metros e de quase 1.900 viagens de betoneira. Em Sinop, a engenharia precisou descer bastante antes de conseguir subir.
E você, moraria em um prédio de 42 andares no meio da terra da soja ou prefere manter os pés na casa térrea com quintal? Conta nos comentários se a verticalização faz sentido para uma cidade de interior ou se descaracteriza o jeito de morar da região.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

