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Pesquisadores da Suécia, Estados Unidos, Suíça e Noruega revelam que o derretimento das geleiras pode formar mais de 50 mil novos lagos em terrenos hoje cobertos por gelo, com risco crescente de enchentes repentinas em regiões montanhosas da Ásia, Andes, Alasca e Ártico

Pesquisadores da Suécia, Estados Unidos, Suíça e Noruega revelam que o derretimento das geleiras pode formar mais de 50 mil novos lagos em terrenos hoje cobertos por gelo, com risco crescente de enchentes repentinas em regiões montanhosas da Ásia, Andes, Alasca e Ártico

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Pesquisadores da Suécia, Estados Unidos, Suíça e Noruega revelam que o derretimento das geleiras pode formar mais de 50 mil novos lagos em terrenos hoje cobertos por gelo, com risco crescente de enchentes repentinas em regiões montanhosas da Ásia, Andes, Alasca e Ártico

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 23/07/2026 às 22:21

Ciência e Tecnologia

formação de novos lagos com derretimento das geleiras

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Estudo na Nature Communications indica que o recuo das geleiras pode formar 56.659 novos lagos em áreas hoje cobertas por gelo.

Pesquisadores da Suécia, Estados Unidos, Suíça e Noruega mapearam o que existe debaixo de mais de 200 mil geleiras do planeta e chegaram a uma conclusão impressionante: quando parte desse gelo desaparecer, a Terra poderá ganhar 56.659 novos lagos em áreas hoje completamente congeladas. O estudo foi publicado em 2026 na revista científica Nature Communications e analisou geleiras fora dos grandes mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida.

Segundo os autores, esses futuros lagos poderiam ocupar 40.647 km² e armazenar até 3.138 km³ de água. Esse volume equivale a cerca de 7 milímetros de elevação do nível do mar que ficariam temporariamente retidos nesses reservatórios naturais, em vez de seguir diretamente para os oceanos.

O número chama atenção porque revela uma transformação silenciosa: o derretimento das geleiras não deixa apenas rocha exposta. Ele também pode criar novos sistemas de água doce, mudar ecossistemas inteiros e aumentar riscos em vales montanhosos.

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Cientistas mapearam o terreno escondido sob mais de 200 mil geleiras

O estudo foi liderado por pesquisadores da Uppsala University, na Suécia, com participação da Carnegie Mellon University, nos Estados Unidos, da University of Lausanne, na Suíça, e da University of Oslo, na Noruega.

De acordo com a Nature Communications, a equipe reconstruiu a topografia abaixo das geleiras usando um modelo tridimensional de fluxo de gelo chamado Instructed Glacier Model, acelerado por GPU e aprendizado profundo. A ideia foi entender como seria a superfície da Terra se as geleiras desaparecessem.

derretimento das geleiras

Esse tipo de mapeamento é complexo porque a base das geleiras não é visível diretamente. A superfície congelada pode esconder vales profundos, depressões, bacias naturais e áreas onde a água do degelo tende a se acumular.

Segundo o estudo, observações diretas da elevação do leito das geleiras existem para apenas cerca de 2% das geleiras globais. Por isso, os pesquisadores precisaram combinar dados de relevo, espessura do gelo, velocidade de fluxo, balanço de massa e medições já disponíveis em bancos internacionais.

O estudo encontrou 56.659 possíveis lagos em áreas hoje cobertas por gelo

O principal resultado do trabalho é a identificação de 56.659 possíveis lagos futuros com área mínima de 0,05 km².

Segundo a Nature Communications, esses lagos surgiriam em depressões do terreno atualmente cobertas por gelo. Quando a geleira recua, essas áreas podem ficar livres e passar a acumular água de degelo, chuva e drenagem local.

A área total estimada desses futuros lagos chega a 40.647 km².

Na prática, isso significa que cerca de 6% da nova paisagem livre de gelo poderia ser coberta por lagos. O próprio estudo compara esse número com a média global de cobertura lacustre em terras não glacializadas, que é de aproximadamente 2%.

Esse contraste mostra que regiões recém-expostas pelo recuo das geleiras podem ter uma concentração de lagos muito maior do que paisagens terrestres comuns.

Volume de água chegaria a 3.138 km³

Além da quantidade de lagos, o estudo também estimou o volume total de água que esses reservatórios poderiam armazenar.

Segundo a Nature Communications, os futuros lagos poderiam acumular até 3.138 km³ de água.

O número é tratado pelos autores como um potencial máximo, porque o modelo considera o terreno revelado pelo gelo sem incluir todas as mudanças futuras causadas por erosão, sedimentos, rompimentos de barreiras naturais ou drenagens posteriores.

Mesmo com essa limitação, o resultado é relevante.

Os pesquisadores calculam que esse volume seria suficiente para reter cerca de 7 milímetros de equivalente de nível do mar. Em outras palavras, parte da água do derretimento ficaria presa temporariamente em lagos continentais antes de chegar aos oceanos.

Isso não elimina o problema da elevação do mar, mas mostra que o caminho da água do degelo pode ser mais complexo do que simplesmente sair da geleira e correr diretamente para o oceano.

Geleiras escondem vales, bacias e depressões que podem virar reservatórios naturais

O estudo mostra que o leito das geleiras não é uma superfície plana. Debaixo do gelo, existem formas de relevo criadas por milhares de anos de erosão glacial. Entre elas estão vales em U, circos glaciais, bacias profundas e áreas chamadas de overdeepenings, que são depressões escavadas abaixo do nível de saída do terreno.

derretimento das geleiras pode formar mais de 50 mil novos lagos

Quando o gelo recua, essas depressões podem funcionar como recipientes naturais.

A água do derretimento passa a se acumular nelas e forma lagos. Em alguns casos, esses lagos ficam represados por rocha. Em outros, por sedimentos, morainas ou gelo remanescente.

É justamente esse tipo de detalhe que torna o mapeamento importante. Sem conhecer o formato do terreno sob a geleira, é difícil prever onde novos lagos poderão surgir, qual será seu tamanho e quais riscos poderão oferecer às comunidades próximas.

Regiões da Ásia montanhosa aparecem como áreas de preocupação

O estudo publicado na Nature Communications destaca a High Mountain Asia, região que inclui cadeias montanhosas como Himalaia, Karakoram, Hindu Kush, Pamir e Tien Shan, como uma das áreas mais sensíveis.

Os pesquisadores observaram grandes depressões próximas às frentes de geleiras nessa região.

Isso é importante porque lagos formados perto da parte mais baixa das geleiras podem acumular volumes maiores e ficar próximos de vales povoados, estradas, usinas hidrelétricas, áreas agrícolas e vilarejos.

A própria Nature Communications afirma que grandes depressões próximas às frentes glaciais na High Mountain Asia sugerem aumento do risco de enchentes repentinas causadas por rompimento de lagos glaciais.

Esses eventos são conhecidos pela sigla em inglês GLOF, de Glacial Lake Outburst Flood. Eles ocorrem quando um lago glacial escoa de forma súbita, liberando grande volume de água, lama, gelo e sedimentos vale abaixo.

Enchentes repentinas de lagos glaciais já ameaçam milhões de pessoas

O risco não é apenas teórico. Outro estudo publicado em 2023 na Nature Communications estimou que 15 milhões de pessoas no mundo estão expostas aos impactos potenciais de enchentes repentinas de lagos glaciais.

Esse trabalho identificou a High Mountain Asia como a região com maior exposição. Segundo o estudo de 2023, cerca de 9,3 milhões de pessoas expostas vivem nessa região.

A pesquisa também apontou que mais da metade da população global exposta está concentrada em apenas quatro países: Índia, Paquistão, Peru e China.

Novos lagos podem ser risco, mas também recurso

Apesar do alerta, os lagos formados pelo recuo das geleiras não representam apenas ameaça. Eles também podem se tornar reservas de água doce em regiões onde geleiras hoje funcionam como uma espécie de “caixa d’água” natural.

Em áreas de montanha, o gelo acumulado libera água durante períodos secos e ajuda a abastecer rios, comunidades, agricultura e geração de energia.

formação de novos lagos com derretimento das geleiras

Com o recuo das geleiras, parte dessa função pode mudar. Novos lagos podem armazenar água, criar habitats, modificar paisagens e até abrir oportunidades para uso hidrelétrico em alguns contextos.

Mas o estudo reforça que qualquer aproveitamento depende de planejamento cuidadoso. Lagos glaciais podem crescer rapidamente, receber avalanches de gelo ou rocha, transbordar e romper barreiras naturais.

Por isso, conhecer onde esses lagos podem surgir é uma etapa essencial para reduzir riscos antes que eles se transformem em desastres.

Modelo criou mapa global da Terra sem geleiras

O trabalho produziu um conjunto de dados chamado Topography of a Deglaciated Earth, ou TOPO-DE v1.0.

Segundo a Nature Communications, o objetivo foi criar um mapa global fisicamente consistente do terreno atualmente escondido sob as geleiras.

Esse mapa foi construído com resolução entre 100 e 400 metros, dependendo da região, e permite observar formas típicas de relevo glacial, como vales escavados, bacias profundas e áreas onde lagos podem aparecer no futuro.

O modelo usou dados do Randolph Glacier Inventory v6.0, que reúne informações de mais de 200 mil geleiras no mundo, além de modelos digitais de elevação, velocidades de fluxo do gelo e mais de 3,8 milhões de observações de espessura de gelo disponíveis no banco GlaThiDa.

Essa combinação permitiu aos pesquisadores simular a espessura do gelo e reconstruir o leito das geleiras em escala global.

Estudo não diz que todos os lagos vão surgir ao mesmo tempo

Um ponto importante: o estudo não afirma que os 56.659 lagos surgirão de uma só vez. A pesquisa calcula o potencial de formação de lagos em um cenário de paisagem deglaciada, ou seja, em áreas onde o gelo recuaria o suficiente para revelar as depressões do terreno.

A velocidade com que isso pode ocorrer depende de vários fatores. Entre eles estão aquecimento regional, altitude, espessura do gelo, dinâmica de cada geleira, quantidade de sedimentos, estabilidade das morainas e fluxo de água.

A própria Nature Communications informa que as estimativas de área e volume devem ser vistas como limite superior, porque processos como rompimento de barragens naturais, preenchimento por sedimentos e mudanças no relevo podem reduzir o tamanho final dos lagos.

Portanto, o estudo funciona como um mapa de alerta e planejamento, não como uma previsão exata de datas para cada lago.

Derretimento das geleiras também afeta nível do mar e água doce

O recuo das geleiras tem impacto direto no nível do mar, no abastecimento de água e na segurança de regiões montanhosas.

A Nature Communications afirma que o derretimento de geleiras contribui para a elevação do nível do mar e para a perda de recursos hídricos críticos, especialmente em partes da Ásia e da América do Sul.

Mesmo em cenários climáticos mais otimistas, projeções citadas no estudo indicam perda significativa de massa e área glacial até o fim do século.

Isso significa que muitas paisagens hoje dominadas por gelo entrarão em transformação permanente.

Onde antes havia geleiras, poderão surgir lagos, rios, encostas expostas, zonas úmidas e novos ecossistemas. Ao mesmo tempo, comunidades próximas terão de lidar com mudanças no abastecimento de água, no risco de enchentes e na estabilidade das montanhas.

Descoberta muda a forma de planejar o futuro das regiões congeladas

A importância do estudo está em antecipar uma paisagem que ainda não existe plenamente, mas que já começou a aparecer em várias regiões do planeta.

À medida que as geleiras recuam, áreas antes inacessíveis passam a ficar expostas. Algumas viram rocha nua. Outras acumulam água e formam lagos.

Sem mapas detalhados do terreno abaixo do gelo, governos, cientistas e comunidades têm menos informação para decidir onde monitorar, onde construir, onde evitar ocupação e onde instalar sistemas de alerta.

O novo mapa global ajuda justamente nesse ponto.

Ele permite identificar regiões onde lagos maiores podem aparecer, onde há maior probabilidade de acúmulo de água e onde o risco de enchentes repentinas pode crescer com o tempo.

Um planeta com menos gelo e mais lagos

O estudo mostra que o derretimento das geleiras não representa apenas perda de gelo. Ele também revela uma nova geografia.

Vales escondidos, bacias profundas e depressões enterradas por séculos ou milênios podem se transformar em lagos visíveis, alterando paisagens inteiras em regiões de montanha e zonas polares.

Segundo a Nature Communications, o potencial global chega a 56.659 lagos, com área somada de 40.647 km² e volume máximo de 3.138 km³.

Esses números transformam o recuo das geleiras em um dos processos geográficos mais importantes do século.

O gelo que desaparece não deixa apenas ausência. Ele revela um novo terreno, cria novos reservatórios e impõe novas decisões para regiões que dependem da água das montanhas e convivem com riscos naturais cada vez mais complexos.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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