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Pesquisadores instalaram nas Ilhas Canárias coletores que imitam agulhas de pinheiro, arrancam água da neblina sem eletricidade e irrigam mudas automaticamente; após captar 121,9 mil litros, o sistema ajudou a plantar 15 mil árvores em 35,8 hectares e fez 86% delas sobreviverem, mais que o dobro do método tradicional

Pesquisadores instalaram nas Ilhas Canárias coletores que imitam agulhas de pinheiro, arrancam água da neblina sem eletricidade e irrigam mudas automaticamente; após captar 121,9 mil litros, o sistema ajudou a plantar 15 mil árvores em 35,8 hectares e fez 86% delas sobreviverem, mais que o dobro do método tradicional

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Pesquisadores instalaram nas Ilhas Canárias coletores que imitam agulhas de pinheiro, arrancam água da neblina sem eletricidade e irrigam mudas automaticamente; após captar 121,9 mil litros, o sistema ajudou a plantar 15 mil árvores em 35,8 hectares e fez 86% delas sobreviverem, mais que o dobro do método tradicional

Escrito por Ana Alice

Publicado em 25/07/2026 às 23:51

Ciência e Tecnologia

Coletores de neblina nas Ilhas Canárias irrigam mudas sem eletricidade e ajudaram a reflorestar 35,8 hectares com 86% de sobrevivência. (Imagem: Ilustrativa)

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Uma técnica inspirada no modo como certas árvores lidam com a neblina está mudando a restauração de áreas secas e mostrando que soluções discretas podem transformar a relação entre água, clima e floresta.

Em uma encosta de Gran Canaria, no arquipélago espanhol das Ilhas Canárias, parte da água usada por milhares de árvores não veio de rios, poços ou caminhões-pipa.

Ela estava suspensa no ar, carregada pelas nuvens que atravessam as montanhas.

Pesquisadores do projeto LIFE Nieblas instalaram estruturas capazes de capturar as pequenas gotas presentes na neblina e conduzi-las até mudas plantadas em áreas degradadas.

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O processo funciona sem bombas elétricas durante a coleta e sem a retirada de água de aquíferos ou cursos d’água.

Entre os equipamentos testados está um modelo inspirado nas agulhas do pinheiro-das-canárias.

Fileiras de peças metálicas finas interceptam as gotículas levadas pelo vento, enquanto o espaço entre elas permite a passagem do ar.

A água acumulada escorre para reservatórios e pode ser liberada automaticamente no sistema de irrigação.

Os resultados divulgados ao final da fase europeia do projeto indicam que cerca de 15 mil árvores foram plantadas em 35,8 hectares no Barranco del Andén, em Gran Canaria.

A taxa de sobrevivência chegou a 86%, enquanto o método tradicional de reflorestamento usado como referência alcançava aproximadamente 40%.

Como a neblina pode fornecer água

A neblina parece apenas uma nuvem muito próxima do solo, mas é formada por uma grande quantidade de gotículas de água suspensas no ar.

Em locais onde esse fenômeno aparece com frequência e é empurrado pelo vento, superfícies adequadas conseguem interceptar parte dessa umidade.

A natureza já utiliza esse mecanismo.

Folhas, galhos e agulhas de determinadas árvores recebem as gotas, que se juntam até ganhar peso suficiente para escorrer até o solo.

O LIFE Nieblas partiu dessa observação para testar formas de levar água a regiões montanhosas onde a irrigação convencional seria difícil, cara ou dependente de combustíveis.

O projeto começou em 2020, com financiamento do programa LIFE, da União Europeia, e participação de instituições espanholas e portuguesas.

As Ilhas Canárias serviram como área de demonstração porque algumas de suas montanhas ficam sob a influência do chamado mar de nuvens.

O encontro de massas de ar úmido com o relevo favorece a formação de neblina em determinadas altitudes.

Isso não significa que seja possível instalar os coletores em qualquer lugar.

O método depende da presença regular de neblina com quantidade suficiente de água e de vento capaz de conduzir as microgotas contra a superfície de captação.

Coletores de neblina imitam árvores

As primeiras soluções usadas pelo projeto incluíam grandes superfícies cobertas por malhas plásticas.

Quando o vento empurrava a neblina através da rede, as gotículas ficavam presas, juntavam-se e desciam até recipientes instalados abaixo.

Embora a malha tivesse capacidade de captar água, a exposição constante ao vento trouxe um problema mecânico.

Estruturas maiores podiam sofrer danos, principalmente nos pontos mais expostos das encostas.

A equipe passou a buscar um equipamento que mantivesse a captação, mas oferecesse menos resistência ao ar.

Foi nesse processo que surgiu o coletor inspirado nas agulhas do pinheiro-das-canárias.

“Desenvolvemos um sistema que imita agulhas de pinheiro”, explicou Gustavo Viera, diretor técnico do projeto.

Segundo ele, esse formato consegue reter água e, ao mesmo tempo, permite que o vento atravesse a estrutura.

O chamado coletor de agulhas possui fileiras metálicas organizadas como um grande pente.

Por ser modular, ele pode ser montado em diferentes configurações e transportado até áreas de acesso limitado.

O LIFE Nieblas avaliou três tipos de coletores.

Além do equipamento inspirado no pinheiro, foram utilizadas torres revestidas por malhas e estruturas menores instaladas ao redor de cada muda.

Segundo o balanço do projeto, o modelo de agulhas apresentou a maior eficiência entre os desenhos testados.

Como a água da neblina chega às mudas

O sistema não transforma vapor em água por meio de refrigeração, como ocorre em alguns aparelhos atmosféricos.

Ele recolhe gotículas que já estão em estado líquido dentro da neblina.

Ao atingir as peças metálicas ou a malha, essas gotas ficam presas na superfície.

Outras chegam em seguida, formando volumes maiores, que escorrem pela ação da gravidade até calhas, tubos ou reservatórios.

Um dispositivo desenvolvido no projeto controla a descarga da água sem depender de alimentação elétrica.

Dessa forma, a irrigação pode ocorrer de maneira autônoma mesmo em áreas afastadas da rede de energia.

A eletricidade e os combustíveis ainda podem ser necessários para fabricar componentes e transportar os coletores durante a instalação.

Depois de montado, porém, o sistema de captação e liberação da água utiliza a neblina, o vento e a gravidade.

O método também evita o deslocamento frequente de máquinas para levar água até as mudas.

Em terrenos íngremes, esse transporte pode exigir veículos, tubulações extensas ou trabalho manual repetido.

Estruturas protegem mudas no reflorestamento

Parte das árvores foi plantada com estruturas individuais ao redor do tronco.

Além de recolher umidade da neblina, esses dispositivos reduzem a incidência direta do sol, ajudam a conservar a água no solo e dificultam o acesso de animais herbívoros.

Outra solução testada foi o Cocoon, uma estrutura biodegradável de papelão enterrada junto à planta.

O recipiente armazena água para hidratar a muda durante o primeiro ano, período considerado mais sensível para o estabelecimento da árvore.

Com o tempo, o material se decompõe no solo.

A expectativa é que, ao crescer, a própria árvore desenvolva folhas suficientes para capturar parte da umidade atmosférica sem depender do equipamento inicial.

O reflorestamento concentrou-se em espécies da laurisilva, formação vegetal característica de regiões úmidas da Macaronésia.

Entre as plantas usadas estavam espécies adaptadas às condições locais de Gran Canaria.

No total, aproximadamente 40 coletores, com área conjunta de captação de 135 metros quadrados, recolheram cerca de 121,9 mil litros de água, segundo o balanço publicado pelo Centro de Pesquisa Ecológica e Aplicações Florestais, o CREAF.

Reflorestamento alcançou 86% de sobrevivência

A área restaurada ocupa 35,8 hectares, o equivalente a cerca de 50 campos de futebol com dimensões oficiais máximas.

Nesse espaço, foram plantadas 15 mil árvores de diferentes espécies.

A taxa de sobrevivência de 86% significa que, a cada 100 mudas plantadas, aproximadamente 86 permaneceram vivas durante o período avaliado pelo projeto.

A referência adotada para o reflorestamento tradicional era de cerca de 40%.

O índice não pode ser atribuído apenas a um único coletor.

O resultado reuniu diferentes técnicas de captação, proteção das mudas e irrigação, além das condições naturais do local.

A recuperação da vegetação também restabelece gradualmente a capacidade da área de armazenar carbono.

Gustavo Viera estimou que a floresta restaurada poderia captar aproximadamente 175 toneladas de dióxido de carbono por ano, cálculo divulgado pela equipe do projeto.

Tecnologia de captação chegou a outras regiões

Os testes não ficaram restritos a Gran Canaria.

Cinco coletores foram reproduzidos em uma área florestal de Vouzela, em Portugal, atingida por um grande incêndio em 2017.

Na Catalunha, 60 dispositivos individuais foram instalados durante a recuperação de uma antiga pedreira na região de Garraf.

Nesse caso, as estruturas também recolhem chuva e orvalho, fornecem sombra e protegem as plantas de animais.

Equipamentos relacionados ao projeto chegaram ainda a Tenerife e Lanzarote.

Em Gran Canaria, uma colaboração com outra iniciativa passou a avaliar o uso da água captada da neblina para abastecer ovelhas durante o pastoreio em áreas florestais.

Fora da Europa, coletores foram testados na vila costeira de Chungungo, no Chile, para obtenção de água destinada ao consumo e à irrigação.

Em Cabo Verde, estruturas montadas com madeira local e malhas usadas pelo projeto chegaram a fornecer cerca de mil litros por dia para plantações e animais, de acordo com o CREAF.

O uso em outras regiões depende das condições climáticas de cada lugar.

Nem toda neblina possui água suficiente para tornar a instalação eficiente, e o volume captado pode mudar conforme o vento, a altitude, a estação do ano e o tamanho do equipamento.

LIFE Nieblas entrou em nova fase

A etapa do LIFE Nieblas financiada pelo programa europeu foi encerrada em 2024.

Naquele ano, os resultados foram apresentados em um congresso realizado em Gran Canaria, com atividades técnicas e uma visita à área restaurada.

Após essa fase, o Cabildo de Gran Canaria assumiu o compromisso de manter o desenvolvimento do projeto por mais cinco anos, no período chamado de pós-LIFE.

A previsão divulgada pelas instituições responsáveis é de continuidade até 2029.

A proposta não é substituir grandes sistemas de abastecimento.

Vicenç Carabassa, pesquisador do CREAF e responsável científico pelo projeto, afirmou que a técnica “nunca será uma alternativa a uma usina de dessalinização”.

Para o cientista, a aplicação está principalmente em áreas remotas onde transportar água é difícil e caro.

Nesses locais, uma estrutura que recolhe umidade do ar sem consumir eletricidade durante a operação pode atender necessidades específicas de reflorestamento, agricultura ou criação de animais.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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