Preso um mês após a morte da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto acompanhou por videoconferência, de uma sala do Presídio Militar Romão Gomes, na segunda-feira (29/3), o depoimento do delegado Lucas de Souza Lopes. Responsável pelo inquérito, o policial conduziu a investigação que passou a tratar o caso como feminicídio e fraude processual, descartando a hipótese inicial de suicídio.
Durante a audiência de instrução do caso (fase do processo em que juiz, acusação e defesa ouvem testemunhas e analisam provas antes de decidir os próximos passos da ação penal), o delegado mencionou as marcas encontradas no pescoço e na mandíbula de Gisele.
Foi nesse momento que o coronel, em silêncio, fez gestos mostrando as mãos, indicando que usa as unhas cortadas. A atitude foi para negar a suspeita de esganadura, narrada pelo delegado (assista acima). A defesa de Rosa Neto sustenta que as marcas poderiam ter sido feitas pela filha de Gisele, de 7 anos, versão já contestada por perícia, segundo a qual as lesões no rosto e pescoço da PM foram provocadas por agressão praticada por um adulto.
Ao todo, 34 pessoas estão previstas para serem ouvidas nesta fase do processo, entre policiais militares, bombeiros, familiares de Gisele, testemunhas de acusação e de defesa. Os trabalhos começaram em 29 de junho e devem ser concluídos nesta sexta-feira (3/7), com o interrogatório do tenente-coronel, réu no processo.
Laudos derrubaram versão de suicídio
Ao depor, Lucas de Souza Lopes afirmou que a investigação começou com a versão apresentada pelo próprio coronel, segundo a qual Gisele teria se matado com um tiro na cabeça dentro do apartamento do casal, no Brás, região central de São Paulo. A soldado foi encontrada morta na manhã de 18 de fevereiro. Ela foi socorrida pelo helicóptero Águia e morreu horas depois no Hospital das Clínicas.
Segundo o delegado, porém, os elementos técnicos reunidos no inquérito apontaram em outra direção. Ele disse que o laudo inicial já apontava “marcas no pescoço e na mandíbula” da vítima, mas que a Polícia Civil pediu a exumação do corpo para obter exames mais precisos.
A partir do laudo complementar, afirmou o delegado, a perícia concluiu que o disparo não condizia com casos de suicídio.
“Mecanicamente, biologicamente, seria praticamente impossível a vítima ter se atentado contra a própria vítima naquelas condições”, declarou na audiência.
Versão do coronel foi considerada improvável
O delegado também afirmou que a reconstituição dos fatos enfraqueceu a versão apresentada por Geraldo Neto. Segundo o coronel, ele teria visto Gisele caída logo após ouvir o disparo, enquanto ele tomava banho. Para a Polícia Civil, no entanto, a posição em que o oficial da PM disse estar não permitia a visualização descrita.
“A perita concluiu que a versão dele, de que teria conseguido visualizar a vítima caída ao solo, era improvável”, disse o delegado.
Outro ponto citado foi o cartucho da arma, que não foi encontrado no apartamento. Para o delegado, a ausência desse elemento se somou a outros indícios de alteração da cena. A análise do sangue também foi apontada como compatível com manipulação do corpo.
Bermuda e box ensanguentados
Em outro trecho do depoimento, o delegado mencionou vestígios de sangue encontrados em objetos e ambientes ligados ao coronel. Afirmou que a perícia identificou duas gotas de sangue na bermuda usada por Geraldo Neto no dia da morte de Gisele.
Segundo Lopes, esse tipo de gotejamento não seria típico de contato com sangue já existente no chão ou em outro objeto. “Possivelmente foi um gotejamento da vítima que pingou na bermuda dele”, pontuou.
O delegado também relatou que foram encontrados vestígios de sangue no box do banheiro onde o coronel disse ter tomado banho e em uma toalha rosa, posteriormente submetida a exame. “O laudo confirma que seria da Gisele”, afirmou.
As suspeitas sobre o banho já havia sido mostrada pelo Metrópoles com base no inquérito policial.
“Jamais terá o divórcio”
Além dos laudos, a Polícia Civil também usou mensagens extraídas dos celulares para sustentar que Gisele não queria continuar no relacionamento. O delegado disse que a investigação analisou conversas do casal desde 2023 e identificou uma escalada de conflitos.
Segundo Lopes, mensagens existentes no celular de Gisele não foram encontradas no aparelho do coronel, o que, para a investigação, indica possível apagamento. Parte dessas conversas foi recuperada por perícia.
“Na véspera [do feminicídio], a Gisele tinha se decidido separar. A última mensagem dela fala que ela quer o divórcio e ele responde que ela jamais terá”, destacou o delegado.
Para a Polícia Civil, essa troca de mensagens contradiz a versão do coronel de que ele seria o interessado na separação e Gisele teria reagido mal à decisão.
Ligações antes do socorro
Lopes também mencionou a sequência de ligações feitas pelo coronel após o disparo. Segundo ele, uma vizinha ouviu um forte barulho por volta das 7h28. O primeiro acionamento ao 190, porém, só teria ocorrido a partir das 7h54 e não foi completado.
Na sequência, conforme o delegado, Geraldo Neto ligou para um superior hierárquico, o coronel Bueno, interrompeu o chamado de socorro, conversou com ele por alguns minutos e só depois acionou o Samu. O Metrópoles já havia mostrado que o Ministério Público de São Paulo (MPSP) apontou “sucessivas” ligações feitas pelo coronel após o disparo e antes da consolidação da versão apresentada às autoridades.
Questionado pela promotoria, Lopes disse não se lembrar de qualquer ligação feita pelo coronel, naquela manhã, a familiares de Gisele. “Pelo que eu me recordo, pela manhã ele não manteve nenhum contato com o familiar”, afirmou.
Polícia concluiu por feminicídio e fraude
Ao final do inquérito, a Polícia Civil indiciou o tenente-coronel por feminicídio e fraude processual. A Justiça aceitou a denúncia e ele virou réu. Geraldo Neto está preso desde 18 de março, quando foi detido pela Corregedoria da PM em São José dos Campos, no interior paulista.
A defesa sustenta que Gisele cometeu suicídio e o oficial nega ter matado a esposa.
Para o delegado, porém, o conjunto de provas afasta a hipótese. “Todos esses elementos conduziram a gente por entender que não houve um suicídio, mas, sim, um feminicídio e uma fraude processual”, declarou.





















