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Ponte de R$ 395,3 milhões tem uma parte que ninguém vai enxergar, estacas escavadas a até 39 metros embaixo do chão, o equivalente a um prédio de 13 andares enterrado para segurar a estrutura em Joinville
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 31/07/2026 às 14:36
Construção
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A obra que liga as zonas Sul e Leste de Joinville chegou à metade do cronograma. A parte mais complexa, porém, está fora de vista: fundações que precisaram descer dezenas de metros até encontrar rocha firme o suficiente para sustentar um vão sem pilar no meio do rio.
A ponte dupla de 980 metros que está sendo construída em Joinville terá estacas de até 39 metros escavadas no solo, conforme informações apresentadas pela Secretaria de Infraestrutura Urbana na Câmara de Vereadores e detalhadas em coluna assinada por Saavedra no NSC Total. O estaqueamento foi um dos pontos da prestação de contas sobre o andamento da obra, orçada em R$ 395,3 milhões e com entrega prevista para outubro de 2027.
A execução está em 50% do previsto. Metade do dinheiro e do esforço já aplicados sustentam uma estrutura que, em boa parte, o motorista jamais vai ver, porque está enterrada no solo do vale do rio Cachoeira. É justamente essa parte invisível que explica o atraso no cronograma e o tamanho do desafio técnico.
O que são as estacas e por que elas decidem a obra
Estaca é o elemento de fundação profunda que transfere o peso da estrutura para camadas resistentes do subsolo. Em terreno firme, ela pode ser relativamente curta. Em áreas de solo mole, comum em várzea de rio, é preciso descer até encontrar material capaz de suportar a carga sem recalque, ou seja, sem que a estrutura afunde com o tempo.
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No caso desta obra, a solução adotada é a estaca escavada, em que se abre o furo no terreno e depois se preenche com concreto e armadura, diferente da estaca cravada, que é martelada para dentro do solo. A escolha muda tudo em terreno com rocha, porque permite atravessar camadas irregulares e chegar ao ponto exato onde o material se torna confiável.
O ponto que a apresentação deixou claro é que a profundidade não foi definida em prancheta e cumprida à risca. Ela foi determinada em campo, à medida que a escavação avançava e o solo era avaliado, até que se encontrasse rocha com consistência adequada.
Trinta e sete metros nos apoios centrais e sete deles dentro da rocha
Os apoios 9 e 10, que sustentam o vão central da estrutura, concentram a parte mais crítica das fundações. Cada um deles tem 37 metros de estacas no solo, número que inclui um segmento em zona de transição e o trecho final.
Esse trecho final é o dado técnico mais relevante do conjunto. Sete metros de cada estaca foram escavados em rocha sã, ou seja, na camada rochosa íntegra, sem alteração por intemperismo. É o segmento mais profundo e o que efetivamente ancora a estrutura, porque é ali que a carga encontra material capaz de recebê la sem deformação.
Escavar em rocha sã é operação lenta e cara. O avanço por dia cai drasticamente em comparação com solo, o desgaste de ferramenta é alto e cada metro exige verificação. Sete metros dentro dessa camada, multiplicados pelo número de estacas de dois apoios de uma ponte dupla, ajudam a dimensionar por que essa fase consumiu tanto tempo.
Neste momento, um dos apoios já avançou para a etapa seguinte e está recebendo as aduelas de arranque, segmentos de concreto instalados na vertical que marcam o início do crescimento da estrutura acima do nível do terreno.
O apoio 11 e os 39 metros que dão o recorde
Vizinho às estruturas centrais, o apoio 11 é o que chega mais fundo de toda a obra, com estacas de 39 metros de profundidade. É esse número que serve de referência para dimensionar a escala do que está enterrado.
Trinta e nove metros equivalem, em altura, a um edifício de aproximadamente 13 andares. A imagem ajuda porque inverte a percepção usual: em vez de uma torre subindo, trata se de uma coluna descendo, invisível, sob o nível da rua.
Vale registrar que a variação de profundidade entre apoios vizinhos não é falha de projeto. Camada rochosa não é uma linha reta debaixo da terra, e é comum que a rocha apareça a profundidades diferentes em pontos separados por poucas dezenas de metros. Cada apoio precisa descer até encontrar a sua.
Por que a escavação precisou ir mais fundo do que o previsto
A necessidade de escavar em maior profundidade na área dos apoios centrais foi um dos principais motivos apresentados pela prefeitura para a prorrogação do contrato, que inicialmente iria até maio deste ano. A busca por solo com rocha mais consistente empurrou o cronograma.
Esse não foi o único fator citado ao longo da obra. Entre os desafios relatados pela administração municipal estão a demora na implantação dos canteiros, a liberação da área da Vila dos Pescadores, no bairro Boa Vista, e a execução não prevista de caminho de serviço. O termo aditivo publicado pela prefeitura prorrogou o prazo de entrega em 16 meses, fixando outubro de 2027 como nova data, com vigência contratual até dezembro do mesmo ano.
Houve ainda uma mudança de método provocada pelas condições do rio. O plano original previa o uso de balsas para o bombeamento de concreto, solução substituída por linhas de concreto em razão do assoreamento do Cachoeira. Obra grande raramente atrasa por um motivo só, e neste caso o subsolo dividiu a responsabilidade com a logística e com a liberação de área.
O vão de 160 metros que explica a exigência das fundações
Existe uma razão de projeto para tanta profundidade nos apoios centrais, e ela está acima da linha d’água. A estrutura terá um vão livre de 160 metros sobre o rio Cachoeira, sem nenhum pilar no meio do curso.
Esse trecho será executado pelo método de balanços sucessivos, em que a estrutura cresce horizontalmente a partir dos apoios, em segmentos que avançam de cada lado até se encontrarem no centro. Durante toda a execução, o peso do trecho suspenso se concentra nos apoios que estão sendo usados como base.
Daí a exigência. Um vão sem pilar no meio transfere para as extremidades toda a carga que um apoio intermediário absorveria, e essa carga precisa terminar em algum ponto do subsolo capaz de recebê la. Os sete metros dentro da rocha sã existem por causa dos 160 metros vencidos sobre a água.
Os blocos que distribuem o peso para as estacas
Entre as estacas e os pilares existe uma peça intermediária que já entrou em execução. São os blocos de fundação, estruturas de concreto responsáveis por receber a carga dos pilares e distribuí la entre as estacas profundas.
Os blocos executados do lado do bairro Boa Vista têm 3,5 metros de profundidade, e cada um consome 454 metros cúbicos de concreto, volume que equivaleria à carga de 57 caminhões betoneira se o material fosse transportado da forma convencional. Como a ponte é dupla, cada apoio central conta com dois blocos.
O concreto chega bombeado diretamente para dentro da escavação, solução adotada depois da mudança no método de abastecimento. É uma etapa que não admite interrupção longa, porque a concretagem de peças desse porte precisa manter continuidade para evitar juntas frias no interior do bloco.
O que a estrutura vai ser quando ficar pronta
Acima do solo, o projeto prevê aproximadamente 980 metros de comprimento e 26 metros de largura, com duas pistas para cada sentido, área de acostamento, ciclovia e calçada para pedestres. A ligação parte da avenida Alwino Hansen, no bairro Adhemar Garcia, atravessa o rio Cachoeira e se conecta ao sistema viário do Boa Vista, nas ruas São Leopoldo e São Borja.
A obra é executada pela Álya Construtora, vencedora da licitação, com recursos de financiamento internacional junto ao Fonplata, e é tratada pela prefeitura como a maior intervenção de mobilidade urbana da cidade.
A expectativa da administração municipal é de que cerca de 65 mil pessoas utilizem a estrutura diariamente, com efeito sobre usuários de quatro terminais de transporte coletivo. Segundo estimativas da prefeitura, cerca de 448 mil moradores das regiões próximas seriam beneficiados pela redução no tempo de deslocamento entre as zonas Leste e Sul.
Uma demanda que atravessa seis décadas
O projeto não nasceu nesta gestão nem nesta década. A necessidade de uma ligação direta entre as zonas Sul e Leste já aparecia no primeiro plano urbanístico da cidade, elaborado nos anos 1960, quando Joinville tinha uma fração da população atual.
O traçado da estrutura foi definido em 1974 e passou por revisão em 2008. Entre a primeira menção ao problema e o início efetivo das obras, em junho de 2024, transcorreram mais de cinco décadas de discussão, projeto e adiamento.
Esse histórico coloca o atraso atual em perspectiva. Um contrato prorrogado em 16 meses pesa pouco diante de um problema urbano que atravessou sessenta anos sem solução, ainda que a espera continue sendo real para quem faz o contorno diariamente entre os dois lados do rio.
A engenharia que ninguém vai fotografar
Quando a estrutura estiver liberada, o que vai aparecer nas fotos é o tabuleiro, o vão sobre o rio e a silhueta dos pilares. Nada disso indicará que existem colunas de concreto descendo até 39 metros, com trechos finais cravados dentro de rocha íntegra.
Esse é o padrão da engenharia de fundações: quanto melhor executada, menos ela é percebida. Recalque, trinca e desnível são as formas pelas quais uma fundação mal resolvida se torna visível, e o objetivo do projeto é exatamente que isso nunca aconteça ao longo da vida útil da estrutura.
E você, imaginava que uma ponte precisa de estruturas equivalentes a um prédio de 13 andares enterradas para ficar de pé? Acha que o atraso de 16 meses se justifica pela complexidade técnica ou que faltou estudo de solo antes de começar? Conta nos comentários o que você espera dessa obra.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

