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Porteiro que há mais de doze anos abria o portão de uma faculdade particular da Serra voltou a estudar aos 54, usou o desconto de funcionário e as folgas do expediente e se formou em Direito na mesma instituição que vigiava, emendou três pós-graduações e agora estuda para a OAB aos 64 anos

Porteiro que há mais de doze anos abria o portão de uma faculdade particular da Serra voltou a estudar aos 54, usou o desconto de funcionário e as folgas do expediente e se formou em Direito na mesma instituição que vigiava, emendou três pós-graduações e agora estuda para a OAB aos 64 anos

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Porteiro que há mais de doze anos abria o portão de uma faculdade particular da Serra voltou a estudar aos 54, usou o desconto de funcionário e as folgas do expediente e se formou em Direito na mesma instituição que vigiava, emendou três pós-graduações e agora estuda para a OAB aos 64 anos

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 31/07/2026 às 09:03

Curiosidades

Porteiro de faculdade na Serra voltou a estudar aos 54, se formou em Direito na instituição onde trabalha, fez três pós e agora se prepara para a OAB.

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Darlivan Caetano largou a escola aos 17 anos, perdeu um cargo público federal para as drogas e chegou a viver na rua. Contratado como porteiro em 2007, virou aluno da própria faculdade onde trabalhava, concluiu a graduação em Direito e não parou por aí.

Darlivan Caetano trabalhava como porteiro em uma faculdade particular no município da Serra, no Espírito Santo, quando decidiu voltar a estudar aos 54 anos, conforme reportagem publicada pelo portal Metrópoles e por outros veículos que acompanharam o caso, entre eles A Gazeta, em entrevista conduzida pela repórter Naiara Arpini para a TV Gazeta. Ele se formou bacharel em Direito na mesma instituição em que batia ponto na guarita.

Aos 64 anos, quando a história ganhou repercussão nacional, ele já tinha concluído três cursos de pós-graduação e seguia estudando para o exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Continuou trabalhando como porteiro enquanto isso, e passou a prestar serviços de consultoria jurídica. O ponto de partida dessa trajetória, porém, está bem longe da sala de aula.

O fundo do poço que quase encerrou a história

Darlivan cresceu em uma família humilde de sete filhos, criado na periferia capixaba. Ainda jovem, envolveu se com drogas e álcool, e o quadro se agravou a ponto de custar tudo o que ele havia construído. Chegou a viver na rua, desenvolveu cirrose e perdeu a memória em determinado período.

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O detalhe mais duro dessa fase é o que ele mesmo faz questão de contar: era funcionário público federal concursado e perdeu o emprego por causa do vício. Não se trata de alguém que nunca teve oportunidade, e sim de alguém que teve e a viu escorrer pelos dedos, o que costuma ser uma ferida bem mais difícil de fechar.

Ele também descreve como as pessoas do bairro o enxergavam naquele momento, com o veredito já dado de que não havia mais recuperação possível. A retomada veio depois, sem holofote e sem atalho, e o primeiro passo concreto foi um emprego comum.

O emprego na portaria e o convite que ele recusou de primeira

Em 2007, Darlivan foi contratado como porteiro da Rede Doctum, que mantém a unidade da Serra onde ele passou a trabalhar. A rotina era a de qualquer portaria de instituição de ensino: controlar o fluxo de entrada, dar conta do horário de pico e observar centenas de alunos passando pelo mesmo portão todos os dias.

Foi exatamente essa observação que plantou a ideia. Ver o vaivém de estudantes acordou nele o desejo antigo de concluir uma faculdade, sonho que havia ficado para trás décadas antes. A equipe pedagógica da instituição chegou a perguntar diretamente se ele tinha vontade de estudar.

A primeira resposta foi não. O que mudou a decisão foi uma informação prática, e não um discurso motivacional: ele descobriu que teria direito a uma bolsa de 70% de desconto na mensalidade por ser funcionário. Com o custo reduzido a menos de um terço, o que parecia impossível virou uma conta que cabia no orçamento.

O EJA aos 54 e o retorno à sala de aula

Darlivan foi o primeiro de sua família a concluir o ensino superior

Havia um obstáculo anterior à graduação. Darlivan tinha apenas o ensino fundamental, porque havia largado os estudos aos 17 anos. Sem ensino médio, não havia vestibular possível, então ele começou pelo começo.

Em 2011, matriculou se em uma turma de Educação para Jovens e Adultos para concluir o ensino médio. Tinha 54 anos e voltava a sentar em uma carteira escolar depois de mais de três décadas fora, intervalo que ele descreveu como o maior desafio que já havia enfrentado.

Concluído o ensino médio, veio o apoio de alunos e de colegas de trabalho para dar o passo seguinte. Ele prestou o vestibular da instituição e foi aprovado para o curso de Direito. O porteiro que abria o portão para os alunos passou a atravessá lo com a mesma matrícula que eles.

Cinco anos de graduação com o livro entre um turno e outro

A rotina que sustentou o curso é o trecho mais concreto da história. A graduação em Direito durou cinco anos, e durante todo esse período Darlivan seguiu na portaria, sem trocar o emprego pelo estudo.

O método era simples e exigia disciplina. Na chegada dos alunos, a atenção precisava ser total, porque é o momento de maior movimento e o trabalho não admite distração. Depois que as turmas estavam acomodadas em sala, o ritmo afrouxava, e era nessa janela que ele abria os livros. A folga do expediente virou horário de estudo, e não intervalo de descanso.

As noites completavam o esforço. Ele contou que chegava a dormir sentado na frente do computador e recorria a café em quantidade para aguentar a madrugada. A parte mais difícil do curso, segundo o próprio relato, foi a teoria dos primeiros períodos, com volume de leitura que costuma derrubar estudante em tempo integral, quanto mais quem cumpre jornada de trabalho.

A bolsa de 70% e o que ela representa nessa conta

O desconto de funcionário é o elemento que raramente aparece nas histórias de superação, mas que aqui foi decisivo. Sem ele, a mensalidade de um curso de Direito em faculdade particular seria incompatível com o salário de um porteiro, e a trajetória provavelmente teria parado no ensino médio.

Vale nomear o mecanismo com precisão: não foi caridade nem exceção criada para ele, e sim um benefício disponível a quem trabalha na instituição. A oportunidade existia antes dele e continuou existindo depois, o que diz algo sobre o peso de políticas internas de acesso à educação dentro das próprias empresas.

O que Darlivan fez de diferente foi transformar o benefício em resultado. Descontos existem em muitos lugares e são pouco usados, e o intervalo entre ter o direito e concluir cinco anos de curso é preenchido por rotina, cansaço e persistência.

O grupo de cinco colegas e as notas que ninguém esperava

“Meus colegas de sala e os professores me ajudaram muito”, afirma Darlivan

A graduação não foi solitária. A partir do segundo período, ele formou com outros quatro estudantes um grupo fixo para os trabalhos do curso, arranjo que se manteve até depois da formatura. Esse núcleo foi apontado por ele como um dos pilares que o sustentaram durante a caminhada.

O desempenho acadêmico chamou atenção dentro da instituição. Ele atravessou a graduação sem ficar de recuperação em nenhuma disciplina, resultado que atribuiu a ter assumido a responsabilidade pela escolha e a querer muito ser aprovado.

O professor Felipe Sardenberg Machado registrou o efeito dessa dedicação sobre a turma. Um homem com mais idade, trabalhando ao mesmo tempo em que estudava e começando o ensino superior tanto tempo depois da idade convencional, transformava esforço em boas notas e virava referência para colegas mais jovens e para os próprios docentes. A presença dele na sala mudava a régua de quem reclamava do cansaço.

Três pós-graduações e a preparação para o exame da OAB

“Família pobre, meu pai era pintor e minha mãe passadeira de roupas”, diz Darlivan

O diploma de bacharel não encerrou o ciclo. Depois da colação de grau, Darlivan emendou três cursos de pós-graduação na área jurídica, mantendo o mesmo padrão de estudo em paralelo ao trabalho.

Em seguida, passou a se preparar para o exame da Ordem dos Advogados do Brasil, prova aplicada em duas etapas, com fase objetiva e fase prático profissional, e requisito obrigatório para quem quer exercer a advocacia. Enquanto estuda, continua na portaria e presta serviços de consultoria jurídica, atuando na área em que se formou.

A justificativa que ele dá para não parar tem lógica profissional, e não apenas emocional. Leitura e atualização constantes fazem parte do ofício de quem trabalha com Direito, e quem não acompanha as mudanças fica para trás. O estudo, que começou como sonho pessoal, virou exigência de carreira.

O que essa trajetória mostra sobre voltar a estudar depois dos 50

A história tem elementos que a tornam viral com facilidade, mas os detalhes práticos são o que interessam a quem está na mesma situação. O caminho não começou pela faculdade: começou pelo EJA, modalidade desenhada exatamente para quem interrompeu a escolarização e precisa retomar sem voltar ao formato infantil da escola regular.

O segundo elemento é o benefício de estudo oferecido pelo empregador, que existe em muitas instituições de ensino e em outras empresas, e costuma ser subutilizado por quem nem chega a perguntar se tem direito. O terceiro é a estrutura de apoio, formada por colegas de trabalho, professores e um grupo de estudos fixo.

Nenhum desses três elementos é extraordinário. O que foi extraordinário é ter sustentado a rotina por mais de dez anos, do primeiro dia de EJA até a terceira pós-graduação, sem largar o emprego e carregando um passado que muita gente usaria como justificativa para desistir.

Do portão à sala de aula, no mesmo endereço

Há uma simetria na história que explica boa parte da repercussão. O prédio que Darlivan vigiava é o mesmo em que assistiu às aulas, defendeu trabalhos e recebeu o diploma. O portão que ele abria para os outros abriu se para ele.

Aos 64 anos, quando a trajetória virou notícia, ele mantinha as duas identidades ao mesmo tempo: o funcionário que os alunos cumprimentam na entrada e o bacharel em Direito com três especializações, preparando se para a prova que dá acesso à carreira.

E você, voltaria a estudar depois dos 50 se aparecesse a oportunidade? Já deixou de aproveitar um benefício de estudo da empresa por achar que não era para você? Conta nos comentários o que te impede de retomar aquele curso que ficou pelo caminho.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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