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Poucos imaginam, mas a maior fortaleza portuguesa fora da Europa tem muralhas de 7 metros de 1783, 970 metros de perímetro e está de pé desde no coração da Amazônia
Escrito por Romário Pereira de Carvalho
Publicado em 22/07/2026 às 19:15
Atualizado em 22/07/2026 às 19:16
Curiosidades
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Construído às margens do rio Guaporé, o Real Forte Príncipe da Beira revela engenharia militar, disputa territorial, trabalho escravizado, abandono, redescoberta e preservação histórica na fronteira entre Brasil e Bolívia ao longo de 250 anos
Com muralhas de aproximadamente sete metros e 970 metros de perímetro, o Real Forte Príncipe da Beira foi inaugurado em 1783 às margens do rio Guaporé, em Costa Marques, Rondônia. Considerada a maior edificação militar portuguesa fora da Europa, a fortaleza ajudou Portugal a consolidar sua presença na fronteira com a atual Bolívia.
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Erguida para proteger o território português
A construção da fortaleza está ligada à disputa territorial entre Portugal e Espanha na América do Sul. O Tratado de Madrid, assinado em 1750, passou a reconhecer a ocupação efetiva como critério para definir a posse das terras.
Para fortalecer o domínio português sobre a bacia do Guaporé, a Coroa iniciou um projeto de colonização da Amazônia sob orientação do Marquês de Pombal. A região tinha importância estratégica por estar próxima dos territórios controlados pela Espanha.
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Antes do atual forte, havia no local o Forte de Nossa Senhora da Conceição. A estrutura foi destruída por uma enchente do rio Guaporé em 1771, obrigando o governo colonial a procurar outra área.
O governador da Capitania de Mato Grosso, Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, escolheu um terreno localizado cerca de 1.500 metros distante do antigo forte. A pedra fundamental foi lançada em 20 de junho de 1776.
A obra da Fortaleza foi oficialmente inaugurada em 20 de agosto de 1783. Desde então, o Real Forte Príncipe da Beira permanece na margem direita do Guaporé, diante da fronteira entre o Brasil e a Bolívia.
Muralhas, baluartes e canhoneiras formavam uma cidade de pedra
O projeto adotou o estilo Vauban, modelo de fortificação desenvolvido pelo arquiteto militar francês Sébastien Le Prestre de Vauban no século XVII e utilizado como referência na engenharia defensiva europeia.
A planta forma um quadrado com 970 metros de perímetro. As muralhas alcançam aproximadamente sete metros de altura e possuem quatro baluartes nos cantos, preparados para receber 14 canhoneiras cada um.
Os baluartes receberam os nomes de Nossa Senhora da Conceição, Santa Bárbara, Santo Antônio de Pádua e São José Avelino. Um fosso profundo, abastecido pelas águas do Guaporé, cercava toda a fortificação.
O único acesso ao interior era uma ponte elevadiça de três metros instalada na muralha norte. Dentro da estrutura havia capela, residências de oficiais, armazéns, depósitos, alojamentos, prisão, poço e outras instalações.
O conjunto funcionava como uma pequena cidade fortificada. Estimativas históricas indicam que aproximadamente 800 pessoas chegaram a viver dentro da construção durante o período de maior atividade.
Construção da Fortaleza custou cerca de 48 mil contos de réis
O Governo de Rondônia estima que a construção tenha custado aproximadamente 48 mil contos de réis, valor considerado extraordinário para o século XVIII, principalmente pelas dificuldades de erguer uma estrutura desse porte em plena floresta.
A pedra canga utilizada nas muralhas foi retirada da própria região e trabalhada em blocos de meio metro. O calcário empregado na obra veio de Vila Bela, antiga capital de Mato Grosso, e do Grão-Pará.
A mão de obra reuniu portugueses, indígenas e pessoas escravizadas. Pesquisas históricas citadas pelo governo estadual apontam que centenas de trabalhadores morreram durante a construção, principalmente em consequência da malária.
O engenheiro italiano Domingos Sambuceti, primeiro diretor dos trabalhos, morreu em 1780 após contrair a doença. A direção da obra passou então para o capitão Ricardo Franco de Almeida Serra.
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Fortaleza foi tomada pela mata e redescoberta no século XX
Com a perda de sua função militar, o forte ficou abandonado e acabou coberto pela vegetação. A estrutura foi encontrada em 1914 por uma expedição militar comandada pelo marechal Cândido Rondon.
Em 24 de abril de 1930, Rondon coordenou a limpeza da área. Dois anos depois, o Exército Brasileiro instalou no local o Primeiro Pelotão Especial de Fronteira, conhecido como Sentinela do Guaporé.
O Real Forte Príncipe da Beira foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 7 de agosto de 1950, passando a integrar oficialmente o Patrimônio Cultural Brasileiro.
Pesquisas arqueológicas iniciadas em 2008 localizaram estruturas como paiol e estábulo. Também foram encontrados fragmentos de louças portuguesas, vidros, metais, cerâmicas indígenas e vestígios de ocupações pré-coloniais e afro-brasileiras.
No entorno vive uma comunidade quilombola reconhecida pela Fundação Cultural Palmares em 19 de agosto de 2005.
Os moradores são descendentes de pessoas escravizadas ligadas à construção e à ocupação histórica da região.
Representada pela Associação Quilombola do Forte, a comunidade participa das atividades turísticas, inclusive com moradores trabalhando como guias. O espaço também permanece ocupado pelo Pelotão de Fronteira do Exército.
Durante julho, quando o nível do Guaporé baixa, pedras com inscrições rupestres ficam visíveis nas margens. Os registros indicam a presença de populações na região antes da chegada dos colonizadores portugueses.
Esta matéria foi elaborada com base em informações do Governo do Estado de Rondônia, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e da Fundação Cultural Palmares, com dados, números e declarações preservados conforme o material consultado.
Fonte
https://www.brasil247.com
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Romário Pereira de Carvalho.

