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Produtor de Minas não achava máquina para abacaxi, começou a construir as próprias com sucata num galpão de fazenda e hoje produz cinco por mês e exporta para Taiwan
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 31/07/2026 às 13:24
Atualizado em 31/07/2026 às 13:31
Agronegócio
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Sem máquina adequada no mercado, o produtor de Minas Wagner Guidi começou a montar as próprias com peças velhas guardadas no barracão da fazenda, em Aparecida de Minas, distrito de Frutal. A Motoagro nasceu daí e hoje vende equipamentos para produtores de vários estados e até para Taiwan.
A mecanização do abacaxi é um problema mal resolvido no Brasil. Enquanto soja, milho e cana têm parque industrial inteiro dedicado a elas, quem planta abacaxi ainda depende de trabalho braçal em boa parte das etapas, o que encarece a operação e esbarra na escassez de mão de obra no campo. Foi esse impasse que levou o produtor de Minas Wagner Guidi, de Aparecida de Minas, distrito de Frutal, no Triângulo Mineiro, a construir os próprios equipamentos com peças antigas guardadas no barracão da fazenda.
O que começou como improviso virou empresa. A Motoagro foi fundada em 2006, funciona na própria propriedade e hoje produz cerca de cinco máquinas por mês em estrutura industrializada, com corte a laser e componentes padronizados, segundo reportagem publicada pelo Compre Rural em 26 de fevereiro de 2026 e matérias anteriores das revistas Campo & Negócios e Dinheiro Rural. Os equipamentos já foram exportados para Taiwan.
O gargalo que motivou tudo
Guidi começou a plantar abacaxi em 1984, parou por falta de retorno e voltou à cultura por volta de 1997. A área era pequena e ele contava com um único funcionário, situação que tornava o trabalho insustentável no ritmo manual. Em meados de 2005, conforme relato dele à revista Dinheiro Rural, as ferramentas disponíveis na lavoura se resumiam a um pulverizador costal e um carrinho de mão para distribuir adubo.
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O abacaxi tem particularidades que explicam o atraso na mecanização. É uma cultura de ciclo longo, plantada em fileiras densas e baixas, com folhas serrilhadas que dificultam a passagem de equipamento e o trabalho manual. Cada muda precisa ser colocada em pé, na profundidade certa e no espaçamento certo. Nenhum fabricante grande via mercado suficiente para desenvolver máquina específica, e o produtor que quisesse mecanizar tinha de adaptar o que existia.
A primeira engenhoca foi uma moto
A solução inicial não veio de um trator. Guidi usou os conhecimentos de mecânica que já tinha e adaptou a uma moto um sistema de aplicação de defensivos, capaz de pulverizar até um hectare por hora e depositar adubo bem próximo à planta. Esse foi o primeiro protótipo do que viria a ser a marca, e o nome da empresa carrega essa origem.
O ganho não foi só de velocidade. Aplicar insumo perto da planta, em dose controlada, reduz desperdício e melhora o aproveitamento do produto, o que corta custo em uma cultura sensível a variação de margem. O equipamento chamou atenção dos vizinhos, que passaram a pedir cópias. Foi aí que o barracão da fazenda deixou de ser oficina de conserto e virou linha de montagem improvisada.
A plantadora levou cinco anos e cinco protótipos
O segundo problema era mais duro: plantar. Guidi desenvolveu uma plantadora de mudas acoplada ao trator, na qual operadores encaixam as mudas em um sistema que abre o sulco, aplica adubo, inseticida e fungicida na base da planta e deposita a muda já em pé, enfileirada e alinhada, com regulagem de espaçamento e profundidade.
Chegar ao modelo funcional exigiu cinco anos de testes e cinco protótipos diferentes. O produtor descreve o momento em que soube que daria certo com uma frase simples: quando conseguiu colocar três mudas em pé com a máquina, concluiu que tinha conseguido. A empresa apresenta o equipamento como a primeira plantadora de mudas de abacaxi do mundo, e trabalha com versões de duas e de quatro linhas, nas linhas PMA 1500 e PMA 1800.
O que os números realmente dizem
Aqui vale ler com atenção. A comparação que circula é de 3.600 mudas plantadas por hora com a máquina contra cerca de 3 mil mudas por dia inteiro no sistema manual. O salto parece impossível, e por isso convém entender a base do cálculo.
Os dados divulgados pela própria empresa ajudam a dimensionar. O rendimento informado é de 30 a 35 mil plantas por turno de serviço, operando com três colaboradores. Ou seja, a comparação não é de uma pessoa contra uma máquina: é de um trabalhador sozinho contra uma equipe de três pessoas mais o trator e o implemento. Mesmo ajustando por isso, o ganho continua expressivo, na casa de dez vezes por pessoa envolvida, mas o número redondo de 3.600 por hora precisa desse contexto para não virar propaganda.
Do barracão a uma pequena indústria
A estrutura mudou de patamar com o tempo. O que era montagem artesanal com peças reaproveitadas passou a contar com corte a laser, componentes já montados e organização de produção, o que trouxe padronização, acabamento e confiabilidade aos equipamentos. A produção atual é de cerca de cinco máquinas por mês.
Vale registrar que a expansão não é recente. Já em 2017, reportagem da revista Dinheiro Rural informava que a produção acumulada havia chegado a 170 unidades, com receita de 270 mil reais, e que as máquinas já eram vendidas a produtores de Minas Gerais, Maranhão, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul. A mesma matéria registrava que o equipamento estava patenteado e que havia outros onze pedidos de patente em andamento.
O catálogo já foi muito além do abacaxi
O portfólio cresceu para além da fruta que originou tudo. A empresa lista, entre outros itens, um trator compacto capaz de fazer adubação e pulverização, podadora vertical, roçadora, sulcador que pulveriza fungicida, aduba e marca as covas, e uma garra usada para abastecer a transplantadora ou o caminhão.
Fora do abacaxi, o produtor de Minas passou a fabricar plantadoras de mudas de café, eucalipto e banana, além de dois equipamentos voltados à cana de açúcar, um para mudas pré brotadas e outro para toletes. A ambição declarada por ele em entrevistas anteriores é desenvolver uma colhedeira de abacaxi, etapa que segue sendo a mais dependente de trabalho manual na cultura.
Taiwan e o que se sabe sobre a exportação
A exportação para Taiwan é o dado que mais chama atenção e também o menos detalhado nas reportagens disponíveis. O que está publicado é que os equipamentos desenvolvidos em Frutal já chegaram ao país asiático, tradicional produtor de abacaxi e de alto nível tecnológico no campo.
Não há, nas matérias consultadas, informação sobre quantas unidades foram embarcadas, em que ano começou o envio, qual o valor das operações ou se o fornecimento é recorrente. Por isso este texto não afirma volume de exportação: o que a fonte sustenta é que houve venda para Taiwan, e não que a produção mensal inteira siga para lá.
O ganho de 20% e a ressalva necessária
A reportagem original cita um aumento de produtividade de cerca de 20% após a mecanização, atribuído a um produtor identificado apenas como Júlio, que usa os equipamentos. É um número plausível, coerente com a ideia de aplicação mais precisa de insumos e plantio mais uniforme.
Mas é preciso ser claro sobre a natureza do dado: trata se do relato de um cliente, não de um ensaio agronômico com área controlada, repetição e testemunha. Ganho de produtividade em fruticultura depende de variedade, solo, clima, manejo e ano agrícola, e um único depoimento não estabelece média para a cultura. O caso continua sendo interessante mesmo com essa ressalva. Ele apenas não deve ser lido como resultado de pesquisa.
E você, conhece algum produtor que resolveu um problema da lavoura inventando a própria máquina? Conta aqui nos comentários que gambiarra do campo virou solução de verdade na sua região, e se você acha que falta indústria nacional voltada para culturas menores.
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máquina
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

