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Puxando areia de Caçapava para São Paulo com carga cheia e 400 quilômetros por dia, caminhoneiro que começou na estrada aos 14 anos filmou às 3 da manhã o hodômetro do próprio Scania de 1999 bater 2 milhões de quilômetros sem nunca ter aberto o bloco
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 25/07/2026 às 23:57
Curiosidades
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Foram 25 anos com o mesmo veículo, comprado zero na concessionária em janeiro de 1999 e mantido em rota fixa entre o Vale do Paraíba e a capital paulista. O caminhoneiro afirma nunca ter feito retífica completa e diz que bloco, virabrequim e câmbio seguem fechados desde a compra.
Walter Aparecido dos Santos filmou por volta das 3 horas da manhã, chegando a São Paulo, o momento em que o hodômetro do seu Scania 124 zerou pela segunda vez, marcando 2 milhões de quilômetros rodados. O caminhoneiro tinha 55 anos quando contou a história, em janeiro de 2024, e dirigia o mesmo caminhão desde janeiro de 1999, comprado zero quilômetro na concessionária, segundo relato publicado na Revista Jornada, da Scania, e reproduzido pelo jornalista Nelson Bortolin.
O trajeto que produziu essa quilometragem não tem nada de leve. Ele transporta areia da região de Caçapava, no interior paulista, até São Paulo, e volta carregado com resíduo metálico industrial, o que significa carga pesada nos dois sentidos. Mesmo com esse regime de trabalho, ele afirma que o motor nunca passou por retífica completa e que bloco, virabrequim e câmbio jamais foram abertos.
Três horas da manhã e o hodômetro virando tudo zero
O momento foi planejado. Walter acompanhava o painel e sabia mais ou menos quando o número viraria, então esperou chegar perto de São Paulo, reduziu a velocidade e ligou a câmera para registrar. Ele conta que dirigiu bem devagar só para conseguir gravar a virada.
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O detalhe técnico explica por que a cena impressiona quem entende de caminhão. O hodômetro do veículo tem seis dígitos, ou seja, para de contar em 999.999 e volta a zero. O que Walter filmou foi a segunda vez que o painel zerou, e é justamente isso que comprova a marca de 2 milhões de quilômetros.
Para o caminhoneiro, o registro em vídeo tinha peso simbólico. Não era só um número no painel, era a confirmação de um ciclo que começou em 1999 e atravessou a vida inteira dele desde então, incluindo a criação dos filhos e a construção do próprio patrimônio.
Areia na ida, resíduo metálico na volta
Assista o vídeo
A operação é de trecho fixo, sem variação de rota. O caminhão sai da região de Caçapava carregado de areia rumo à capital e retorna com resíduo metálico industrial. Não existe viagem vazia nesse esquema, o que muda completamente a conta de desgaste do conjunto mecânico.
O próprio motorista resume a rotina como um trabalho em que o veículo sempre andou muito pesado. Areia e sucata metálica estão entre as cargas mais densas do transporte rodoviário, o tipo de serviço que costuma cobrar caro de motor, embreagem, suspensão e freios.
Segundo o relato, o caminhoneiro faz em média três a quatro viagens por semana no trecho entre o Vale do Paraíba e São Paulo, percorrendo de 400 a 500 quilômetros por dia. É rodagem urbana e de rodovia pesada, não estrada aberta de longa distância, o cenário em que a durabilidade costuma ser mais difícil de sustentar.
Oitenta mil quilômetros por ano durante 25 anos
Vale fazer a conta que o relato não faz. Entre janeiro de 1999, quando o caminhão foi retirado zero na concessionária, e janeiro de 2024, quando a história foi contada, são exatos 25 anos. Dois milhões de quilômetros divididos por esse período dão uma média aproximada de 80 mil quilômetros por ano.
Traduzindo para uma escala menor, são cerca de 6,7 mil quilômetros por mês, todo mês, durante um quarto de século, sem trocar de veículo. E isso considerando um caminhão que trabalha carregado nas duas pontas do trajeto, o que torna a média ainda mais incomum.
Existe também a leitura geográfica desse número. Dois milhões de quilômetros equivalem a aproximadamente 50 voltas ao redor da Terra pela linha do Equador. O caminhoneiro percorreu essa distância inteira em um raio pequeno, indo e voltando pelo mesmo corredor entre o interior paulista e a capital.
Bloco, virabrequim e câmbio nunca abertos
Aqui está a afirmação central da história e também a mais difícil de acreditar para quem trabalha com frota. Walter diz que o caminhão nunca passou por uma retífica completa, contando apenas com manutenção preventiva e poucos reparos corretivos ao longo dos 25 anos.
Nas palavras dele, o motor nunca foi retificado nem retirado do lugar. “Bloco, virabrequim e câmbio nunca abri”, afirmou o motorista à Revista Jornada. Retificar um motor significa desmontá-lo para recuperar as medidas internas de cilindros, bronzinas e virabrequim, serviço que a maioria dos caminhões pesados enfrenta bem antes de chegar a essa quilometragem.
O ponto que mais chama atenção de mecânico, porém, não é o motor. É o câmbio fechado depois de 2 milhões de quilômetros carregando areia e sucata, porque a caixa de marchas é justamente o componente que mais sofre em operação pesada com trocas constantes. É importante registrar que essas informações partem do relato do proprietário, não de um laudo técnico independente.
O que é, afinal, um Scania 124
O modelo faz parte da Série 4, geração que começou a ser produzida no Brasil em fevereiro de 1998, dois anos depois de estrear na Europa. Foi a linha que substituiu a famosa Série 3, marcada pelo 113, e trouxe cabine nova, desenho mais arredondado e a entrada da eletrônica embarcada na marca.
A numeração segue a lógica da própria fabricante. O 124 indica o motor DSC12, um seis cilindros em linha de 11,7 litros, com turbo e intercooler, oferecido em versões de 360, 400 e 420 cavalos ao longo dos anos. A letra que acompanha o número indica a cabine: R para a avançada e T para a recuada, a bicuda que virou objeto de desejo entre os scaneiros.
Um detalhe de contexto ajuda a entender por que esse caminhão marcou época. A versão de 420 cavalos, com injeção eletrônica, chegou a ser o caminhão mais potente vendido no país no fim dos anos 1990. A Série 4 seguiu no mercado brasileiro até 2007, quando foi substituída pelas cabines P, G e R. O relato não informa qual das versões o caminhoneiro possui, então nenhuma potência específica pode ser atribuída ao veículo dele.
Do consórcio de 1994 ao roubo que deixou só um
A trajetória começou cedo e por herança de ofício. Walter subiu no caminhão aos 14 anos, seguindo os passos do pai, e acumulava mais de 40 anos de estrada quando deu a entrevista, aos 55.
A relação com a marca veio de uma decisão tomada no meio do caminho. Em 1994, ele fez consórcio em uma marca concorrente e foi contemplado na 57ª parcela. Na 58ª, optou por trocar a cota por um Scania, e anos depois, em janeiro de 1999, retirou o 124 zero quilômetro na concessionária.
Houve um período de crescimento e uma perda dura. O caminhoneiro chegou a ter três caminhões, depois comprou mais um e ficou com quatro veículos da marca. Ao longo do tempo, perdeu parte da frota em roubos na estrada, e o 124 foi o único que sobrou. Foi também o primeiro e único caminhão zero quilômetro que ele comprou na vida.
O caminhão mais velho que o filho
O apego não é figura de linguagem. Walter diz que o veículo é mais velho que o próprio filho e que foi ele que criou a família, garantindo a estabilidade financeira que a casa tem hoje. Em mais de duas décadas, o caminhão passou de ferramenta de trabalho a personagem da história pessoal.
Há também a memória dos momentos difíceis. Ele conta que o 124 o segurou nas piores horas da vida, inclusive no período em que perdeu os outros veículos, e classifica o caminhão como um veículo que não dá trabalho, no vocabulário direto de quem vive de rodar.
Sobre o futuro, a posição é firme e já vem com recado para interessados. O caminhoneiro afirma que não pretende vender, usa o ditado de não mexer em time que está ganhando e diz que o caminhão continuará na ativa. Quem esperava ver o Scania estacionado em um pátio de colecionador vai precisar esperar mais.
O que fica de 2 milhões de quilômetros
Vinte e cinco anos, um único caminhão, areia na ida, sucata na volta e um hodômetro que zerou duas vezes. A história do caminhoneiro do Vale do Paraíba coloca em xeque a ideia de que veículo pesado tem prazo curto de validade e joga a discussão para o lado que costuma incomodar: a disciplina da manutenção preventiva contra o hábito de só levar na oficina quando quebra.
E você, acredita que dá para chegar a 2 milhões de quilômetros sem abrir o motor? Qual foi a maior quilometragem que você já viu em um caminhão de verdade, e ele estava rodando ou parado esperando peça? Manutenção preventiva realmente compensa no bolso ou, no fim das contas, sai mais barato trocar de caminhão? Comente sua opinião, principalmente se você é caminhoneiro, mecânico ou dono de frota e tem número para colocar na mesa.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

