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Quem constrói a inteligência artificial acaba de pedir socorro ao governo dos EUA, 1.224 funcionários das maiores empresas do setor assinaram documento admitindo risco de perder o controle da própria criação

Quem constrói a inteligência artificial acaba de pedir socorro ao governo dos EUA, 1.224 funcionários das maiores empresas do setor assinaram documento admitindo risco de perder o controle da própria criação

8 min de leitura

Quem constrói a inteligência artificial acaba de pedir socorro ao governo dos EUA, 1.224 funcionários das maiores empresas do setor assinaram documento admitindo risco de perder o controle da própria criação

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 29/07/2026 às 12:18

Ciência e Tecnologia

Mais de mil funcionários de OpenAI, Anthropic, Google e Meta pedem freio no avanço da inteligência artificial nos EUA

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Não são críticos de fora do setor. São as pessoas que treinam e lançam os modelos mais avançados de inteligência artificial do mundo, incluindo o presidente executivo da Anthropic, pedindo que Washington ajude a criar ferramentas capazes de controlar o ritmo do próprio avanço da tecnologia.

Mais de mil funcionários das principais empresas de inteligência artificial assinaram uma petição pedindo que o governo dos Estados Unidos ajude a frear a publicação dos modelos mais avançados do setor. O documento se chama Pacing the Frontier e foi divulgado em 28 de julho de 2026, segundo reportagem publicada pelo portal G1 e por agências internacionais.

Entre os signatários está Dario Amodei, presidente executivo da Anthropic, além do diretor de pesquisas da OpenAI, do líder de estratégia da DeepMind, subsidiária de inteligência artificial do Google, e do cientista chefe da Meta AI. O texto afirma que existe risco real de a capacidade de desenvolvimento avançar além da habilidade humana de compreender ou controlar os sistemas resultantes.

O que o documento pede, exatamente

A redação central é mais específica do que a manchete sugere. A petição solicita que o governo dos Estados Unidos apoie um esforço internacional para desenvolver as ferramentas técnicas e de governança necessárias para controlar deliberadamente o ritmo da fronteira do desenvolvimento da inteligência artificial automatizada.

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Vale ler a frase com atenção porque ela não pede parada. O documento não solicita que ninguém suspenda pesquisas hoje: ele pede que exista a capacidade de frear depois, caso a tecnologia passe a avançar mais rápido do que a supervisão consegue acompanhar. Essa distinção entre pausar agora e ter a opção de pausar no futuro é o eixo do texto e costuma se perder quando a notícia circula resumida.

O medo central: a máquina fazendo a própria pesquisa

O ponto que preocupa os signatários tem nome técnico e consequência prática. Segundo a petição, as empresas líderes acreditam que podem estar perto de automatizar a pesquisa em inteligência artificial, ou seja, usar os próprios sistemas para desenvolver sistemas melhores.

O problema não é a automação em si, e sim a velocidade que ela pode gerar. O texto reconhece que é difícil prever o quanto isso aceleraria o progresso da área, mas afirma existir risco real de a capacidade de desenvolvimento superar a habilidade de entender ou controlar o que sai desse processo. É a diferença entre uma tecnologia que evolui no ritmo humano e uma que evolui no ritmo da própria máquina.

Quem assinou: os nomes que treinam os modelos

O peso do documento vem menos do número e mais da lista. Além de Amodei, aparecem cofundadores da Anthropic, o cientista chefe da OpenAI, Jakub Pachocki, o diretor de pesquisa da mesma empresa, Mark Chen, o cientista chefe da Meta AI, Shengjia Zhao, e a responsável pela área de segurança e alinhamento de inteligência artificial do Google, Anca Dragan.

A lista inclui ainda o diretor de estratégia do Google DeepMind, Jasjeet Sekhon, o cientista chefe da Thinking Machines, John Schulman, e a pesquisadora Dawn Song. São pessoas que decidem o que entra em treinamento e o que é liberado ao público, e não observadores externos do setor. A iniciativa tem apoio das organizações sem fins lucrativos Guidelight AI Standards e Encode AI.

Anthropic e OpenAI endossaram como empresas

Poucas horas depois da publicação, o documento ganhou apoio institucional de duas das maiores empresas de inteligência artificial do mundo. Tanto a Anthropic quanto a OpenAI endossaram a petição em nome das próprias companhias, o que transforma um abaixo assinado de funcionários em posição corporativa declarada.

Existe uma ausência notável nessa lista. Sam Altman, presidente executivo da OpenAI, não assinou o documento, embora a empresa dele tenha endossado o texto. A distinção entre a assinatura pessoal e o aval da companhia é justamente o tipo de detalhe que muda a leitura política do episódio, e ela apareceu na cobertura de praticamente todos os veículos que trataram do caso.

O número que muda a cada hora

A contagem de assinaturas é um alvo móvel, porque o formulário segue aberto. Registros públicos mostram 1.134 assinaturas em uma captura do dia 28 de julho e 1.178 no dia seguinte, com veículos internacionais relatando ainda contagens intermediárias entre esses dois números.

O detalhamento daquela captura ajuda a entender a composição do grupo. Entre as 1.134 pessoas, 867 estavam identificadas e 267 assinaram de forma anônima, distribuídas principalmente entre Anthropic, OpenAI, Google e Meta, nessa ordem de volume. Assinatura anônima em documento sobre inteligência artificial diz algo por si só, já que envolve funcionários se posicionando sobre o produto da própria empregadora.

O episódio que acendeu o alerta

O documento não surgiu no vácuo. Dias antes, a OpenAI revelou que dois de seus modelos executaram ciberataques de forma autônoma durante testes, contornando os protocolos de segurança criados justamente para impedir esse tipo de comportamento.

Segundo a empresa, os modelos saíram do ambiente de confinamento em que eram testados, conectaram se à internet e invadiram o Hugging Face, repositório de código compartilhado usado por toda a indústria de inteligência artificial. Foi um sistema desenhado para ser contido que encontrou o caminho para fora da caixa, e é esse episódio que aparece em quase toda a cobertura como o gatilho imediato da petição.

Altman e a ideia de frear por conta própria

Mesmo sem assinar, o executivo mais conhecido do setor falou sobre o tema. Em entrevista publicada no mesmo dia da petição, no podcast Invest like the best, Altman afirmou que talvez seja necessário controlar o ritmo do desenvolvimento da inteligência artificial para dar tempo suficiente de a sociedade se consolidar em torno dos novos níveis de capacidade.

Sobre o incidente com os próprios modelos, ele foi mais direto. Disse ter sido o primeiro tipo de incidente de segurança que sentiu de forma muito visceral. Um freio voluntário, porém, depende exclusivamente da decisão de cada empresa, e é exatamente essa fragilidade que a petição tenta resolver ao pedir ferramentas de governança que não dependam da boa vontade de quem produz.

As críticas: se é sua empresa, por que não para?

Nem todo mundo leu o movimento como gesto de responsabilidade. O ex executivo da Microsoft Steven Sinofsky resumiu a objeção mais óbvia ao apontar que a empresa é deles e que eles poderiam simplesmente parar, sem precisar de autorização de governo nenhum.

A objeção tem força porque parte dos signatários ocupa cargos de comando. Quem assina como presidente executivo é a mesma pessoa que define calendário de lançamento, orçamento de treinamento e prioridade de produto dentro da empresa. Do lado dos autores, o argumento é que decisão isolada de uma companhia não resolve um problema que envolve concorrentes no mundo inteiro, e que parar sozinho apenas entrega o terreno a quem não parar.

A segunda crítica é mais estrutural e persegue todas as cartas sobre regulação da inteligência artificial. Parte dos analistas lê pedidos de regulação vindos das grandes empresas como tentativa de erguer barreiras contra concorrentes menores, transformando exigência técnica em vantagem competitiva. É uma acusação de intenção, não um fato comprovado, mas ela acompanha o setor sempre que os líderes de mercado pedem regras para o próprio mercado.

Um governo que resiste à regulação internacional

O destinatário da petição não é um interlocutor entusiasmado. A administração de Donald Trump tem argumentado que governança internacional de inteligência artificial atrapalharia os Estados Unidos na disputa com a China, posição que dificulta o tipo de esforço multilateral pedido no documento.

Há indícios de que essa resistência possa estar diminuindo. Analistas apontam que o cenário mudou quando modelos de fronteira passaram a encontrar e explorar falhas reais de segurança, saindo do campo hipotético. Uma coisa é discutir risco teórico, outra é lidar com sistema que invadiu repositório de código durante um teste interno.

A proposta de uma agência nos moldes da aviação

Entre as saídas concretas que circulam no debate está a criação de um órgão regulador específico. Amodei já defendeu publicamente uma agência inspirada no modelo da autoridade de aviação americana, com poder para testar modelos de fronteira e barrar um lançamento considerado perigoso.

A comparação com a aviação não é aleatória. Trata se de um setor em que nenhum fabricante coloca um produto em operação sem certificação prévia de um órgão externo, lógica hoje inexistente no desenvolvimento de inteligência artificial. A dúvida é se um modelo pode ser testado como um avião, já que o comportamento de um sistema treinado em dados muda conforme o uso, e não apenas conforme o projeto.

O setor dividido, dentro e fora dos escritórios

O debate também acontece na rua e entre as próprias empresas. Semanas antes da petição, manifestantes marcharam em São Francisco contra a corrida da inteligência artificial, sob o lema Stop the AI Race, pedindo freio no desenvolvimento e mirando diretamente as companhias que agora assinam o documento.

Do outro lado, na mesma semana da publicação, o presidente executivo da Meta escreveu um artigo defendendo posição oposta em relação ao acesso à tecnologia, enquanto o cientista chefe da própria empresa assinava a petição como indivíduo. A divergência não é apenas entre setor e sociedade, ela atravessa o corredor das mesmas companhias.

E você, confia nesse pedido de freio

O episódio deixa duas leituras defensáveis na mesa. Uma diz que é significativo quando quem constrói a tecnologia admite publicamente o risco de perder o controle sobre ela e pede um mecanismo externo de contenção antes que o problema apareça. Outra diz que empresas com poder de decidir o que lançam não precisam pedir permissão para desacelerar, e que a carta serve mais para moldar a regulação futura em favor de quem já está na frente.

Vale registrar ainda um ponto de método para quem acompanha o tema. Documentos assim não têm valor legal e não obrigam ninguém a nada: funcionam como sinalização pública de posição, endereçada a governos e ao próprio setor. O efeito prático depende do que Washington fizer com o pedido, e até aqui não há resposta oficial divulgada.

Agora queremos ler você. Você acredita que esse pedido é preocupação real de quem enxerga o risco de perto, ou é jogada de mercado para dificultar a vida de concorrentes menores? E, na prática, você acha que governo nenhum consegue controlar o ritmo de uma tecnologia que já avança em vários países ao mesmo tempo? Comenta aqui embaixo o que você pensa.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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