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Realinhando uma rodovia na província de Shanxi, na China, operários furaram o chão e arqueólogos revelaram uma tumba da dinastia Ming de 400 anos, com 25 metros de extensão, dois caixões e móveis de madeira ainda intactos

Realinhando uma rodovia na província de Shanxi, na China, operários furaram o chão e arqueólogos revelaram uma tumba da dinastia Ming de 400 anos, com 25 metros de extensão, dois caixões e móveis de madeira ainda intactos

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Realinhando uma rodovia na província de Shanxi, na China, operários furaram o chão e arqueólogos revelaram uma tumba da dinastia Ming de 400 anos, com 25 metros de extensão, dois caixões e móveis de madeira ainda intactos

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 24/07/2026 às 13:33

Atualizado em 24/07/2026 às 13:39

Curiosidades

Tumba Ming de 400 anos com dois caixões e móveis de madeira intactos surgiu em obra de rodovia na China. Veja o que havia dentro e quem estava enterrado ali.

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O conjunto apareceu durante escavações ligadas ao realinhamento da Rodovia Nacional 108, no distrito de Xinfu. A tumba de tijolo tem corredor inclinado de 17 metros, câmara principal e câmara traseira, e guardava jarros de porcelana, candelabros, incensários, figuras de madeira pintadas e instrumentos de escrita.

Uma tumba de tijolo da dinastia Ming, construída para um funcionário da corte imperial e fechada há mais de quatro séculos, foi encontrada intacta a 300 metros a sudoeste da vila de Hexitou, no distrito de Xinfu, cidade de Xinzhou, na província chinesa de Shanxi. O sepultamento veio à luz em escavações conduzidas no segundo semestre de 2023 pelo Instituto Provincial de Arqueologia de Shanxi e pelo Instituto Municipal de Relíquias Culturais de Xinzhou, dentro do projeto de realinhamento da Rodovia Nacional 108, no trecho entre Shahe e Shilingguan.

O que estava lá dentro é o que torna o achado excepcional. Dois caixões de madeira decorados, móveis inteiros, jarros de porcelana lacrados e objetos de escrivaninha atravessaram 438 anos sem apodrecer, condição rara em toda a província. Inscrições nos caixões, no epitáfio e em um contrato de compra de terra identificaram o morto como Wang Luo, nascido em 1533 e falecido em 1588.

Vinte e cinco metros de estrutura sob o terraço

Tumba Ming de 400 anos com dois caixões e móveis de madeira intactos surgiu em obra de rodovia na China.

A tumba fica no terraço a oeste da vila, um terreno relativamente plano, mais alto do lado oeste e mais baixo do lado leste, com ravinas a cerca de 100 metros ao norte e ao sul. A construção soma aproximadamente 25,3 metros de comprimento total.

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A distribuição interna segue um padrão claro. Um corredor inclinado de 17 metros conduz à câmara funerária principal, que por sua vez dá acesso a uma câmara traseira menor. Nas laterais da câmara central há nichos escavados na alvenaria, usados para acomodar parte das oferendas.

A proporção diz muito sobre o esforço envolvido. Dois terços da extensão total da tumba são apenas caminho de acesso, trecho que precisou ser escavado, revestido e depois fechado. Nada disso servia ao morto: servia à ideia de que ele merecia uma entrada digna.

O portão de pedra que selou tudo por quatro séculos

A entrada foi fechada com um pórtico de pedra e um conjunto de portas duplas, elemento incomum em sepultamentos da mesma época na região. As peças são esculpidas com flores entrelaçadas, e o desenho geral do vão lembra um sinal de adição.

Esse tipo de vedação cumpre duas funções ao mesmo tempo. Sinaliza a posição social de quem foi enterrado ali, porque exigia pedreiro especializado e material caro, e funciona como barreira física contra umidade, raízes, animais e saqueadores, que é exatamente o motivo pelo qual o conteúdo chegou ao século 21 em condição tão boa.

Portas duplas em pedra são incomuns em tumbas da mesma região e do mesmo período, e é essa raridade que ajuda os arqueólogos a classificar o sepultamento como de alto status antes mesmo de ler qualquer inscrição. A arquitetura entrega a hierarquia antes do texto.

Dois caixões decorados com losangos dourados e flores

Na câmara principal estavam os dois caixões de madeira, cobertos por desenhos elaborados que incluem losangos dourados, folhas e flores. Um deles traz inscrição indicando que o ocupante havia sido incumbido pela dinastia Ming de servir à corte real como funcionário do palácio.

Os nichos ao lado guardavam o serviço de cerâmica. O nicho sul continha quatro jarros de porcelana e o nicho norte, cinco jarros e quatro garrafas, recipientes que preservavam grãos, óleos e outros líquidos depositados como oferenda funerária.

A presença de dois caixões dentro da tumba indica sepultamento duplo, prática corrente entre casais da elite Ming, em que marido e mulher dividiam a mesma câmara. O conteúdo dos jarros lacrados interessa particularmente aos pesquisadores, porque resíduos orgânicos preservados permitem identificar o que era cultivado, consumido e oferecido aos mortos naquela região do norte da China.

Altares, mesas e cadeiras que não deveriam ter sobrevivido

Tumba Ming de 400 anos com dois caixões e móveis de madeira intactos surgiu em obra de rodovia na China.

A câmara traseira funciona quase como um cômodo mobiliado. Ali estavam altares, mesas e cadeiras de madeira, além de candelabros, incensários e figuras de madeira pintadas.

O detalhe que impressiona os arqueólogos é justamente o material. Madeira é o primeiro item a desaparecer em sepultamento antigo, porque apodrece com umidade, é atacada por fungos e insetos e se desfaz sob pressão do solo. Encontrar mobiliário completo e reconhecível em uma tumba de mais de quatro séculos é, segundo o instituto responsável, raridade em toda a província de Shanxi.

A sobrevivência depende de um equilíbrio delicado no subsolo. Ambiente estável, seco o bastante para inibir fungos e vedado o suficiente para limitar a entrada de oxigênio e de microrganismos permite que fibras vegetais atravessem séculos. Basta uma infiltração persistente ou uma rachadura na alvenaria para que o mesmo conjunto vire pó em poucas décadas.

Tinteiros, pincéis e o retrato de um letrado

Entre os objetos recolhidos aparecem instrumentos de escrita: tinteiros, pincéis de caligrafia e porta-pincéis. São itens de escrivaninha, e não de decoração, e sinalizam a posição do morto dentro da cultura letrada do período Ming.

O conjunto conversa com o restante do enxoval. Quem enterrava um parente com mesa, cadeira, altar e material de escrita estava reproduzindo no subsolo o ambiente doméstico e profissional do vivo. A tumba não foi montada como depósito de riquezas, e sim como uma casa em miniatura, com os objetos organizados como estariam em uso.

Na administração imperial chinesa, domínio da escrita era pré-requisito de carreira. O sistema de exames selecionava funcionários pelo conhecimento dos clássicos e pela caligrafia, e por isso tinteiro e pincel funcionam, nesse contexto, como símbolo de cargo, do mesmo modo que uma toga identifica um magistrado.

Quem era Wang Luo

O ocupante foi identificado por três fontes escritas encontradas no próprio sepultamento: as inscrições nos caixões, o epitáfio gravado em estela de pedra na câmara traseira e um contrato de compra do terreno.

A datação é precisa por causa dessa combinação documental. Wang Luo nasceu em 1533 e morreu em 1588, no décimo sexto ano da era Wanli, aos 55 anos pelo calendário lunar chinês e 56 pelo ocidental. O contrato de compra de terra encontrado na tumba é um documento simbólico, comum em sepultamentos chineses, que registra a aquisição do terreno funerário junto às divindades do solo.

Ele era o terceiro irmão mais novo de Wang Zhi, eunuco de palácio conhecido em Xinzhou durante a dinastia Ming, e o próprio Wang Luo administrou a cidade a serviço da burocracia imperial. Lu Ning, vice-diretor do instituto de Xinzhou, aponta o sepultamento como evidência material valiosa para o estudo dos costumes funerários, da cultura do enterro e da disposição do mobiliário no período.

O conselho gravado no epitáfio

A estela de pedra encontrada na câmara traseira traz, além dos dados pessoais do morto, uma passagem em escrita Zhuan que foge do protocolo funerário e soa como advertência.

O texto recomenda que quem tomou dinheiro emprestado para enriquecer não seja arrogante, e que mude de postura e de cortesia ao tratar com pessoas de qualquer idade. É um conselho de conduta gravado para durar, dirigido menos ao morto e mais a quem viesse a ler, e oferece um raro vislumbre do código moral que circulava entre a elite administrativa chinesa do fim do século 16.

A escolha da escrita Zhuan reforça o tom. Trata-se de um estilo caligráfico arcaico, já em desuso corrente no século 16 e reservado a inscrições formais, selos e monumentos. Usar essa grafia em uma tumba equivale a escolher latim para uma lápide europeia: comunica solenidade e permanência, não conversa cotidiana.

Sessenta e seis tumbas e sítios de cinco mil anos no mesmo trecho

O sepultamento de Wang Luo não apareceu sozinho. As escavações ligadas ao realinhamento da rodovia revelaram, no mesmo distrito, dois sítios da cultura Longshan, que se desenvolveu entre 2900 e 2100 antes de Cristo, e vestígios do período dos Reinos Combatentes, entre 475 e 221 antes de Cristo.

O volume de sepultamentos também surpreende. Foram identificadas 66 tumbas de dinastias diferentes, incluindo Han, Tang, Jin, Yuan, Ming e Qing, o que transforma aquele trecho de estrada em um corte transversal de milênios de ocupação humana. A tumba Ming é a mais bem conservada de todas elas.

Um projeto de estrada no norte da China acabou entregando o registro mais completo já encontrado em Shanxi sobre como a elite Ming enterrava seus mortos. São 25,3 metros de estrutura de tijolo, um corredor de 17 metros, um pórtico de pedra com portas duplas esculpidas em flores, dois caixões pintados com losangos dourados, nove jarros e quatro garrafas de porcelana, mobiliário de madeira inteiro, instrumentos de caligrafia e uma estela que ainda dá conselhos a quem enriqueceu com dinheiro emprestado. Tudo lacrado desde 1588 e localizado a 300 metros de uma vila que seguiu a vida por cima, sem saber o que havia embaixo.

E você, acha que descobertas assim justificam atrasar obras de infraestrutura ou o cronograma deveria falar mais alto? Se um sítio desses aparecesse no traçado de uma rodovia brasileira, você aposta que ele seria escavado com esse cuidado? Conta nos comentários qual objeto da tumba você acharia mais impressionante ver de perto: os caixões, os móveis ou a pedra com o epitáfio.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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