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Rússia e Brasil fecharam um acordo para colocar o idioma russo na grade de algumas escolas brasileiras, com formação de professores e o envio de docentes russos ao país, numa língua falada por até 300 milhões de pessoas no mundo
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 24/07/2026 às 11:26
Atualizado em 24/07/2026 às 12:10
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O anúncio partiu do Ministério da Educação da Rússia e fala em levar o idioma russo para escolas ligadas ao MEC, com formação de professores brasileiros e envio de docentes russos ao país. Até agora não há definição pública de quais escolas entram, quantas serão nem quando as aulas começam.
Representantes dos ministérios da Educação da Rússia e do Brasil se reuniram em formato virtual e definiram que o ensino do idioma russo será introduzido em algumas escolas vinculadas ao Ministério da Educação brasileiro, além de acertarem medidas para ampliar a divulgação e o aprendizado da língua no país. A informação foi divulgada em 23 de julho de 2026 pela assessoria do ministério russo, em seu site oficial, e reproduzida pela rede TV BRICS e também divulgado pelo portal Tribuna do sertão. Do lado russo, participou Usman Rassukhanov, diretor do Departamento de Integração do Sistema Nacional de Educação e Cooperação Internacional da pasta, que destacou a importância de ampliar a cooperação bilateral no setor educacional.
O plano traçado na reunião tem duas frentes de execução. A primeira é a criação de programas de capacitação de professores, apoiada no intercâmbio de experiências pedagógicas entre os dois países. A segunda é ampliar a possibilidade de envio de docentes russos para instituições de ensino brasileiras. As delegações também manifestaram interesse em projetos conjuntos nas áreas de recreação e bem estar infantil e na educação profissional de nível médio, com o ministério brasileiro registrando que a formação de professores qualificados segue entre suas prioridades.
O que exatamente ficou definido na reunião
Aleksandra Nigmatulina / iStock
Convém separar o que foi anunciado do que já está funcionando, porque a diferença muda o tamanho da notícia. O que saiu da reunião virtual é um entendimento entre equipes técnicas, com um plano de trabalho, e não um decreto, uma portaria publicada ou um cronograma com data de início de aulas.
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O texto divulgado pelo lado russo usa formulações que merecem leitura atenta. Diz que ficou definido que o ensino do idioma russo será introduzido em algumas escolas vinculadas ao ministério brasileiro, e ao mesmo tempo diz que o plano prevê ampliar a possibilidade de envio de professores russos. Uma coisa é a decisão de introduzir a língua, outra é a possibilidade ampliada de mandar docentes, e o comunicado trata as duas em graus diferentes de compromisso.
Há ainda um detalhe de linguagem que vale reter. Em nenhum momento o anúncio fala em obrigatoriedade, em substituição de outro idioma ou em mudança de currículo nacional. Fala em introduzir o ensino em algumas escolas, o que aponta para oferta pontual e não para reforma de grade em rede.
Quais escolas entram nessa conta
foto: @telegram Sputnik Brasil
A expressão escolas vinculadas ao Ministério da Educação tem um significado administrativo preciso no Brasil, e ele é mais restrito do que a maioria dos leitores imagina. Não se trata da rede pública inteira. Escolas estaduais respondem às secretarias estaduais de educação, e escolas municipais respondem às prefeituras. O MEC não define grade curricular nessas redes.
O que está sob vínculo direto do ministério é a rede federal de ensino, que reúne os Institutos Federais espalhados pelo país, os centros federais de educação tecnológica, o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e os colégios de aplicação ligados às universidades federais. É um conjunto de instituições grande em prestígio e pequeno em número diante do total de escolas brasileiras. São exatamente as unidades em que uma decisão de ministério consegue chegar sem passar por 26 secretarias estaduais e milhares de secretarias municipais.
Formação de professores e envio de docentes
As duas frentes anunciadas resolvem o mesmo gargalo por lados opostos. Ensinar um idioma exige professor habilitado, e professor de russo é item escasso no Brasil, onde a formação superior em língua russa se concentra em pouquíssimas universidades.
A primeira frente ataca isso pela base, com programas de capacitação para formar e qualificar docentes brasileiros. É a solução mais lenta e a mais duradoura, porque cria quadro próprio. A segunda frente ataca pelo atalho, ampliando o envio de professores russos para instituições brasileiras. É a solução mais rápida, e também a que depende de acordo diplomático permanente para se manter de pé.
Vale registrar que a capacitação de professores foi o ponto em que o lado brasileiro se posicionou de forma mais explícita no comunicado. O Ministério da Educação do Brasil destacou que a formação de quadros pedagógicos qualificados continua entre suas prioridades estratégicas, o que é uma declaração sobre política educacional em geral, e não especificamente sobre o russo.
O que já existe antes deste anúncio
A reunião de julho não inaugura a presença do idioma russo na educação brasileira. Existe uma estrutura em funcionamento há anos, e conhecê la ajuda a dimensionar o que muda agora.
O caso mais consolidado fica em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Desde 2022 funciona ali a Escola Intercultural Bilíngue Russo Brasileira, instalada no Colégio Estadual Tenente Otávio Pinheiro, uma unidade da rede estadual do Rio de Janeiro. O projeto foi montado com estudo aprofundado de língua, cultura e história russas dentro do ensino médio, em escola de tempo integral, e professores do Instituto Estatal de Língua Russa Aleksandr Púchkin ministram aulas e aplicam testes de certificação na unidade.
O movimento se ampliou em 2026. Em fevereiro, Daniil Sin, chefe do departamento de cooperação internacional do Instituto Púchkin, esteve no Brasil e acertou com o reitor da UFRJ, Roberto de Andrade Medronho, o envio de professores russos para ensinar a língua na universidade. O instituto também se comprometeu a mandar docentes para a Universidade Federal Fluminense e a organizar atividades educativas e concursos para crianças e adultos na comunidade do Morro do Estado, em Niterói. O objetivo declarado por Sin é apoiar jovens brasileiros que pretendem ingressar em universidades russas.
Há ainda iniciativas isoladas em outras instituições federais. A Universidade Federal de Juiz de Fora, por exemplo, abriu em julho de 2026 inscrições para um curso gratuito de língua russa, com aulas previstas entre agosto e outubro, apresentado como parte da estratégia de internacionalização da universidade.
Um acordo bilateral que já tem quase três décadas
O trilho institucional em que essa cooperação corre é antigo. Brasil e Rússia mantêm acordo de cooperação educacional desde 1997, e o mecanismo que operacionaliza esse acordo é um grupo de trabalho bilateral que se reúne periodicamente.
A décima terceira reunião desse grupo, dedicada à cooperação educacional, científica e tecnológica, aconteceu em fevereiro de 2026 no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro, coordenada em conjunto pelo MEC, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e pelo Ministério da Ciência e Educação Superior da Rússia. Nela foram firmados acordos entre universidades federais brasileiras e instituições russas parceiras, com assinaturas da UFRJ, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e da Universidade Federal de Minas Gerais, em áreas como biologia marinha e agroquímica.
Em maio de 2026, uma nova reunião em Brasília avançou sobre o mesmo terreno, e é ali que aparece o registro brasileiro mais próximo do tema. Segundo comunicado do próprio MEC, além da educação superior, os dois países identificaram potencial de cooperação na educação básica, no ensino de idiomas e na educação profissional e tecnológica, com foco na troca de boas práticas. Potencial de cooperação em ensino de idiomas é uma formulação bem mais cautelosa do que introdução do idioma russo em escolas, e as duas frases separam maio de julho. Na mesma ocasião, o lado brasileiro manifestou interesse na participação de estudantes russos no Programa de Estudantes Convênio, que oferece vagas gratuitas em instituições brasileiras de ensino superior.
De onde partiu o anúncio, e o que ainda falta confirmar
Este é o ponto em que a matéria precisa ser transparente com quem lê. O anúncio de 23 de julho partiu da assessoria de imprensa do Ministério da Educação da Rússia e foi distribuído a partir do site oficial da pasta russa, sendo depois reproduzido por veículos que cobrem a pauta BRICS.
O comunicado descreve posições brasileiras, como a prioridade dada à formação de professores qualificados, mas a divulgação é de origem russa. Até o fechamento deste texto, o registro público mais recente do Ministério da Educação do Brasil sobre a cooperação educacional com a Rússia continua sendo o comunicado de maio de 2026, que trata de intercâmbio acadêmico e menciona o ensino de idiomas como área de potencial, sem citar escolas, prazos ou o idioma russo especificamente.
Isso não significa que o entendimento não exista. Reuniões técnicas bilaterais produzem resultados que nem sempre viram comunicado imediato dos dois lados, e o histórico documentado da parceria sustenta a plausibilidade do anúncio. Significa apenas que, por enquanto, a versão detalhada da notícia tem uma única origem oficial, e que a confirmação com nomes, números e datas ainda não veio a público.
Por que a Rússia trata isso como política externa
O interesse russo na expansão do idioma não é improvisado nem restrito ao Brasil. A porta voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, já afirmou que o apoio à língua russa no exterior é uma prioridade da política externa do país.
A justificativa apresentada pelo lado russo para o caso brasileiro é educacional e prática. Dmitry Rosental, diretor do Instituto da América Latina da Academia de Ciências da Rússia, avaliou que o conhecimento do idioma ajudaria estudantes brasileiros a ingressar em universidades russas, a acompanhar os cursos com mais aproveitamento e, eventualmente, a se dedicar profissionalmente ao estudo da Rússia. Ele acrescentou que o interesse tende a se concentrar em quem já pretende usar programas educacionais russos.
Nos países do BRICS, segundo o material divulgado, o idioma russo vem ganhando espaço em intercâmbios culturais, educacionais e econômicos. Idioma é infraestrutura de relação internacional, e todo país com ambição externa investe nisso, seja com institutos culturais, seja com professores enviados, seja com bolsas de estudo. É o mesmo mecanismo que sustenta a presença de outras línguas estrangeiras no sistema educacional brasileiro há décadas.
Entre 250 e 300 milhões de falantes
O número que dimensiona o alcance da língua também precisa de contexto. As estimativas de falantes de russo no mundo variam entre 250 milhões e 300 milhões de pessoas, faixa apresentada no material como resultado de diferentes metodologias de contagem.
Essa variação de 50 milhões não é erro, é natureza do cálculo. Números de falantes de qualquer idioma somam duas populações distintas: quem tem a língua como materna e quem a fala como segunda língua, com graus de domínio que vão da fluência plena ao uso funcional básico. Dependendo de onde o pesquisador coloca o corte, o total oscila bastante. O russo é um caso extremo disso, porque tem presença histórica como língua de comunicação em vários países que já integraram a União Soviética.
Para efeito de comparação de escala, é uma língua que circula muito além das fronteiras do país que lhe dá nome, o que sustenta o argumento de utilidade prática levantado pelo lado russo. Também é uma língua de alfabeto próprio, o cirílico, o que a coloca em outra categoria de dificuldade inicial para o estudante brasileiro em relação a idiomas de alfabeto latino.
O que o anúncio ainda não responde
Uma lista curta de perguntas em aberto ajuda a acompanhar o assunto daqui para frente. Quais instituições da rede federal serão contempladas, quantas serão e em que estados. Se o idioma russo entrará como disciplina eletiva, como atividade complementar ou como componente curricular. Qual será a carga horária e em que série começa.
Faltam também as respostas de operação. Quem custeia a formação dos professores brasileiros e o envio dos docentes russos. Como se dará a equivalência de habilitação desses professores estrangeiros diante da legislação educacional brasileira. Se haverá certificação reconhecida ao fim do curso. E, principalmente, quando.
Vale lembrar que o inglês é a língua estrangeira de oferta obrigatória na educação básica brasileira, e que qualquer idioma adicional entra em disputa por espaço dentro de uma jornada escolar que já é apertada. Introduzir uma língua nova em uma escola não é decisão de assinatura, é decisão de horário, de professor e de orçamento, e é nesse terreno que o anúncio de julho ainda precisa ser convertido em fato.
Uma língua a mais na escola, e a discussão que vem junto
O que está posto até agora é um entendimento entre ministérios, com plano de capacitação de professores e ampliação do envio de docentes russos, dentro de uma cooperação bilateral que existe formalmente desde 1997 e que já produziu escola bilíngue no Rio de Janeiro, acordos com universidades federais e cursos de idioma em instituição pública. O que não está posto são os nomes, os números e as datas.
E é aí que a conversa costuma esquentar, porque idioma na escola nunca é só idioma.
Você acha que oferecer o idioma russo na rede federal amplia o horizonte do estudante brasileiro, abrindo porta para universidade e trabalho fora, ou que a prioridade da escola pública deveria estar em outro lugar? Comenta aqui embaixo qual língua estrangeira você gostaria de ter aprendido na escola e por que ela faria diferença na sua vida hoje.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

