Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Satélites já flagram do espaço as nuvens de metano que escapam de dutos e poços pelo mundo inteiro, mas um levantamento da ONU mostra que apenas 13% dos alertas enviados às empresas viram alguma ação concreta

Satélites já flagram do espaço as nuvens de metano que escapam de dutos e poços pelo mundo inteiro, mas um levantamento da ONU mostra que apenas 13% dos alertas enviados às empresas viram alguma ação concreta

5 min de leitura

Satélites já flagram do espaço as nuvens de metano que escapam de dutos e poços pelo mundo inteiro, mas um levantamento da ONU mostra que apenas 13% dos alertas enviados às empresas viram alguma ação concreta

Escrito por Jefferson Augusto

Publicado em 24/07/2026 às 15:30

Atualizado 24/07/2026 às 15:31

Petróleo e Gás

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Sistema das Nações Unidas usa dados de mais de 30 instrumentos em satélites para achar grandes vazamentos de metano em instalações de energia, avisa governo e empresa responsável e acompanha a correção, mas a maior parte dos avisos segue sem resposta.

Desde 2023, um sistema das Nações Unidas vem apontando do espaço, uma a uma, as maiores nuvens de metano que escapam de instalações de energia no mundo. Já são mais de 5 mil alertas emitidos em 33 países. Ainda assim, apenas 13% deles resultaram em investigação e em alguma medida concreta para estancar o vazamento.

O número aparece no balanço mais recente do Observatório Internacional de Emissões de Metano, ligado ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), publicado em abril de 2026. É o retrato de uma tecnologia que já funciona bem para encontrar o problema e continua travando na hora de resolvê-lo.

Como o sistema da ONU descobre um vazamento a centenas de quilômetros de altura

A ferramenta se chama Methane Alert and Response System, ou MARS, e é apresentada pelo Pnuma como o primeiro sistema público global de detecção e notificação de metano. Ela cruza dados de mais de 30 instrumentos instalados em satélites com modelos de inteligência artificial.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

O metano deixa uma assinatura própria quando a luz do sol atravessa a atmosfera, o que permite aos sensores em órbita medir a concentração do gás sobre um ponto específico do terreno. Quando o volume é grande, a emissão aparece na imagem como uma pluma bem definida, com origem rastreável até a instalação.

Daí em diante o processo deixa de ser técnico e passa a ser diplomático. O Pnuma notifica o governo do país e a empresa responsável, informa a localização e a magnitude estimada do vazamento e pede providências, sem poder de fiscalização sobre nenhuma das partes.

Mais de 5 mil notificações enviadas a 33 países desde a estreia

O foco inicial do sistema foi o setor de petróleo e gás, onde o metano escapa por válvulas, compressores, tanques, conexões de dutos e queima incompleta em flares. Boa parte desses escapes é invisível a olho nu e não gera alarme dentro da própria operação.

É justamente esse tipo de perda que o satélite enxerga bem. Um vazamento contínuo em um único ponto de uma planta pode representar, ao longo de semanas, um volume de gás equivalente ao consumo de uma cidade média.

Segundo o Pnuma, o sistema também passou a acompanhar a taxa de resposta por país no setor de petróleo e gás. Alguns países chegaram a responder a 100% das notificações recebidas, enquanto outros praticamente não reagiram, o que explica por que a média global fica tão baixa.

Apenas 13% dos alertas viram ação, e a média não acompanhou o avanço da tecnologia

O contraste é o ponto central do balanço. A capacidade de detecção cresceu, o número de notificações cresceu, mas a resposta de empresas e governos não seguiu no mesmo ritmo, conforme o levantamento do observatório.

Parte da explicação é operacional. Confirmar a origem de uma pluma exige inspeção em campo, equipamento de medição e parada de operação, o que envolve custo e tempo em uma instalação que segue produzindo.

Outra parte é regulatória. Como o alerta não vem acompanhado de obrigação legal, a decisão de agir depende da regra de cada país e da disposição da operadora, e não existe sanção prevista para quem simplesmente ignora o aviso.

O que já foi corrigido equivale a tirar milhões de carros das ruas

Mesmo com resposta baixa, o efeito das correções confirmadas não é pequeno. O Pnuma documentou 41 casos de mitigação até abril de 2026, e calcula que o ganho climático dessas ações equivale a retirar de circulação as emissões anuais de quase 24 milhões de carros a gasolina.

Esse tamanho de resultado vindo de poucas dezenas de casos ajuda a entender a escala do que está em jogo. Cada grande vazamento estancado tem peso desproporcional, porque se trata de um único ponto despejando gás de forma contínua.

A Agência Internacional de Energia analisou separadamente como o setor responde a essas notificações via satélite, em relatório dedicado ao tema, reforçando que a detecção deixou de ser o gargalo do problema.

Por que o metano recebeu prioridade acima do gás carbônico

O metano é o principal componente do gás natural e permanece bem menos tempo na atmosfera que o gás carbônico. Em compensação, seu poder de aquecimento no curto prazo é muitas vezes maior.

Essa combinação faz dele o alvo preferido de quem busca resultado rápido. Cortar metano hoje tem efeito perceptível em poucas décadas, enquanto reduções de CO2 levam muito mais tempo para aparecer na temperatura média.

Há ainda o argumento econômico. Metano que vaza é produto que deixou de ser vendido, o que torna a correção de vazamentos uma das poucas medidas climáticas que costumam se pagar sozinhas.

Em 2026 o monitoramento passou a cobrir carvão e resíduos

Até o ano passado o sistema mirava essencialmente petróleo e gás. Em 2026 a cobertura foi ampliada e passou a emitir alertas também para minas de carvão e para o setor de resíduos, onde aterros liberam metano pela decomposição do lixo orgânico.

A ampliação muda o perfil dos destinatários. Em vez de apenas operadoras de energia, entram na lista mineradoras e administrações públicas responsáveis por aterros, com estruturas e orçamentos muito diferentes.

A meta declarada é chegar a 80% de resposta até 2030

O objetivo assumido pelo Pnuma é elevar a taxa de ação dos atuais 13% para 80% até 2030. O caminho apontado passa por transparência, com divulgação pública das taxas de resposta por país, e por apoio técnico a quem não tem estrutura para investigar.

Também está em discussão amarrar a resposta a compromissos já firmados internacionalmente para redução de metano, de forma que ignorar um alerta passe a ter consequência prática.

Por ora, o sistema segue emitindo notificações a partir de mais de 30 instrumentos em órbita, acumulou mais de 5 mil alertas em 33 países desde 2023 e registra 41 correções confirmadas, com taxa global de ação em 13%, segundo os dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Tags

Fonte

Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma)


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Jefferson Augusto.

Sair da versão mobile