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Sem nunca terem frequentado uma escola quando crianças, cerca de 30 avós indianas de até 90 anos ganharam uniformes rosa, mochilas, lousas e cadernos para aprender o alfabeto, os números e a própria assinatura
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 31/07/2026 às 18:39
Atualizado em 31/07/2026 às 18:40
Curiosidades
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A escola para avós na Índia reuniu mulheres de 60 a 90 anos que haviam passado a infância longe das salas de aula e criou uma rotina de alfabetização com uniformes rosa, materiais visuais e aulas realizadas depois do trabalho doméstico e das atividades no campo.
Cerca de 30 avós indianas de até 90 anos passaram a caminhar pelas estradas de terra da aldeia de Fangane com saris rosa, mochilas, lousas e cadernos. Depois de décadas sem acesso à escola, elas começaram a aprender o alfabeto marata, os números e a própria assinatura.
A informação foi publicada em 6 de março de 2017 por Reuters, agência internacional de notícias com atuação em diversos países. As imagens registradas em Fangane mostraram mulheres com idades entre 60 e 90 anos frequentando aulas durante a tarde.
A escola oferecia uma oportunidade que havia sido negada durante a infância. Na prática, aprender a escrever o próprio nome reduzia uma dependência carregada por décadas e permitia que as alunas participassem de situações simples sem precisar pedir que outra pessoa escrevesse por elas.
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A escola para avós nasceu em uma pequena aldeia a 120 quilômetros de Mumbai
A Aajibaichi Shala, expressão que significa escola das avós, foi criada em Fangane, no estado indiano de Maharashtra. A aldeia ficava a cerca de 120 quilômetros de Mumbai e reunia aproximadamente 70 famílias.
O projeto começou em 8 de março de 2016, data em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher. Yogendra Bangar, professor da escola primária local, ajudou a criar a iniciativa com o apoio de uma instituição beneficente.
As primeiras aulas aconteceram na casa de Sheetal More, professora responsável pela turma. Ela tinha 30 anos quando começou a ensinar as mulheres. A própria sogra de Sheetal estava entre as alunas.
A abertura foi celebrada como uma festa. As famílias acompanharam as avós no primeiro dia, quando muitas delas entraram em uma rotina escolar pela primeira vez. Depois, a turma foi transferida para uma construção feita no quintal da professora, sob a sombra de uma mangueira.
Pobreza, casamento precoce e trabalho doméstico afastaram as mulheres da escola
As alunas haviam crescido num período em que muitas famílias rurais não colocavam as meninas na escola. O trabalho dentro de casa e no campo começava cedo, enquanto o estudo costumava ficar concentrado nos filhos homens.
Grande parte das mulheres também se casou ainda jovem. Kamal Keshav Tupange, uma das estudantes, havia se casado aos 12 anos e nunca tinha frequentado uma sala de aula durante a infância.
A desigualdade aparecia nos dados rurais usados na época. A taxa de alfabetização entre os homens chegava a 79%, enquanto entre as mulheres ficava em 59%. Essa diferença ajudava a mostrar por que tantas idosas da aldeia ainda não sabiam ler nem escrever.
Durante o dia, as mulheres continuavam cozinhando, limpando a casa, cuidando dos animais, trabalhando na lavoura e acompanhando os netos. A escola precisava funcionar sem impedir essas responsabilidades.
Saris rosa deram às avós a experiência de usar um uniforme escolar
As estudantes vestiam saris rosa como uniforme. A escolha reproduzia uma experiência comum entre crianças e adolescentes, mas que nunca havia feito parte da vida daquelas mulheres.
Todas as tardes, elas atravessavam os caminhos da aldeia carregando bolsas escolares, livros, lousas, cadernos, lápis e giz. O uniforme ajudava a identificar a turma e mostrava que aquela reunião tinha horário, professora e atividades organizadas.
A cor rosa intenso transformava a caminhada até a escola em uma das cenas mais marcantes do projeto. Mulheres de 60, 70, 80 e até 90 anos passaram a ocupar um espaço que havia permanecido distante durante toda a juventude.
O uniforme não era apenas uma peça de roupa. Ele fazia parte da oportunidade de viver, já na velhice, uma etapa que a pobreza, o casamento precoce e o trabalho haviam interrompido antes mesmo de começar.
Aulas de 2 horas começavam depois do trabalho na casa e na lavoura
As aulas aconteciam durante 2 horas por dia, 6 dias por semana, sempre no período da tarde. O horário permitia que as mulheres terminassem as tarefas domésticas e o trabalho no campo antes de seguir para a escola.
A rotina começava com uma oração e a chamada. Em seguida, as estudantes repetiam o alfabeto marata, praticavam a escrita nas lousas e nos cadernos e recitavam tabuadas.
Reuters, agência internacional de notícias com atuação em diversos países, registrou o uso de letras pintadas em peças maiores. O recurso ajudava as mulheres que tinham dificuldades de visão, enquanto a lousa permitia apagar e refazer cada exercício.
As limitações físicas ainda causavam desconforto. As mulheres se sentavam em tapetes de algodão colocados no chão. Kamal relatou dores nos joelhos e dificuldade para permanecer sentada por muito tempo, mas continuava frequentando as aulas.
Escrever o próprio nome trouxe uma forma simples e concreta de autonomia
Após aproximadamente um ano de aprendizado, as avós já reconheciam o alfabeto marata, trabalhavam com números e escreviam os próprios nomes. O objetivo não era preparar as alunas para uma universidade ou para um emprego formal.
A transformação aparecia em tarefas menores. Assinar o próprio nome, reconhecer letras e escrever palavras permitia que as mulheres participassem de situações cotidianas com menos dependência.
Anusuya Kokedar passou a assinar o nome, ler e escrever um pouco. Kamal também aprendeu o alfabeto e a própria assinatura. Para mulheres que nunca haviam segurado um lápis dentro de uma escola, esses resultados representavam uma mudança concreta.
Yogendra Bangar explicou que elas queriam fazer algo comum entre os outros integrantes de suas famílias: ler, escrever e assinar o próprio nome. A escola trabalhou a partir dessa necessidade, respeitando o ritmo e as condições de cada estudante.
Alfabetização depois dos 60 exigiu repetição, recursos visuais e uma rotina possível
A escola combinava repetição oral, escrita nas lousas, cadernos e letras maiores. As atividades eram simples, mas permitiam que as alunas treinassem várias vezes até reconhecer os sinais e formar as primeiras palavras.
Sheetal More admitiu que ficou nervosa quando começou a ensinar mulheres idosas. A professora percebeu, porém, que a turma demonstrava interesse e comparecia às aulas mesmo diante das dores e das dificuldades de visão e mobilidade.
O projeto mostrou que a alfabetização poderia ser adaptada a uma fase da vida normalmente ignorada pelas escolas. Em vez de exigir que as avós abandonassem suas responsabilidades, as aulas foram encaixadas na rotina que elas já mantinham.
A experiência registrada em 2017 revelou como uma sala pequena, uma professora e materiais simples abriram uma oportunidade adiada por décadas. O resultado mais importante aparecia na capacidade de reconhecer letras e deixar a própria assinatura.
Os saris rosa, as mochilas e as lousas deram forma a uma conquista que ultrapassava a leitura. Pela primeira vez, aquelas mulheres puderam viver a condição de estudantes e aprender algo que antes dependiam de outras pessoas para fazer.
Se uma escola adaptada à velhice devolveu autonomia a essas avós, quantas pessoas idosas ainda poderiam transformar a própria rotina com uma oportunidade parecida? Comente e compartilhe.
Fonte
Reuters
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

