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Sem um único rio e depois de uma seca que matou um em cada cinco habitantes em 1947, Cabo Verde instalou em 1968 a primeira usina de dessalinização da África e hoje fabrica do próprio mar 28 mil metros cúbicos de água por dia, que chegam à torneira de 7 em cada 10 moradores

Sem um único rio e depois de uma seca que matou um em cada cinco habitantes em 1947, Cabo Verde instalou em 1968 a primeira usina de dessalinização da África e hoje fabrica do próprio mar 28 mil metros cúbicos de água por dia, que chegam à torneira de 7 em cada 10 moradores

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Sem um único rio e depois de uma seca que matou um em cada cinco habitantes em 1947, Cabo Verde instalou em 1968 a primeira usina de dessalinização da África e hoje fabrica do próprio mar 28 mil metros cúbicos de água por dia, que chegam à torneira de 7 em cada 10 moradores

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 27/07/2026 às 01:27

Atualizado em 27/07/2026 às 01:30

Construção

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Sem rios e após seca que matou 1 em cada 5 em 1947, Cabo Verde abriu a primeira usina de dessalinização da África e faz 28 mil m³ de água por dia.

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O arquipélago tem oceano por todos os lados e nenhum rio permanente. Nos anos 1940, a falta de chuva virou sentença de morte coletiva. Hoje o país fabrica a própria água, e discute como fazer isso sem queimar o diesel que precisa importar por navio.

Cabo Verde é um arquipélago vulcânico de dez ilhas no Atlântico, a poucas centenas de quilômetros da costa africana, sem rios permanentes, sem lagos e com chuvas concentradas em poucas semanas do ano, quando elas aparecem. Foi ali que entrou em operação, em 1968, a primeira usina de dessalinização do continente africano, uma decisão tomada ainda sob domínio colonial português e que se tornaria a espinha dorsal do abastecimento nacional.

O país tem hoje capacidade de dessalinizar 28 mil metros cúbicos de água por dia, número apresentado pelo ministro da Agricultura e Ambiente, Gilberto Silva, em março de 2024. É água fabricada, não captada. O contraste com a própria história é o que torna o caso interessante: entre 1947 e 1948, uma seca matou aproximadamente um em cada cinco habitantes das ilhas, segundo levantamento acadêmico sobre o combate à desertificação no arquipélago.

A seca que matou um em cada cinco

A tragédia dos anos 1940 não foi episódio isolado. As ilhas registram fomes ligadas à estiagem desde o século 16 até meados do século 20, em ciclos que se repetiram por gerações.

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A conta da década de 1940 é brutal. As duas piores fomes, entre 1941 e 1943 e entre 1947 e 1948, mataram algo em torno de 45 mil pessoas em um país que tinha pouco mais de 200 mil habitantes no início daquela década. Em algumas ilhas o estrago foi ainda mais concentrado: São Nicolau perdeu cerca de 28% da população e Fogo, aproximadamente 31%.

A causa imediata era a falta de chuva, mas não só. Registros históricos apontam que o governo colonial português demonstrou pouco interesse pela colônia e não adotou medidas para melhorar o acesso à água potável nem para enviar ajuda alimentar. Seca vira fome quando alguém decide não agir, e é por isso que o caso cabo-verdiano é estudado como problema político, e não apenas climático.

O efeito colateral foi o êxodo. Milhares de ilhéus aceitaram contratos de trabalho nas plantações de cacau de São Tomé e Príncipe, e estima se que cerca de 80 mil cabo-verdianos tenham seguido esse caminho entre 1900 e 1970.

O jovem que viu a fome e escolheu agronomia

Um estudante que acompanhava aquilo de perto na ilha de São Vicente se chamava Amílcar Cabral. O que ele viu nas ruas durante a fome dos anos 1940 orientou a escolha de carreira dele.

Cabral optou por estudar agronomia, área diretamente ligada ao problema que assistira, e depois se tornaria a principal liderança da luta pela independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau. Ele foi assassinado em 1973, dois anos antes de a independência ser proclamada.

O detalhe biográfico ajuda a entender por que a água nunca foi tratada como assunto técnico no país. Quando Cabo Verde se tornou independente em 1975, era classificado entre os países mais pobres do mundo, sem petróleo, sem minerais e sem recursos naturais convencionais. O que sobrava era sol, vento e oceano, exatamente os três elementos que décadas depois virariam a base da solução.

1968: a primeira usina de dessalinização da África

A decisão que mudou o abastecimento do arquipélago veio antes da independência. Em 1968 entrou em funcionamento a primeira instalação de dessalinização do continente africano, na ilha do Sal, e o marco foi oficialmente celebrado pelo país em 2018, nos 50 anos da tecnologia em território cabo-verdiano.

Existe uma nuance que a maioria das reportagens ignora. Segundo estudo acadêmico sobre a evolução da dessalinização na ilha do Sal, a primeira central voltada especificamente ao abastecimento público foi instalada em 1972, na vila de Santa Maria, então capital administrativa da ilha, e usava o processo térmico de destilação flash multiestágio.

A tecnologia que domina o setor hoje chegou depois. A osmose inversa foi introduzida no país em 1978, junto com o primeiro empreendimento turístico da ilha, e a partir dali novas unidades foram instaladas sucessivamente. O nome da ilha, aliás, não é coincidência: o Sal era, historicamente, a ilha das salinas, e virou o ponto onde o país aprendeu a fazer o caminho inverso.

Como se tira o sal da água do mar

A água do oceano tem em média 35 gramas de sal por litro, concentração que torna o líquido impróprio para consumo humano. Beber água salgada desidrata em vez de hidratar, porque o organismo precisa gastar mais água para eliminar o excesso de sal do que a que ingeriu.

A separação existe na natureza há bilhões de anos e se chama ciclo da água: o mar evapora, o sal fica para trás, o vapor condensa e volta como chuva. A dessalinização industrial apenas reproduz ou substitui esse processo. A primeira via é a destilação térmica, em que a água do mar é aquecida até evaporar e depois condensada, método eficiente e caro em energia.

A segunda via é a osmose inversa, hoje predominante. Uma membrana com poros pequenos demais para deixar passar o sal recebe água do mar empurrada sob pressão altíssima, e do outro lado sai água doce. O sal, as bactérias e os vírus ficam retidos. A conta que sobra é sempre a mesma: energia elétrica em grande quantidade.

O arranjo cabo-verdiano tem etapas que reduzem o desgaste das membranas. Em muitos casos a captação é feita por poços perfurados na orla, aproveitando a areia como primeiro filtro natural, e depois a água passa por filtros de areia e microfiltros antes de chegar às membranas. Ao final do processo, a água é armazenada, tratada, clorada e distribuída, e o rejeito salino concentrado retorna ao mar.

O paradoxo que quase inviabilizou tudo

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Aqui está o nó que o arquipélago precisou desatar. Para fabricar água, é preciso eletricidade. Para gerar eletricidade em uma ilha isolada no Atlântico, o caminho tradicional é queimar combustível importado, que chega por navio, custa caro e fica refém do preço internacional do petróleo.

O tamanho dessa dependência é considerável. Em 2023, o primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva declarou no parlamento que o país dependia de combustíveis fósseis para cerca de 80% da produção de energia, e que a taxa de penetração das renováveis na geração elétrica oscilava entre 18% e 20%.

A vulnerabilidade não é teórica. Segundo o próprio chefe de governo, a crise inflacionária provocada pela guerra na Ucrânia é o exemplo mais claro de como um choque externo de preço de combustível atinge diretamente um país nessa situação. Resolver a falta de água queimando diesel importado é trocar um problema por outro.

Sol, vento e o nexo água e energia

A saída encontrada tem nome próprio no vocabulário oficial cabo-verdiano: nexo água e energia. A lógica é ligar a produção de água diretamente às fontes renováveis disponíveis no arquipélago.

Os recursos são favoráveis por razões geográficas. As ilhas ficam na rota dos ventos alísios, que sopram com regularidade ao longo do ano, e recebem sol intenso na maior parte dos dias. Foi essa combinação que permitiu tratar dessalinização e transição energética como um único projeto, e não como duas políticas separadas.

As metas nacionais foram fixadas em plano de governo. O objetivo declarado é ultrapassar 50% de eletricidade renovável até 2030 e chegar perto de 100% em 2040, com uma meta intermediária de 30% que originalmente era para 2025 e passou a ser apresentada, em declarações mais recentes, como alvo de 2026. O investimento estimado para cumprir a etapa até 2030 é de aproximadamente 520 milhões de euros, com participação privada relevante.

Maio e Brava: a água fabricada só com sol

Este é o ponto em que muita reportagem erra, e vale registrar com cuidado. A ilha da Brava é frequentemente apontada como a pioneira da dessalinização 100% solar do país, mas não foi ela.

O primeiro-ministro, em discurso parlamentar de 2023, citou dois projetos de água com 100% solar: o da ilha do Maio, já em funcionamento naquela data, e o da ilha Brava, com conclusão prevista para junho de 2024. Ou seja, Maio saiu na frente e Brava veio depois.

Em março de 2024, o ministro Gilberto Silva informou que a Brava estava prestes a entrar no grupo das ilhas com água dessalinizada, no caso específico com recurso a energia solar a 100%. Uma ilha inteira bebendo água que o oceano forneceu e o sol pagou a conta de fabricar é o modelo que o país quer replicar, e é isso que atrai atenção internacional para um arquipélago de meio milhão de habitantes.

Vinte e oito mil metros cúbicos por dia e o que ainda não fecha

Os números de capacidade merecem leitura atenta, porque circulam versões que não batem entre si. A cifra oficial mais recente é a do ministro Gilberto Silva, em março de 2024: 28 mil metros cúbicos por dia mobilizados por meio da dessalinização em todo o país.

Só que outras fontes trazem contas que somam mais do que isso. Em 2018, duas centrais foram inauguradas, uma em São Vicente e outra no Sal, cada uma com capacidade de 10 mil metros cúbicos por dia. E, em Santiago, a entrada em operação de uma nova unidade em 2021 elevou a produção da ilha de 15 mil para 20 mil metros cúbicos diários. A diferença provável está entre capacidade nominal instalada e volume efetivamente mobilizado, mas nenhuma das fontes explicita esse critério.

O sistema também tem falhas conhecidas e admitidas. As perdas nas redes de distribuição são significativas, os custos de operação seguem altos e o próprio governo evita prometer o fim definitivo do problema. Em 2024, o ministro atribuiu as dificuldades a duas causas: uma avaria climática, referindo se a sete anos de chuvas abaixo da média sem recarga dos lençóis freáticos, e as avarias técnicas que sempre existiram no país. A meta declarada de abastecimento é de 90 litros por pessoa por dia.

O que Cabo Verde resolveu antes da hora

Um arquipélago sem rio, sem petróleo e sem minério que aprendeu a fabricar a própria água, e agora tenta fabricá la sem queimar combustível importado. O caso cabo-verdiano interessa ao mundo porque a escassez hídrica deixou de ser problema exclusivo de ilhas e regiões áridas, e porque a dessalinização em larga escala movida a diesel simplesmente transfere o custo do problema da água para a conta do clima.

E você, o que acha dessa solução? Fabricar água do mar é caminho viável para regiões secas como o semiárido brasileiro, ou é solução cara demais para quem já não tem dinheiro? Faz sentido investir bilhões em dessalinização enquanto boa parte da água tratada se perde em vazamento na rede de distribuição? E mais: um país pequeno e pobre conseguir resolver isso antes dos países ricos diz mais sobre competência ou sobre necessidade? Comente sua opinião, principalmente se você trabalha com saneamento, recursos hídricos ou energia e consegue avaliar a conta que fecha e a que não fecha.

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Água potável


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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