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Setenta anos depois de o guepardo sumir do país, a Índia trouxe de avião felinos da África e soltou-os numa reserva, onde já nasceu a segunda geração selvagem
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 27/07/2026 às 18:21
Curiosidades
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Declarado extinto na Índia em 1952, o guepardo voltou em 2022 dentro de caixas de transporte vindas da África. Quase quatro anos depois, os felinos já se reproduzem em solo indiano, a conta oficial passou de meia centena de animais e o projeto acumula elogios do governo e críticas de especialistas.
O ministro do Meio Ambiente da Índia, Bhupender Yadav, anunciou em 18 de fevereiro de 2026 o nascimento de uma ninhada de guepardos no Parque Nacional de Kuno, em Madhya Pradesh, elevando naquele momento para 38 o número de felinos da espécie no país. A mãe é Gamini, fêmea trazida da África do Sul, que se tornou mãe pela segunda vez desde que desembarcou na Índia. A informação foi divulgada pelo ministro em comunicado e em publicação nas redes sociais, e replicada pela agência AFP e pela imprensa indiana.
O anúncio marcou a nona ninhada bem sucedida em território indiano e elevou para 27 o total de filhotes nascidos no país que sobreviveram, segundo os números oficiais daquela data. O contexto por trás da comemoração é o de um animal que havia desaparecido: o guepardo asiático foi declarado extinto na Índia em 1952, e o retorno da espécie só aconteceu em setembro de 2022, com a chegada de exemplares africanos transportados por via aérea.
O anúncio que elevou a conta dos felinos em Kuno
Yadav classificou o nascimento como um novo capítulo do projeto e divulgou uma foto da fêmea com as crias. Ele fez questão de ligar a data a outro marco: a ninhada chegou no momento em que se completavam três anos da chegada dos felinos vindos da África do Sul, ocorrida em fevereiro de 2023. A comemoração oficial veio embalada em números, e são justamente os números que contam a parte complicada da história.
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O tom oficial contrasta com a fama do programa. A própria AFP descreveu a iniciativa como ambiciosa e notória, adjetivo que resume bem uma operação que virou vitrine de governo e alvo de contestação técnica ao mesmo tempo. Os 38 animais anunciados em fevereiro representavam alta em relação aos 28 guepardos importados desde 2022, apesar da mortalidade registrada ao longo do projeto. Vale um registro de precisão: publicações indianas posteriores indicaram que a ninhada de Gamini foi contabilizada com quatro filhotes, e não três, o mesmo tipo de correção que já havia ocorrido em 2024, quando uma ninhada anunciada com cinco crias acabou confirmada com seis depois que a equipe veterinária localizou o último filhote.
Setenta anos de ausência e uma extinção decretada em 1952
O guepardo asiático era encontrado do Oriente Médio à Ásia Central e à Índia. O último exemplar registrado no país morreu em 1947, no distrito de Korea, área que hoje pertence ao estado de Chhattisgarh, e a extinção foi declarada oficialmente cinco anos depois. A subespécie sobrevive hoje em número muito reduzido apenas no Irã, e está classificada como criticamente ameaçada.
Foi essa ausência que o governo indiano decidiu atacar com felinos africanos, uma escolha que gera debate entre biólogos por envolver outra subespécie. A ideia não é nova: o projeto foi concebido em 2009, sofreu uma negativa da Suprema Corte indiana em 2013 e só foi liberado em janeiro de 2020, quando o tribunal autorizou a introdução em caráter experimental para verificar se o animal se adaptaria às condições locais.
O voo que trouxe os primeiros felinos africanos
Em 17 de setembro de 2022, o primeiro-ministro Narendra Modi soltou pessoalmente oito guepardos vindos da Namíbia, cinco fêmeas e três machos, em recintos cercados dentro de Kuno. Em 18 de fevereiro de 2023, outros 12 felinos chegaram da África do Sul. Somados, formaram os 20 animais da primeira fase e transformaram a operação na primeira realocação intercontinental de um grande carnívoro já realizada.
Um detalhe costuma se perder nas manchetes. Os animais não foram largados diretamente na mata: passaram por quarentena e por recintos de aclimatação, os chamados soft bomas, áreas cercadas que variam de 50 a 150 hectares e servem para condicionamento e manejo reprodutivo. A soltura na área livre acontece por etapas, animal por animal, e não de uma vez.
Kuno, 748 quilômetros quadrados escolhidos a dedo
O parque escolhido fica no distrito de Sheopur, cerca de 300 quilômetros ao sul de Nova Délhi, e tem uma área central protegida de 748 quilômetros quadrados. A seleção levou em conta a abundância de presas e a presença de pastagens, dois fatores que definem a sobrevivência de felinos que caçam em corrida aberta.
Kuno nasceu como santuário em 1981, com 350 quilômetros quadrados, e foi elevado à categoria de parque nacional em 2018, quando o objetivo ainda era receber leões asiáticos. O território que seria de leões acabou virando o endereço dos guepardos. Hoje o parque está inserido em uma divisão de vida selvagem bem maior, com pouco mais de 1.200 quilômetros quadrados.
A conta de mortes que o projeto carrega
Nem tudo no projeto é comemoração. Vários dos animais morreram depois de soltos, o que rendeu críticas duras à iniciativa defendida por Modi. Especialistas em reintrodução de fauna lembram que operações desse tipo costumam registrar mortalidade superior a 50 por cento, especialmente nas fases iniciais, quando os animais ainda estão ajustando território, alimentação e comportamento.
Não existe consenso sobre o que fazer com esse dado. Para o governo indiano, a mortalidade estava dentro do previsto para um projeto pioneiro, e cada ninhada nascida no país funciona como resposta às críticas. Para parte dos pesquisadores, o número de perdas indica que o habitat escolhido pode não comportar a densidade pretendida de felinos.
As críticas técnicas vão além das mortes. Pesquisadores alertaram desde o início para a competição por presas com os leopardos que ocupam a mesma área, e um relatório de inspeção do departamento florestal de Madhya Pradesh, revelado pelo jornal The Print em maio de 2026, apontou que os felinos de Kuno foram tranquilizados 110 vezes até setembro de 2024, nos dois primeiros anos do projeto. Estudos citados na reportagem associam o uso repetido de sedativos a efeitos negativos sobre esses animais.
A segunda geração e o que ela significa
Aqui está o marco que muita gente confunde. Os filhotes de Gamini, anunciados em fevereiro de 2026, são a primeira geração nascida em solo indiano, já que a mãe veio da África do Sul. A segunda geração chegou antes, em dezembro de 2025, quando Mukhi, primeira cria nascida na Índia dentro do projeto, teve cinco filhotes, fato divulgado pela agência oficial de notícias do governo indiano como a chegada de uma segunda geração no ambiente selvagem.
A diferença não é detalhe de linguagem. Enquanto os felinos nascidos de fêmeas importadas provam que o animal consegue se reproduzir no local, os netos dos animais africanos são o indicador que interessa aos biólogos: mostram que a espécie pode se sustentar sozinha sem depender de novas remessas vindas da África. Uma população só é considerada viável quando se reproduz por gerações sucessivas sem reforço externo.
Botsuana entrou na conta e a população passou de 50
A lista de origens cresceu. Além dos oito da Namíbia em 2022 e dos 12 da África do Sul em 2023, oito guepardos chegaram de Botsuana em dezembro de 2025, e outros nove vieram do mesmo país em 28 de fevereiro de 2026, sendo seis fêmeas e três machos, recebidos em recintos de quarentena. Com essa remessa, o governo passou a falar em 48 animais no país.
O crescimento seguiu nas semanas seguintes. Em 9 de março de 2026, a fêmea namibiana Jwala teve cinco filhotes, a décima ninhada em solo indiano, e a conta oficial chegou a 53. Em 10 de maio de 2026, o ministro chefe de Madhya Pradesh, Mohan Yadav, soltou dois dos felinos de Botsuana na área livre do parque, e o total nacional subiu para 57, sendo 54 em Kuno e três no santuário de Gandhi Sagar. Desse contingente em Kuno, 17 circulavam livres e 37 permaneciam em recintos de manejo.
Onde os felinos vão morar depois de Kuno
Um parque só não sustenta o projeto. O santuário de Gandhi Sagar, também em Madhya Pradesh, na divisa dos distritos de Mandsaur e Neemuch, virou o segundo endereço da espécie e já abriga três animais. O santuário de Nauradehi aparece nos planos oficiais como terceiro território a receber os felinos.
A meta declarada é formar uma metapopulação autossustentável de 60 a 70 guepardos na paisagem que liga Kuno a Gandhi Sagar até 2032. Junto com os animais, o projeto criou uma estrutura social ao redor: mais de 450 moradores foram treinados como Cheetah Mitras, os amigos do guepardo, 380 empregos diretos foram gerados e 5 por cento da receita de ecoturismo passou a ser repartida com as aldeias do entorno de Kuno. O dinheiro do turismo entrou na conta como parte da estratégia de conservação.
O bicho que ronrona em vez de rugir
Vale entender que animal é esse. O guepardo é o mamífero terrestre mais rápido do planeta e, ao contrário do que o tamanho sugere, não ruge como o leão: emite um ronronado parecido com o de um gato doméstico, só que muito mais potente. Precisa de pouca água e sobrevive em florestas secas, pastagens, planícies abertas e regiões desérticas.
A biologia ajuda a entender o ritmo do projeto. A gestação dura cerca de 90 a 95 dias, as ninhadas costumam variar de três a cinco filhotes, as crias nascem cegas e passam as primeiras semanas escondidas, e a mãe permanece com elas por algo entre 16 e 18 meses. É por isso que a conta de felinos em Kuno sobe aos saltos, com ninhadas inteiras de uma vez, e depois fica parada por meses.
A situação global da espécie explica por que cada ninhada vira notícia. Dados do Ministério do Meio Ambiente indiano apontam queda de uma estimativa de 15 mil adultos em 1975 para menos de 7 mil em 2023. Cada filhote que sobrevive em Kuno entra numa conta mundial que vem encolhendo há décadas. É esse pano de fundo que transforma um nascimento em anúncio ministerial.
Você acha que o guepardo devia ter voltado
O projeto indiano tem duas leituras honestas e opostas. De um lado, uma espécie extinta há 70 anos voltou a se reproduzir no país, a população saiu de 20 animais importados para mais de meia centena e a segunda geração já nasceu. De outro, há mortes, sedação repetida, competição com leopardos e a dúvida de fundo sobre trazer uma subespécie africana para ocupar o lugar de outra que desapareceu.
Agora é com você. Faz sentido gastar dinheiro público para trazer felinos de outro continente e recriar uma espécie que sumiu do país há sete décadas, ou seria melhor investir esse esforço em proteger os animais que ainda resistem por lá? E se um projeto assim fosse proposto no Brasil, para trazer de volta alguma espécie extinta regionalmente, você apoiaria? Comenta aqui embaixo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

