Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Telescópio do ESO fotografa uma onda de choque colorida ao redor de uma estrela morta a 730 anos-luz da Terra, identifica hidrogênio, nitrogênio e oxigênio no arco de gás e conclui que o fenômeno persiste há pelo menos mil anos sem o disco de matéria que os modelos consideram obrigatório, revelando um motor que ninguém sabe explicar

Telescópio do ESO fotografa uma onda de choque colorida ao redor de uma estrela morta a 730 anos-luz da Terra, identifica hidrogênio, nitrogênio e oxigênio no arco de gás e conclui que o fenômeno persiste há pelo menos mil anos sem o disco de matéria que os modelos consideram obrigatório, revelando um motor que ninguém sabe explicar

5 min de leitura

Telescópio do ESO fotografa uma onda de choque colorida ao redor de uma estrela morta a 730 anos-luz da Terra, identifica hidrogênio, nitrogênio e oxigênio no arco de gás e conclui que o fenômeno persiste há pelo menos mil anos sem o disco de matéria que os modelos consideram obrigatório, revelando um motor que ninguém sabe explicar

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 24/07/2026 às 16:03

Atualizado em 24/07/2026 às 16:04

Ciência e Tecnologia

Assista o vídeo
Foto: ESO/Reprodução

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

A anã branca RXJ0528+2838 empurra o gás interestelar como a proa de um navio empurra a água, mas não apresenta o disco de acreção apontado como essencial para alimentar esse tipo de estrutura, e o estudo publicado na Nature Astronomy admite não ter explicação completa para a energia envolvida no processo.

Quem observa a imagem captada no deserto do norte do Chile vê um arco vermelho, verde e azul desenhado no vácuo, logo à frente de uma estrela que deveria estar apagada e inerte.

Formada pelo que sobra de um astro que já consumiu todo o combustível nuclear, essa estrela não tem mais fusão acontecendo em seu interior e, segundo os modelos aceitos, não deveria conseguir empurrar matéria com força suficiente para desenhar qualquer estrutura no espaço à sua volta.

Segundo o Observatório Europeu do Sul, responsável pelo telescópio que registrou as imagens, a descoberta é tão enigmática quanto impressionante e desafia a compreensão atual sobre como estrelas já mortas interagem com o meio que as rodeia.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Anã branca que não deveria brilhar

RXJ0528+2838 é uma anã branca, ou seja, o núcleo denso e quente que resta de uma estrela de baixa massa ao chegar ao fim da vida.

Assista o vídeo

Reduzidas a um corpo com dimensões próximas às da Terra, essas estrelas podem concentrar até 1,4 vez a massa do Sol e emitem apenas energia residual, o que rendeu a elas o apelido de estrelas zumbi entre astrônomos.

Por não fundirem mais elementos leves em pesados, as anãs brancas produzem ventos estelares considerados fracos demais para gerar as marcas de choque que costumam acompanhar estrelas ativas e de grande massa.

Localizada a cerca de 730 anos-luz da Terra, na constelação do Cocheiro, essa em particular orbita o centro da Via Láctea da mesma forma que o Sol e as demais estrelas da galáxia.

Uma onda igual à da proa de um navio

Ao se deslocar pelo espaço, a estrela vai empurrando o gás rarefeito que existe entre os astros e comprimindo esse material à sua frente.

Chamado de choque de proa, o resultado é descrito pelos pesquisadores como um arco curvo de matéria, semelhante à onda que se forma diante de um navio em movimento.

Foto: ESO/Reprodução

As cores registradas pelo telescópio não são efeito decorativo e indicam a composição química do arco, com o vermelho correspondendo ao hidrogênio, o verde ao nitrogênio e o azul ao oxigênio.

Fenômenos parecidos já haviam sido documentados, mas sempre associados a estrelas velozes que perdem massa rapidamente ou a erupções explosivas, situações bem distintas da que foi encontrada agora.

Registrado em um sistema descrito pelos próprios pesquisadores como silencioso e estável, o arco quebra esse padrão ao aparecer sem nenhuma erupção termonuclear recente que justifique tanta energia concentrada em um espaço tão pequeno.

O disco que simplesmente não está lá

A estrela não está sozinha. Ela integra um sistema binário e tem ao lado uma companheira parecida com o Sol, da qual arranca material por atração gravitacional.

Em pares como esse, o material roubado costuma girar antes de cair, formando um disco quente e turbulento em volta da anã branca, e é desse disco que partem os jatos capazes de produzir uma onda de choque.

As observações, porém, não encontraram nenhum sinal desse disco, e essa ausência transforma toda a estrutura visível ao redor da estrela em um problema em aberto para a astrofísica.

Segundo Simone Scaringi, professor associado da Universidade de Durham, no Reino Unido, e um dos líderes do estudo, a equipe encontrou algo nunca visto antes e, mais importante, completamente inesperado.

Campo magnético é a principal suspeita

Diante da ausência do disco, os pesquisadores passaram a investigar outra fonte possível para a energia que sustenta o fenômeno.

A hipótese central envolve o campo magnético da anã branca, confirmado pelos dados como excepcionalmente forte, capaz de capturar o material da companheira e conduzi-lo diretamente até os polos da estrela morta.

Canalizado dessa forma, o gás nunca chega a orbitar a estrela tempo suficiente para formar um disco, o que explicaria por que os instrumentos não detectam a estrutura que os modelos previam encontrar ali.

Conforme resumiu Krystian Iłkiewicz, pesquisador do Centro Astronômico Nicolau Copérnico, em Varsóvia, na Polônia, e colíder do trabalho, o achado mostra que mesmo sem disco esses sistemas conseguem produzir jatos poderosos por um mecanismo que ainda não se compreende.

Mil anos de atividade sem explicação completa

O tamanho e o formato do arco permitiram estimar há quanto tempo o processo está em curso, e o número surpreendeu a equipe.

Calculado a partir da extensão da nebulosa, o período aponta que a estrela vem expelindo material de forma contínua há pelo menos mil anos, o que aprofunda o mistério em vez de resolvê-lo.

Os próprios dados mostram que o campo magnético atual só teria força para alimentar um choque de proa durante algumas centenas de anos, ou seja, a hipótese principal explica apenas parte do que os astrônomos estão vendo.

Batizado por Scaringi de motor misterioso, esse componente ainda não identificado permanece como a lacuna central do estudo, e os autores afirmam que muitos outros sistemas binários precisarão ser observados antes de qualquer conclusão.

Do telescópio na Espanha ao instrumento no Chile

A descoberta não começou no Chile. A primeira pista apareceu em imagens do Telescópio Isaac Newton, na Espanha, quando a equipe notou uma nebulosidade estranha em volta da estrela.

Confirmada a anomalia, o passo seguinte foi acionar o Very Large Telescope, no norte do Chile, e usar o instrumento MUSE para mapear a onda de choque em detalhe e analisar sua composição química.

Segundo Iłkiewicz, essa etapa foi decisiva para confirmar que a estrutura nasce realmente do sistema binário, e não de uma nebulosa ou de uma nuvem interestelar sem relação com a estrela.

Operado por uma organização mantida por dezesseis países, o Very Large Telescope observa o céu do hemisfério sul desde 1998 e é hoje um dos principais instrumentos usados para investigar fenômenos desse tipo.

Assista o vídeo

Passado o primeiro espanto, a equipe planeja acompanhar se a estrutura muda de forma com o tempo e procurar fenômenos parecidos em outras anãs brancas próximas, o que ajudaria a definir se o caso é uma exceção isolada ou o primeiro exemplar de uma classe inteira ainda desconhecida.

Quantos outros processos considerados impossíveis pela ciência atual estão acontecendo neste momento em estrelas que os astrônomos classificaram como mortas e deixaram de observar de perto?

Fonte

eso


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

Sair da versão mobile