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Um cartão obsceno (por José Luis Sastre)

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Um cartão obsceno (por José Luis Sastre)

Os maiores escândalos acontecem à vista de todos, sem necessidade de serem escondidos. Aliás, apontar algo e publicá-lo tornou-se a maneira mais eficaz de encobri-lo, como em “A Carta Roubada “, de Poe. A sociedade do ruído, que compete pela nossa atenção e produz milhões de notícias e alertas por minuto, não consegue se concentrar na mesma história por mais de cinco minutos; assim, a obscenidade acabou triunfando sobre a discrição.

Donald Trump sabe disso, pois opera sob essa lógica há anos e está disposto a deixar que suas declarações e decisões mais controversas se intensifiquem para que, no final, suas propostas iniciais pareçam as mais sensatas, uma espécie de preço fixo para o mal menor. É assim que ele consegue ampliar o escopo do que é normal, ou do que lhe parece normal: a cada novo excesso, ele normaliza os anteriores, que são muito difíceis de lembrar.

Depois de a FIFA, diante de todos os olhos do mundo, ter transferido suas últimas Copas do Mundo para a Rússia e o Catar, e depois de milhares de imigrantes terem sido perseguidos pela polícia de imigração na maior potência mundial, também diante de todos os olhos do mundo, a mais recente controvérsia global girou em torno da pequena questão de um cartão vermelho, que Trump exigiu que fosse anulado para um dos artilheiros de sua equipe. A polêmica impactou o evento que atrai o maior público e gera mais negócios. É claro que tudo isso aconteceu diante de todos os olhos do mundo.

É isso que parece ser, e é disso que Trump se vangloria. Foi assim que ele lançou sua campanha na Venezuela, e foi assim que ele queria lançá-la no Irã, com o mesmo impulso que o leva a acreditar que pode distribuir cartões vermelhos ou amarelos porque pensa que o mundo lhe pertence, desde o bolso de um árbitro até a soberania de outros países. Nesta sociedade de obscenidade, o Presidente dos Estados Unidos sabe que apenas uma cadeia imparável de excessos lhe garante os holofotes com os quais pretende destruir o que sempre foi chamado de bom senso. O cartão vermelho, então, é o símbolo de sua guerra cultural, mesmo que isso possa soar um pouco politicamente correto demais para ele .

(Transcrito do El País)

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