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Uma garra de 46 centímetros apareceu numa pedreira da Alemanha e revelou o maior artrópode aquático já registrado, ele tinha o tamanho de um homem, caçava peixes e desapareceu antes do primeiro dinossauro

Uma garra de 46 centímetros apareceu numa pedreira da Alemanha e revelou o maior artrópode aquático já registrado, ele tinha o tamanho de um homem, caçava peixes e desapareceu antes do primeiro dinossauro

8 min de leitura

Uma garra de 46 centímetros apareceu numa pedreira da Alemanha e revelou o maior artrópode aquático já registrado, ele tinha o tamanho de um homem, caçava peixes e desapareceu antes do primeiro dinossauro

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 30/07/2026 às 13:24

Atualizado em 30/07/2026 às 13:27

Ciência e Tecnologia

Garra de 46 cm achada em pedreira da Alemanha revelou artrópode de 2,5 metros que caçava peixes no Devoniano e sumiu antes dos dinossauros.

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Uma pinça fossilizada encontrada perto da cidade alemã de Prüm permitiu calcular o corpo de um artrópode com cerca de 2,5 metros, que vivia em águas rasas no início do Devoniano. O animal caçava peixes primitivos e sumiu do planeta muito antes de o primeiro dinossauro existir.

Uma peça isolada, encontrada numa pedreira da região do Eifel, na Alemanha, mudou o que a ciência entendia sobre o tamanho máximo que um artrópode pode alcançar. Trata-se de uma quelícera, a pinça que fica diante da boca, atribuída ao euriptérido Jaekelopterus rhenaniae. Reportagem publicada por O Antagonista em 29 de julho de 2026 retomou o caso, descrito originalmente no estudo Giant claw reveals the largest ever arthropod, assinado por Simon Braddy, da Universidade de Bristol, Markus Poschmann e O. Erik Tetlie, publicado na revista Biology Letters em 2008.

O fóssil preservado media 36,4 centímetros e estava incompleto. Ao reconstruir a parte que faltava, os três pesquisadores chegaram a uma quelícera inteira de aproximadamente 46 centímetros e, a partir dela, a um corpo entre 233 e 259 centímetros, com média de 246 centímetros. A peça veio do sítio fossilífero de Willwerath, na Formação Klerf, datada do Emsiano inferior, no início do Devoniano. O material está na coleção de história natural da Renânia Palatinado, em Mainz.

O apelido engana e o parentesco também

Garra de 46 cm achada em pedreira da Alemanha revelou artrópode de 2,5 metros que caçava peixes no Devoniano e sumiu antes dos dinossauros.

Jaekelopterus não era um escorpião. Pertencia aos euriptéridos, grupo extinto de quelicerados que ganhou na linguagem popular o rótulo de escorpiões do mar por causa do formato alongado e da cauda segmentada. O parentesco real é outro: eles estão no mesmo grande ramo que reúne escorpiões atuais, aranhas e límulos, os chamados caranguejos ferradura, mas ocupam um galho separado que morreu por completo.

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O corpo era formado por placas articuladas, vários pares de apêndices e uma porção traseira achatada que funcionava como remo. Esse desenho aparece em toda a linhagem, dos euriptéridos pequenos, do tamanho de uma mão, até os gigantes. O que distinguia os pterigotídeos, o subgrupo de Jaekelopterus, era o primeiro par de apêndices transformado em pinças de captura, com projeções internas parecidas com dentes. Braddy e seus colegas registram que esse subgrupo reúne mais de quarenta espécies conhecidas, presentes em todos os continentes menos a Antártida, com registro entre cerca de 428 e 391 milhões de anos atrás e pico de diversidade no fim do Siluriano.

Como se calcula um corpo inteiro a partir de uma pinça

Não existe esqueleto completo do indivíduo que deixou a garra de Willwerath. O número de 2,5 metros não saiu de uma fita métrica, saiu de proporção. Os pesquisadores levantaram a relação entre o comprimento da quelícera e o comprimento do corpo em euriptéridos aparentados cujos fósseis estão mais completos. Essa proporção se mostrou razoavelmente constante dentro do grupo, o que permitiu aplicar a mesma regra ao fragmento alemão.

Vale entender o que o número inclui e o que deixa de fora. Os 2,5 metros correspondem ao corpo, sem contar as pinças estendidas para a frente. Com as quelíceras abertas, o estudo calcula que o alcance total ganharia cerca de mais um metro. Isso significa que o animal, do fim da cauda à ponta da garra esticada, chegaria perto de três metros e meio. É uma estimativa, e continua sendo, mas é uma estimativa construída sobre método explícito e material comparável, não sobre chute.

A disputa pelo título de maior artrópode da história

Aqui entra uma ressalva importante que muita publicação ignora. O título original do estudo de 2008 afirma que Jaekelopterus é o maior artrópode que já evoluiu, e por mais de uma década foi assim que os livros trataram o assunto. Em dezembro de 2021, porém, uma equipe liderada por Neil Davies, da Universidade de Cambridge, descreveu no Journal of the Geological Society um fragmento de exoesqueleto de Arthropleura encontrado em Howick Bay, em Northumberland, na Inglaterra.

O pedaço, com cerca de 76 centímetros, pertencia a um miriápode terrestre do Carbonífero, com aproximadamente 326 milhões de anos. A reconstrução apontou um corpo de até 2,63 metros, 55 centímetros de largura e cerca de 50 quilos. Como as duas estimativas se sobrepõem dentro da margem de erro, hoje o mais correto é dizer que Jaekelopterus é o maior artrópode aquático conhecido, enquanto Arthropleura disputa o posto absoluto em terra firme. Nenhum dos dois foi medido diretamente, e ambos dependem de reconstrução.

Olhos que revelaram um caçador visual

Garra de 46 cm achada em pedreira da Alemanha revelou artrópode de 2,5 metros que caçava peixes no Devoniano e sumiu antes dos dinossauros.

O tamanho não foi a única surpresa. Em 2016, Markus Poschmann, Brigitte Schoenemann e Victoria McCoy publicaram na revista Palaeontology uma análise das estruturas visuais de euriptéridos do Devoniano renano. Os olhos compostos de Jaekelopterus apresentaram ângulo interomatidial abaixo de um grau, valor que fica dentro da faixa observada em artrópodes predadores ativos modernos. Quanto menor esse ângulo, mais densamente empacotadas estão as unidades do olho e maior a resolução da imagem.

Três anos depois, Schoenemann, professora da Universidade de Colônia, foi além com microscopia eletrônica. O estudo publicado na Scientific Reports em dezembro de 2019, feito em parceria com Poschmann e com Euan Clarkson, da Universidade de Edimburgo, identificou cilindros de lente, células sensoriais organizadas de forma concêntrica e uma célula excêntrica especializada. A arquitetura é a mesma dos límulos atuais, o que indica que o mecanismo de realce de contraste já existia há mais de 400 milhões de anos. Segundo a pesquisadora, o alvo mais provável desse aparato eram os placodermos, peixes encouraçados que dividiam o ambiente com ele.

Predador veloz ou emboscada paciente

A imagem clássica é a de um artrópode gigante cruzando a água em disparada atrás da presa. Ela vem justamente do cruzamento entre o tamanho, a acuidade visual e a estrutura das quelíceras, e foi defendida no trabalho de 2016, que descreveu Jaekelopterus como um caçador ágil.

Estudos mais recentes puxaram o freio nessa reconstrução. Trabalhos de Russell Bicknell e de Simon Braddy publicados em 2023 sugerem que os pterigotídeos nadavam de forma relativamente lenta e provavelmente se aproximavam da presa aos poucos, atacando com um bote curto no momento final. As análises de estresse aplicadas aos modelos das pinças indicam que o aparelho de captura de Jaekelopterus suportava bem a manipulação de presas grandes e móveis, inclusive as protegidas por armadura. A capacidade de matar não está em discussão. O que mudou foi a ideia de perseguição em alta velocidade.

Onde vivia esse artrópode quando o mapa era outro

No Devoniano, as massas de terra estavam arrumadas de maneira irreconhecível para os olhos de hoje. A Euramérica ocupava faixas próximas ao equador e Gondwana concentrava boa parte das terras do hemisfério sul. O ponto da Alemanha onde a garra apareceu fazia parte de um sistema aquático raso conectado a ambientes costeiros e continentais.

O detalhe mais irônico é que o escorpião do mar provavelmente não vivia no mar. Os sedimentos associados a J. rhenaniae apontam para águas salobras ou doces, rios e estuários, não oceano aberto. Nesse cenário, ele encontrava peixes sem mandíbula, peixes primitivos já com mandíbula e outros artrópodes de porte menor, presas compatíveis com um predador que dominava o topo local da cadeia alimentar. A espécie foi nomeada por Otto Jaekel em 1914, décadas antes de alguém imaginar que ela guardava um recorde.

Por que os gigantes sumiram muito antes dos dinossauros

Os euriptéridos apareceram centenas de milhões de anos antes do primeiro dinossauro e resistiram até o fim do Permiano, sendo varridos na extinção em massa de aproximadamente 252 milhões de anos atrás. Os gigantes nadadores, porém, foram embora bem antes disso. As grandes formas predadoras começaram a perder espaço já durante o próprio Devoniano.

O período coincide com a expansão dos peixes de mandíbula, mais rápidos, maiores e muitos deles blindados. Algumas linhagens de euriptéridos recuaram para rios, pântanos e águas salobras e continuaram existindo em tamanho reduzido. Os colossos não. Sobre a causa do gigantismo, o estudo de 2008 é direto ao separar os casos: o excesso de oxigênio atmosférico explica razoavelmente os artrópodes terrestres do Carbonífero, mas não dá conta do gigantismo aquático, muito mais espalhado no tempo e provavelmente ligado a disponibilidade de recursos, pressão de predação e competição.

O que ainda falta descobrir

A lista de incógnitas é grande. Não há esqueleto completo do maior indivíduo, não se sabe qual era o limite superior real da espécie e nem quantas mudas de exoesqueleto ele passava até chegar ao tamanho adulto. Cada peça nova pode empurrar a estimativa para cima ou para baixo, e foi exatamente isso que aconteceu quando a garra de Willwerath apareceu: as estimativas anteriores para o grupo ficavam cerca de meio metro abaixo.

Também segue em aberto o desenho fino do comportamento. Reconstruir hábito de caça a partir de olho fóssil e de biomecânica de pinça é trabalho de inferência, e a comunidade científica revisou essa leitura pelo menos duas vezes em uma década. O que nenhum estudo contesta é o fato central: por dezenas de milhões de anos, o topo da cadeia alimentar de vários ambientes aquáticos foi ocupado por um artrópode do tamanho de uma pessoa.

E você, imagina como seria dar de cara com um bicho desses num rio raso? Conta aqui nos comentários se você acha que a ciência ainda vai encontrar um artrópode fóssil maior que esse ou se o recorde já bateu no teto.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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