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Uma simples reforma virou pesadelo histórico quando a moradora, na zona portuária do Rio, achou embaixo do próprio piso o cemitério de escravizados do maior porto de tráfico do Brasil, num achado que ela chamou de ‘holocausto negro debaixo da minha casa’

Uma simples reforma virou pesadelo histórico quando a moradora, na zona portuária do Rio, achou embaixo do próprio piso o cemitério de escravizados do maior porto de tráfico do Brasil, num achado que ela chamou de ‘holocausto negro debaixo da minha casa’

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Uma simples reforma virou pesadelo histórico quando a moradora, na zona portuária do Rio, achou embaixo do próprio piso o cemitério de escravizados do maior porto de tráfico do Brasil, num achado que ela chamou de ‘holocausto negro debaixo da minha casa’

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 22/07/2026 às 23:57

Curiosidades

Reforma em uma casa na Gamboa revelou o Cemitério dos Pretos Novos, no maior porto de tráfico do Brasil. Veja a história do achado de 1996 e do instituto.

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Em 8 de janeiro de 1996, uma reforma para erguer o segundo andar de uma casa na Gamboa revelou o Cemitério dos Pretos Novos, onde eram jogados os corpos dos africanos que morriam antes de serem vendidos. Trinta anos depois, o local virou instituto e já recebeu 300 mil visitantes.

A reforma começou em 8 de janeiro de 1996 e deveria ser apenas isso: uma obra sonhada por Merced e Petrucio Guimarães dos Anjos para erguer um segundo andar na casa da Gamboa, na zona portuária do Rio de Janeiro, e dar espaço para as três filhas pequenas correrem. Os pedreiros abriram os buracos das colunas e, na hora do almoço, um deles procurou a dona da casa intrigado com o que estava saindo do chão.

O que ele achava serem ossos de cachorro enterrados por antigos moradores era outra coisa. Merced foi até o entulho, encontrou uma arcada dentária adulta, depois uma pequena demais para pertencer a um adulto, e a partir dali a vida da família mudou de rumo. Aquela casa estava sobre o Cemitério dos Pretos Novos, o local onde eram descartados os corpos dos africanos que morriam logo após desembarcar no Valongo, o maior porto de entrada de pessoas escravizadas do Brasil.

O dia em que a obra parou

Reforma em uma casa na Gamboa revelou o Cemitério dos Pretos Novos, no maior porto de tráfico do Brasil. Veja a história do achado de 1996 e do instituto.

A casa tinha sido a primeira propriedade da família, comprada depois de anos de aluguel. Merced e Petrucio se mudaram e passaram mais seis anos juntando dinheiro até conseguirem bancar a reforma. Segundo o relato dela à BBC News Brasil, o imóvel datava de 1866, época em que a ocupação residencial da região portuária se consolidou.

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A cena descrita por Merced é difícil de esquecer. Ao mostrar ao pedreiro que a arcada dentária era humana e igual à deles, o homem se benzeu. Quando ela apontou a segunda arcada, pequena, de criança, o pedreiro começou a chorar, e todos ficaram parados olhando. Ela foi separando os ossos em um canto, depois em caixas. Havia muito osso quebrado.

Vieram as especulações naturais de quem não entende o que está vendo. A família chegou a cogitar que antigos donos tivessem matado e enterrado pessoas ali, ou que fosse obra de um assassino em série. Nenhuma dessas hipóteses passava perto do que era.

O vizinho, o livro antigo e o mapa

No mesmo dia, Merced chamou um vizinho conhecedor da história da região portuária. Ele chegou com um livro antigo, e nele havia um mapa que indicava um cemitério situado perto dos mercados onde pessoas escravizadas eram vendidas.

Foi ele quem deu o nome ao que estava debaixo do piso. A moradora estava sobre um cemitério de escravizados, e acabara de reencontrá-lo. A reação dela foi de perplexidade prática: e agora, o que fazer com isso.

A pergunta tinha peso porque a existência do cemitério não era segredo dos arquivos, e a reforma tinha acabado de esbarrar em algo que a historiografia já registrava. Registros históricos comprovavam que ele havia funcionado. O que se perdera era a localização exata, apagada pelos aterros e pelo crescimento da cidade sobre a antiga faixa do Valongo.

O que era o Cemitério dos Pretos Novos

A expressão pretos novos designava os cativos recém-desembarcados no Brasil, que ainda não falavam português e sequer haviam sido vendidos. Muitos não sobreviviam à travessia atlântica nem aos armazéns onde eram expostos para venda, morrendo de doenças como varíola e disenteria.

Merced, que desde a reforma passou a estudar o assunto, faz questão de recusar as palavras cemitério e enterro para descrever o que acontecia ali, porque as duas pressupõem um respeito que não existiu. Eram valas onde os corpos eram lançados sem qualquer rito, queimados por causa do mau cheiro e esmagados sob os restos que chegavam depois.

Também não era um cemitério clandestino, e esse detalhe importa. Os óbitos eram registrados pela Igreja Católica, e o instituto conseguiu recuperar doze anos de registros que restaram intactos. Na maior parte deles, os mortos aparecem sem nome, identificados apenas pela data do óbito, pelo navio em que chegaram e pela procedência. Quando havia um nome, com frequência era o do senhor a quem o cativo se destinava.

Quantas pessoas estão ali embaixo

Aqui aparece uma divergência que vale registrar com transparência. Merced estima 40 mil pessoas sepultadas na área atingida pela reforma, que segundo ela se estende sob quatro casas. Levantamentos de museus e instituições de memória trabalham com uma faixa menor, entre 20 mil e 30 mil corpos, sempre com a ressalva de que esses números não constam dos registros oficiais.

Os registros de fato existentes são bem mais modestos, porque cobrem um período curto. A documentação da freguesia de Santa Rita aponta cerca de 6,1 mil corpos apenas entre 1824 e 1830. Nenhuma dessas contas é definitiva, e a diferença entre elas diz muito sobre o descaso com que essas mortes foram anotadas.

O período de funcionamento também aparece com pequenas variações conforme a fonte, geralmente entre 1769 e 1830, com algumas referências indicando 1772 como início. O que não varia é o perfil de quem está ali: bebês, crianças, jovens, mulheres, inclusive grávidas, vindos de Moçambique, do Congo, de Angola e alguns da Costa do Marfim.

Por que o Valongo virou o maior porto de tráfico do país

A geografia do horror tem uma data de origem. Em 1774, o vice-rei Marquês do Lavradio transferiu o desembarque dos escravizados da rua Direita, atual Primeiro de Março, para a região da praia do Valongo, então fora dos limites da cidade. O motivo declarado era afastar do centro uma atividade que as elites consideravam incômoda e anti-higiênica.

O deslocamento não trouxe dignidade nenhuma, apenas distância. Estima-se que 1 milhão de pessoas escravizadas tenham desembarcado no Valongo até a desativação, em 1831. O Rio de Janeiro foi a cidade que mais recebeu pessoas escravizadas no Brasil, e cerca de 300 mil morreram antes mesmo de chegar, conforme pesquisa recente da Emory University, nos Estados Unidos.

O país inteiro carrega essa conta, muito além da reforma que reabriu o assunto na Gamboa. O Brasil foi o maior destino de escravizados nas Américas, tendo recebido cerca de 4,8 milhões de africanos ao longo de mais de três séculos, e foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão.

Quinze anos antes do Cais do Valongo

Quando a reforma revelou o cemitério, nada daquilo estava no mapa turístico ou no debate público. Eram os anos 1990, o viaduto da Perimetral ainda lançava sua sombra pesada sobre a região portuária e, fora da academia, quase não se falava do bairro como porta de entrada de africanos escravizados.

O Cais do Valongo só seria reencontrado em 2011, durante as obras do Porto Maravilha, a remodelação da região para os Jogos Olímpicos, e reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial em 2017. Ou seja, a descoberta feita por uma dona de casa em uma reforma particular antecedeu em quinze anos o achado que colocou a escravidão no roteiro oficial do Rio.

Merced conta que cresceu na região portuária sem nunca ouvir falar que ali houvera um entreposto de venda de pessoas. Era uma história escondida, e ela passou a abrir a própria casa para visitas em datas pontuais, como o Dia da Consciência Negra e o da Abolição. No começo, a dúvida era quem iria querer conhecer um cemitério.

Da garagem ao instituto: 21 anos depois

As visitas foram crescendo, e com elas o incentivo de amigos do movimento negro para criar uma instituição capaz de lutar pelo local. Em 13 de maio de 2005, data da Abolição, a família e ativistas fundaram o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, que completou 21 anos.

O que seria a garagem, e que a reforma de 1996 nunca chegou a concluir como garagem, virou memorial com exposição permanente. No quintal onde caberiam árvores e a piscina que nunca existiu, funcionam hoje um café, uma loja e uma biblioteca especializada em tráfico atlântico, escravização e diáspora negra. Uma janela de vidro no chão expõe o sítio arqueológico: terra avermelhada e marmoreada, entremeada por incontáveis fragmentos de ossos.

Merced tem 69 anos e diz estar ali todos os dias, a todas as horas. O casal continua morando na casa de 1866, parede com parede com o espaço aberto ao público, onde, segundo ela, basta quebrar o contrapiso para encontrar osso à flor da terra. Até o ano passado, o instituto havia recebido cerca de 300 mil visitantes, sem contar quem participa das caminhadas educativas do Circuito de Herança Africana.

O centro cultural novo e a conta de luz

O aniversário de 21 anos veio acompanhado de uma ampliação. O Centro Cultural Pretos Novos, na vizinha rua do Livramento, foi aberto para receber saraus, rodas de samba, exposições, oficinas, lançamentos de livros e clube de leitura para crianças em visita escolar, atividades que o instituto já promovia sem espaço adequado.

A reforma do imóvel novo saiu do mutirão. Segundo Merced, o prédio estava em péssimo estado e foi recuperado com ajuda de amigos, cada um contribuindo com o que podia, da tinta à mão de obra e à parte elétrica. Ela agora busca recursos para reformar o segundo andar, de área ainda maior.

O financiamento é o ponto frágil da história toda. A manutenção depende de editais, emendas parlamentares e fomento público que vai e vem, e Merced descreve a rotina como uma caça permanente por recursos, com o desejo simples de ter segurança para abrir e fechar as portas todo dia. Há uma expectativa recente: o BNDES informou estar em tratativas com o instituto para uma parceria voltada ao novo centro cultural, com projeto conceitual em elaboração, no âmbito da Iniciativa Valongo, lançada em 2023, e do plano do Distrito Cultural Pequena África.

Trinta anos depois daquela reforma interrompida, Merced não fala em missão cumprida. Ela avalia que ainda há muito a fazer e que tudo é frágil, porque memória que fica um dia sem ser dita começa a apagar. Uma comparação dela resume por que o cemitério merece a mesma atenção que o cais reencontrado em 2011: “O cais é pedra, aqui são corpos.” O primeiro era onde chegavam. O segundo, onde ficaram.

E você, já conhecia a história do Cemitério dos Pretos Novos ou é a primeira vez que ouve falar dele? Na sua opinião, por que lugares assim recebem tão pouco investimento público? Conta nos comentários se você visitaria o instituto em uma passagem pelo Rio.

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Reforma


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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